Crítica | A Rede (2016)

estrelas 5,0

É importante deixar claro desde o início: para interpretar os argumentos do roteiro deste filme, mesmo que dentro de um contexto dramático e fictício (inspirado na real situação da divisão entre as duas Coreias), é preciso deixar  de lado todo tipo de vício analítico ou má fé no julgamento de ideologias. Para olhares contaminados, Kim Ki-duk está cometendo uma falácia lógica bastante conhecida, a da falsa equivalência, que é comparar dois objetos e, através de similaridades que possuem, concluir algo universal (e falso) sobre eles. Mas não é isso o que o diretor está fazendo aqui.

Em A Rede (2016), o pescador norte-coreano Chul-woo (Ryoo Seung-bum) se vê em uma situação complicada, já sugerida (desnecessariamente) em um diálogo antes mesmo de acontecer: sua rede de pesca fica presa no motor do barco, que queima, e ele é levado pela correnteza até a fronteira e então ao solo da Coreia do Sul. Separado da esposa e da filha, em país historicamente inimigo do seu, o ingênuo Chul-woo terá que responder a um interrogatório para provar que não é um espião. Esta, porém, é a primeira camada do filme. Daí em diante, o diretor nos fará pensar sobre o impacto negativo de todo fanatismo ideológico para países e cidadãos, especialmente aqueles que estão à mercê da sorte no fogo cruzado entre os detentores das armas para defender ou fazer ouvir essas ideias.

Um dos elementos mais interessantes da obra de Kim Ki-duk é que sua prolífica produção tende a ser diversificada, tanto na escolha dos temas, quanto no uso técnico do cinema para contar suas histórias. Em A Rede, ele faz pequeno uso do lirismo na representação da imagem na fronteira, mas esse momento é breve e marcado por forte tensão. O roteiro, também escrito pelo diretor, instiga-nos a opinar sobre a situação, nos faz ter medo e torcer para Chul-woo, embora não tenhamos certeza se ele é aquilo que afirma ser, e isso torna tudo ainda mais interessante. Com um elenco de excelentes performances, especialmente de Ryoo Seung-bum, como o protagonista, o diretor nos fará ver os impasses estatais através de olhos pessoais, com seus erros, neuroses, idiossincrasias e ideologias, às vezes não condizentes com aquilo que seu próprio país prega.

A questão que levanto no início do texto aparece quando comparamos a estadia do pescador nas salas de interrogação na Coreia do Norte e do Sul. Fica clara a ideia de similaridades de “barbárie” entre os dois lugares, embora sejam tratadas de maneira diferente pelo cineasta, e tragam a presença (no Sul) e ausência (no Norte) dos direitos humanos, o que já derrubaria o argumento de que o filme é uma “falsa equivalência”. Há também muitas mudanças visuais para os dois lugares e esse é o primeiro impacto de leitura a ser feito. O desenho de produção mais clean e tecnológico é utilizado para o sul, onde se destaca o uso de branco e azul na fotografia. Já para o norte, temos cenários sujos, envelhecidos e marcados por velharias ao redor dos cômodos, com destaque para as cores cinza, marrom e amarelo na fotografia.

Em ambos os países, o roteiro traz um tipo de piada alternada com um sofrimento e uma clara visão de que o poder pode muito bem corromper seus agentes, e que eles, independente do espaço onde estão ou da linha ideológica que obedecem (há um “senão” aí em relação a ações políticas com cunho religioso), podem agir da mesma forma. Mas em nenhum momento o norte e o sul são equiparados como forças iguais, contendo sua própria graça e miséria.

O peso maior para a ditadura comunista da Coreia do Norte ganha um ponto de partida óbvio, de modo que o diretor usa dos encontros e de situações pitorescas para salientar os horrores, definitivamente marcados no filme na cena final. Já a representação do sul ganha um maior destaque em suas divergências, pois é mostrado a partir dos olhos de alguém que passava fome, não tinha dinheiro, não podia se expressar, quase não possuía bens. Esses elementos, no entanto, não tiram a observação que gera o comentário do simpaticíssimo guarda de Chul-woo: quanto maior a luz, maior é a sombra.

A discussão do filme traz à tona uma boa demonstração de como o fanatismo destrói indivíduos, de como o alinhamento ideológico impede o diálogo e negociações de paz, de como a política pode ter nuances tão sentimentais que ultrapassam estruturas e superestruturas, gabinetes, acordos e cargos. No entanto, esses interesses pessoais parecem uma marca registrada e às vezes desprezadas por todos aqueles que vêem acontecer, mas acham que faz parte do pacote. A Rede é sobre o uso da força, sobre diferentes estilos de vida em uma cultura que deveria ser igual, e sobre como um lugar, sistema ou governo podem ser pior (ou melhor) que o outro, mas não necessariamente isentos de coisas ruins e de muitos elementos que tão intensamente criticam em seus adversários.

A Rede (The Net / Geumul) — Coreia do Sul, 2016
Direção: Kim Ki-duk
Roteiro: Kim Ki-duk
Elenco: Guyhwa Choi, Lee Won Gun, Kim Young-min, Ryoo Seung-bum
Duração: 114 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.