Crítica | A Religiosa (1966)

estrelas 5,0

Jaques Rivette desempenhou imprescindível papel para com o cinema francês e mundial. Dono de uma obra fortemente política, sua importância   foi construída não só por alterar o cinema mortalmente, ajudando a renovar seus símbolos e interesses, mas principalmente por, antes de tudo, ocupar um campo estético degastado, tornando-o novo e próprio da França. Junto dos seus colegas de brochura, Godard, Truffaut e Chabrol, sua novela vaga, ou melhor ainda, sua audácia, acaba tornando seu legado relevante à cinematografia de todo um mundo. Mas, para além do discurso, é em suas obras que vemos o valor do artista surgir de fato. Com estilo marcado pela teatralidade do espaço labiríntico em que suas criaturas vivem com paixão suas desventuras trágicas, à primeira vista esse seu jeito de filmar parece distante daquele adotado por seus colegas de movimento, mas será no ritmo, imprimido pelos cortes secos e por sua temática criticamente revisionista da história francesa — marca indelével de rebeldia de 68 — que encontramos a força de sua narrativa crítica, não pura e simples, mas refletida e intricada.

Marcada sua importância na base de seu estilo, resta entendermos o que torna tão interessante  seus filmes. Cheio de abordagens revisionistas, seu primeiro longa, por exemplo, Paris nos Pertence ainda se mantém dentro daquele código típico da primeira fase da Nouvelle Vague, bastante afrancesado. Como uma primeira experiência de longa metragem esse filme inovou em várias pontos que somente seriam compreendidos e verdadeiramente apreciados algumas décadas depois, mesmo que essa narrativa auto referencial tenha garantido e muito  sucesso econômico e de público, algo não mantido pelos anos, afinal obras como Out 1: Spectre, de singelas 12 horas, não o aproximaram muito do público comum, aos poucos, suas obras se distanciaram do cinema mais tipicamente narrativo, para retornar mais tarde com  ‘’estórias’’ notadamente históricas.

Mas o foco que quero atingir é seu segundo, e talvez mais importante filme, A Religiosa. Livremente baseada na já polêmica obra de Dennis Diderot, que por si só garantiu certa notoriedade e atenção ao filme, primeiro na época de seu lançamento, quando foi embargado pelo regime conservador de Charles André Joseph Marie de Gaulle. Uma grande petição fora necessária para a liberalização da obra nos cinemas. Ou seja, ele conseguiu provocar. Mesmo assim, saindo em 1966,  em um mundo em que ainda desconhecia o lado mais ”extremo” do cinema, por assim dizer– o explotation somente se popularizaria na década seguinte — a imagem ainda não se banalizara como hoje e Divine não comera literalmente merda ainda, assim como os pobres jovens de SalòInteressante reparar que apenas a mera possibilidade de de tratar quase que pornograficamente, ainda que cheio de representações fisicamente recatadas, uma determinada realidade, cause tanto furor. Ao falar da história de Suzanne (Anna Karina), uma jovem adolescente obrigada por seus pais a se manter no clausuro dos votos a Cristo, o diretor habilmente adapta Diderot e possibilita uma visão íntima não só da realidade de um convento no século XIII, mas de todo legado da repressão sexual deixado pela maneira como uma determinada interpretação do cristianismo foi tiranicamente apregoada na mentalidade dos sujeitos.

Como já dito, a direção opta por uma mise-en-scène teatral, em geral a ação se desenrola em ambientes fechados e repetidos, com muitos planos abertos e de conjunto, onde muitas vezes vemos duas ou três irmãs para evidenciar o foco da trama e a relação erótica presente no poder religioso em um campo de disputa desumano e, ora sádico, ora masoquista. Os cenários são usados como labirintos, com a intenção de desconcertar o espectador, fazer com que ele se coloque no conflito de se ver  condenado a uma prisão construída de silêncios. Para tanto, e sendo também uma marca crucial para o ritmo, o jump cut, corte seco que quebra o segmento narrativo, é utilizado muito sabiamente. Na verdade, toda a estrutura da montagem tem a intenção de tirar o foco de Suzanne e direcionar para a relação pessoal das personagens, para a dimensão política que o corpo se torna. Assim, as sequências são brandamente ligadas, propositadamente aceleradas para que o espectador jamais se acostume com aquele ambiente, com a condição posta para ser apreciada. De forma contraditória isso é tudo, menos o que se poderia esperar de um ambiente religioso! Para parafrasear Bergman, o filme se faz de gritos e sussurros. A liberdade, entendida como a possibilidade de ‘’Viver sua Vida’’, de forma plana por assim dizer, aparece com uma uma experiência intangível, ora impedida pela violência e pela ordem, ora pela loucura e desespero do amor não correspondido. A felicidade se retira do presente e se projeta no passado. I isso será importante para compreender como a crítica social será projetada para além de sua época.

Aproveitando o insert, o elenco é um deleite à parte e vital para a interpretação menos naturalista e mais cênica funcionar na narrativa. Contando com nomes como Anna Karina, Micheline Presle, Jean Martin, Lisellote Pulver, nomes fortes da cinematografia francesa, principalmente Karina transparece toda inocência e força que tornam tão interessante e vivida sua personagem. A partir desses atores, personas e atrizes vemos importância dada, nesse contexto, à arte como instituição nacional, mas longe de ser nacionalista, ao contrário, rebelde com o momento histórico social vivenciado. Nesse sentido, a arte francesa lutava para contradizer o ufanismo tipicamente europeu e, junto ao neorrealismo italiano, injetou uma perspectiva que ao mesmo tempo critica a sua realidade e que pode ser popular, uma ‘’Hollywood fora da caverna de Platão’’, algo que legou ao Ocidente um novo jeito do fazer e ver cinema em seus pontos bons e ruins, da banalização à democratização.

Longe de se valer simplesmente por uma espécie de importância autodeterminada que alguns clássicos do cinema acabaram ganhando com o tempo, A Religiosa de Rivette faz por merecer todo o hype e a mística gerada tanto pelos autores de tal obra como por seu assunto. Verdadeiramente relevante, o filme tem como seu trunfo, além de toda beleza técnica e estética que o cerca, a projeção de sua denúncia: ao relatar uma pobre freira ameaçada por suas superiores ele demonstra que o poder é fraco, sedento de vingança contra a liberdade perdida ou do carinho almejado e jamais tido. Os segundos finais de projeção são aqueles que mais fazem o filme valer a pena, a impossibilidade do desejo mostra seu preço final e o tempo garrafal em que o filme se passa não é mais que mera metáfora para o nosso próprio. Depois da ‘’revolução’’ sexual tão almejada naquele anos 60 resta saber qual foi o legado que todas as Suzannes deixam até hoje. Soberbo.

A Religiosa (La Religieuse, FRA – 1966)
Direção: Jaques Rivette
Roteiro: Jaques Rivette, Jean Grualt (baseado na obra de Dennis Diderot)
Elenco: Anna Karina, Liselotte Pulver, Micheline Presle, Francine Bergé, Francisco Rabal, Christiane Lénier, Yori Bertin, Catherine Diamant, Gilette Barbier, Annik Morice
Duração: 135 mins.

PEDRO ROMA . . . Antes de tudo, cinéfilo inveterado e amante de todo tipo de filme, mesmo que eu prefira um pouco mais russos e tchecos, em geral. Aspirante a cineasta, atualmente curso cinema e espero poder ganhar um longo podcast sobre mim um dia, haha. Para além das brincadeiras, quero contribuir de forma ativa com o pensamento cinematográfico, começando pela critica é claro, podendo colocar em palavras toda a emoção que sinto nesse prazeroso e ao mesmo tempo intrigante ato de simplesmente sentar e ver um filme.