Crítica | A Rede Social

estrelas 5,0

Lembro-me claramente a primeira, e até recentemente única vez que assisti A Rede Social. Lembro-me de pensar algo assim: “tenho que ver, pois é um filme de David Fincher, mas o assunto – a criação do Facebook – não poderia ser menos interessante para mim”. À época, não usava a ferramenta e mesmo hoje tenho minhas reservas pessoais. De toda forma, tenho a vívida memória de ter saído do cinema totalmente de queixo caído. Essa impressão perdurou ao longo dos anos e, agora, quando finalmente revi o oitavo filme de Fincher para elaborar a presente crítica, ela foi reconfirmada em sua integralidade, talvez até ampliada.

Em poucas palavras, A Rede Social é um grande filme, talvez o melhor de 2010, mesmo considerando Toy Story 3, A Origem, Cisne NegroO Vencedor e O Discurso do Rei, esse último nem tão bom assim, mas que acabou abocanhando o Oscar de Melhor Filme do ano. A Rede Social é, provavelmente um filme mais completo e redondo, reunindo, sob a batuta detalhista de David Fincher, doses iguais de um grande – e improvável – elenco, uma história surpreendentemente intrigante, um roteiro perfeito e fotografia e trilha sonora belas, brilhantes mesmo.

Mas para realmente apreciar o filme, vamos esquecer, por um momento que seja, que A Rede Social é baseado, em princípio, em fatos, ou seja, no surgimento do Facebook pelas mãos de seu criador Mark Zuckerberg. Vamos esquecer, para fins dessa conversa inicial, o que porventura podemos achar do personagem e dos demais participantes da trama na vida real, inclusive e especialmente para nós, do brasileiro Eduardo Saverin. Vamos esquecer, também, tudo o que sabemos – ou não sabemos – sobre o Facebook. Analisemos o filme como uma obra inteiramente de ficção pelos próximos parágrafos, ainda que eu vá voltar à realidade no final dessa crítica.

Pois bem, esqueceram?

Então vamos lá.

Jesse Eisenberg (Zumbilândia) faz o papel do gênio da computação e estudante de Harvard sem nenhuma habilidade social, Mark Zuckerberg que, em determinado momento, irritado por uma bizarra discussão que teve com sua namorada, levando ao fim da relação, resolve se vingar criando uma ferramenta que faça o ranqueamento das meninas mais bonitas de sua faculdade. Ele troca ideias com seus colegas de quarto e parte para programar, em algumas horas, um insano site de comparação de mulheres, hackeando, para isso, a listagem (ou facebooks) de todas as fraternidades do campus. No processo, ele precisa desesperadamente de seu amigo brasileiro, o estudante de economia Eduardo Saverin (Andrew Garfield) pois ele conhece uma equação matemática necessária para seu plano “maquiavélico”.

Em horas, todo mundo de Harvard acessa seu site, então batizado de Facemash, para votar na menina mais bonita, acarretando a queda dos servidores da faculdade diante do inusitado tráfego gerado. Imediatamente, Zuckerberg chama a atenção de toda a comunidade da faculdade, especialmente do reitor e dos irmãos gêmeos Tyler e Cameron Winklevoss (vividos por Armie Hammer em um dos melhores usos de computação gráfica e efeitos visuais para gerar “duplos”).

Do reitor e da comissão que analisa seu caso, poucas consequências práticas fluem, apesar de uma excelente cena de acareação, em que Zuckerberg menospreza o sistema de informática da faculdade. No entanto, da relação com os Winklevoss, nasce o Facebook, a rede social de maior sucesso do planeta, já com 500 milhões de usuários no ano do lançamento de A Rede Social. Os irmãos contratam Zuckerberg para criar um rede fechada de amizades, como se fosse um clube exclusivo.

Zuckerberg, então, usurpa a idéia, ignora os Winklevoss e lança, junto com Saverin, que providencia a modesta quantia necessária, o site The Facebook. Evidentemente, os irmãos, de família abastada, não gostam do que vêem, mas tentam de toda maneira chegar a um acordo extrajudicial com Zuckerberg.

Ao mesmo tempo, os criadores do The Facebook fazem amizade com um elétrico Sean Parker (Justin Timberlake), fundador do Napster e que vive a vida de seu sucesso passado, como se ele fosse uma locomotiva sem freio. A relação de Zuckerberg com Parker acaba levando o Facebook para a Califórnia e retirando Saverin da jogada. Assim, Zuckerberg, o gênio anti-social, acaba enfrentando duas ações judiciais.

Mas o filme não é “de tribunal”. As duas ações judiciais são todas elas em fase pré-tribunal, que envolve apenas as partes, seus advogados e longos depoimentos ao redor de uma mesa de escritório. É uma espécie de preparação para a efetiva briga judicial.

David Fincher inicia o filme no passado, com o tal diálogo entre Zuckerberg e sua namorada. O diálogo é impressionante por ser muito bem escrito e costurado, estabelendo com clareza a personalidade do personagem principal. Eles começam discutindo sobre clubes exclusivos, mostram a obsessão de Zuckerberg em entrar em um deles, a hesitação de sua namorada e todo o inferno que é criado a partir daí. Fincher, então, corta para a mesa de depoimentos e, a partir desse momento, o filme vai e volta, mas sempre de maneira relevante para o impulsionamento da trama.

Eisenberg, um ator que até então considerava inexpressivo, nos convence piamente da personalidade perturbada e genial de seu personagem. Ele consegue transmitir a exata dose de nerdice e incapacidade no trato social que o personagem exige, atraindo olhares de admiração da platéia, ao mesmo tempo em que consegue, em determinadas cenas, dar asco. Vemos logo de cara que Zuckerberg é um ser diferente, uma espécie de Rain Man do mundo da computação, que mostra que está em casa em frente a um computador, mas que é completamente alheio ao que acontece ao seu redor, como se não tivesse sentimentos. Mas Eisenberg, sob a rígida direção de Fincher, consegue deixar margem para aquela dúvida no espectador: ele é assim mesmo, gerando o sentimento de pena por suas limitações ou ele finge que é assim, gerando o sentimento de ódio por suas inações?

Andrew Garfield (então recém anunciado como o novo Peter Parker) faz um rapaz inocente que acredita e confia cegamente eu seu amigo. Ele jamais imaginaria o que estaria por vir e só acredita quando um contrato bastante injusto é esfregado em seu rosto. Talvez seja o personagem mais raso de todo o filme, mas isso não é exatamente algo ruim. O foco é Zuckerberg. Saverin faz uma espécie de antítese total, o amigo fiel e bonitão que é traído. O empreendedor que é enganado. David Fincher tomou uma clara posição quanto ao que acha de Zuckerberg, criando um Saverin mais simples e, portanto, mais fácil de simpatizarmos em detrimento a Zuckerberg.

Armie Hammer está muito bem como os dois irmãos também ludibriados por Zuckerberg. Ele passa duas personalidades próximas, mas diferentes, uma mais aguerrida e a outra mais contemporizadora com bastante segurança e um alto grau de convencimento.

A estrela do filme, porém, para minha absoluta surpresa, é Justin Timberlake. Lembro-me que, quando li que ele seria um dos atores do filme, imaginei-me em um diálogo com o diretor indagando o que se passava na cabeça dele por escalar um cara tão improvável.

No entanto, Timberlake mostra imensa latitude. Seu personagem está ligado todo o tempo em 220 volts e ele consegue literalmente criar alguém odioso, um verdadeiro monstro por detrás de seu simpático, aberto e divertido semblante. Sempre relaxado, Sean Parker é retratado como a serpente no paraíso, um ser abjeto que vive de seu duvidoso sucesso passado (“eu destruí a indústria fonográfica” ele fala com orgulho), mas que precisa sugar sucessos alheios para se manter vivo. É um parasita, um sanguessuga, mas é maravilhoso ver Timberlake nesse papel.

Além disso, tenho que creditar grande parte da qualidade da atuação dos jovens atores que comentei acima ao diretor. Essa deve ser uma das funções mais complexas de alguém nessa posição e Fincher sempre se mostrou um mestre nisso: Brad Pitt atua maravilhosamente bem em Seven, Clube da Luta e O Curioso Caso de Benjamin Button; Jodie Foster sai convincentemente de sua personagem-padrão em O Quarto do Pânico e tanto Mark Ruffalo quanto Jake Gyllenhaal estão sensacionais em Zodíaco.

A direção de Fincher chegou, talvez, ao seu ponto máximo.  Ele faz, em A Rede Social, um pouco do que fez em Zodíaco. Pega uma história muito conhecida e até batida, mas a enfoca sob uma lente particular, pouco usual, fazendo mágica. O uso de flashbacks no filme, com transições exatas entre cenas que se complementam com perfeição apesar da distância temporal, é um grande exemplo de um trabalho de montagem irretocável, novamente sob a batuta de Kirk Baxter e Angus Wall, ambos também montadores de Benjamin Button

O mesmo vale para a fotografia de Jeff Cronenweth, que trabalhou com Fincher no magistral Clube da Luta. O cinegrafista trabalha uma paleta de cores bem menos vibrante, emulando um pouco o que vemos em Vidas em Jogo, mas sem o mesmo uso de sombras. Vemos as cores enriquecendo toda a projeção, passando o estado de espírito de cada personagem, como tom mais pesados para Zuckerberg em seus momentos sombrios contrastando com um enfoque bem mais alegre quando a expansiva dupla Winklevoss está em cena.

O roteiro de Aaron Sorkin, com base no livro Bilionários por Acaso: A Criação do Facebook, de Ben Mezrich não tem falhas aparentes. Ele faz uso de diálogos rápidos e brilhantes, que passam com perfeição, em poucas palavras, a personalidade de seus personagens. Ao mesmo tempo, ele não se esquiva de apresentar conceitos matemáticos e de programação e, claro, de redes sociais. No entanto, ele o faz de maneira descomplicada e didática, sem parecer que o filme parou para que seja feito um esclarecimento ao espectador. Não é, definitivamente, um daqueles filmes ou séries de TV em que há sempre um personagem que nada sabe apenas para que ele tenha que fazer as perguntas idiotas e receber as explicações mais banais. A fluidez do roteiro, no entanto, exige sagacidade, pois o espectador é bombardeado com frases longas, faladas com enorme rapidez, sendo o exemplo máximo disso o tal diálogo de abertura que começa no meio e exige concentração para entendermos logo de cara. É como se pulássemos em uma esteira de ginástica já a 20 km por hora.

Eu poderia parar por aqui, acho que já escrevi demais, mas é que esse filme realmente me animou muito e eu prometi voltar à questão da realidade em que ele e o livro se basearam. Há um enorme debate sobre a honestidade do livro sobre o que efetivamente aconteceu e, até mesmo, se David Fincher, ao dirigir o filme, não deixou transparecer sua compaixão a Saverin e aos Winklevoss, propositalmente demonizando Zuckerberg. Logo de cara, para efeitos do filme, essa discussão pode até ser interessante como “conversa de bar”, mas, em termos de estrutura narrativa, ela é inútil pois Fincher fez uma obra de ficção, ainda que fortemente calcada na realidade ou, ao menos, em uma versão da realidade.

Mas filmes e livros são assim. Eu diria mais: devem ser assim. A imparcialidade total normalmente gera monotonia e fica melhor colocada em um documentário. A Rede Social não é, definitivamente, um documentário. Acontece que Fincher não é um diretor tacanho, de visão turva e maniqueísta. Como tentei deixar claro acima, Zuckerberg é retratado como um ser complexo, de várias camadas e de difícil leitura. Podemos achar que o verdadeiro Zuckerberg é isso ou aquilo, mas Fincher não deixa margens para dúvidas que ele é um gênio. Pode não ter criado o Facebook sozinho, mas ele teve, ao menos, um enorme fatia de participação e talvez efetivamente mereça todo o sucesso que teve. Fincher não destrói Zuckerberg, porém.

Se já tivermos na cabeça que não gostamos da pessoa, o filme poderá ser facilmente visto como o retrato de um traidor monstruoso, que não se importa pelos sentimentos das pessoas. Por outro lado, se gostarmos de Zuckerberg, podemos ver o personagem como um gênio perturbado, de limitadíssima – ou inexistente – habilidade para o trato social que acaba, sem querer, ferindo gravemente os sentimentos de todos ao seu redor. Podemos entender, também, que ele é alguém que foi manipulado por Sean Parker e que sabe o que fez, mas que simplesmente não consegue olhar no rosto de um amigo ou namorada e pedir desculpas.

Essa é a beleza de filmes como esse de Fincher: permite-nos olhar da maneira como acharmos que devemos olhar. É linear (apesar dos flashbacks), mas ao mesmo tempo profundo. Exige a discussão posterior e os aplausos dos espectadores. Dentre todas essas dúvidas, podemos ainda acrescer a dúvida sobre se as redes sociais são efêmeras ou se vieram para ficar. Se são modismos passageiros ou se são o futuro. Apenas uma dúvida não resta: A Rede Social é um clássico que será lembrado.

A Rede Social (The Social Network, EUA – 2010)
Direção: David Fincher
Roteiro: Aaron Sorkin (baseado em livro de Ben Mezrich)
Elenco: Jesse Eisenberg, Rooney Mara, Andrew Garfield, Armie Hammer, Justin Timberlake, Bryan Barter, Dustin Fitzsimons, Joseph Mazzello, Patrick Mapel, Toby Meuli, Alecia Svensen
Duração: 120 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.