Crítica | A Saga Crepúsculo – Eclipse

Mesmo após dois filmes, a enorme popularidade alcançada da noite para o dia pela Saga Crepúsculo ainda impressionava. Baseada na série literária da escritora mórmon Stephenie Meyer, a história de romance açucarada entre o trio Bella (Kristen Stewart), Edward (Robert Pattinson) e Jacob (Taylor Lautner) foi capaz de levar milhares de fãs ensandecidas aos cinemas, provando que seus gritos histéricos podem ser mais ensurdecedores que o potente som das salas.

Apesar do sucesso, a saga nunca foi bem vista pelos olhos da critica especializada, que vem malhando anualmente os filmes, acusando-os de pouco evoluírem em relação aos seus antecessores e desvirtuarem completamente a mitologia vampiresca que, durante anos, preservou seus dogmas com extremo respeito sobres seres noturnos que dependiam do sangue humano para sobreviver. Eles dormiam em caixões, temiam a luz do sol, eram emocionalmente ocos e não se apaixonavam, além de serem conhecidos pelo charme e magnetismo que exalavam. Porém veio Stephenie Meyer e desvirtuou tudo isto.

Se tais mudanças são aceitáveis ou não, isto depende de cada um. O fato é que a série possui sua própria realidade, sua própria idealização, e tal proposta tem funcionado perfeitamente para com os fãs. Os problemas das adaptações sempre estiveram ligados ao desleixo com que os filmes são realizados, e com todo a apelo construído em cima. Não seria exagero afirmar que 99,9% daquelas meninas que vão ao cinema apenas para mostrarem para as outras o quanto suas gargantas estão em boa forma também estão ali unicamente para apreciar a beleza e a divindade dos corpos exibidos na tela. Porém a popularidade da saga não se deve somente a isto, uma vez que as tramas de Stephenie Meyer tomam como principal base um dos maiores anseios do sexo feminino: encontrar um parceiro fiel, romântico, respeitoso e, acima de tudo, fisicamente perfeito.

Tal abordagem poderia até ter rendido obras interessantes, se tal oportunidade não fosse sacrificada em prol de narrativas infladas, tramas vazias e personagens tão interessantes quanto ver alguém jogar um copo de iogurte no lixo. Particularmente, admiro a ousadia da escritora em trazer uma nova roupagem para a milenar mitologia vampiresca, porém as execuções acabaram saindo muito abaixo do que poderiam ter sido.

Depois de toda esta longa introdução (e parabéns se você conseguiu ler até aqui), acredito que qualquer comentário sobre a sinopse do filme deva ser merecidamente ignorada. Basta dizer que Bella continua apaixonada por Edward, porém sente-se confusa pelos sentimentos que nutre por Jacob. Ah, e um exército de sanguessugas está sendo formado para ataca-la. Pronto, a base principal da história está ai. Nada muda, nada sai do lugar. Mas Eclipse, apesar do baixo resultado, não é considerado um dos melhores à toa: é o primeiro que nos dá algo pelo que esperar, que nos apresenta algum avanço em relação a saga em si. Obviamente, tudo embalado por um romance pouco convincente e conflitos absolutamente fúteis.

Depois de Catherine Hardwicke e Chris Weitz, David Slade (30 Dias de Noite) foi o responsável por assumir o comando de um longa da série, o que pode ser afirmado como um dos melhores acertos feito pelos produtores. Desde os primeiros momentos, sente-se a construção de uma narrativa mais densa (embora ainda problemática), de uma direção mais segura e levemente ousada. Apesar de não trazer muita ação (apenas em seus minutos finais), o diretor obtêm êxito ao injetar o mínimo de tensão e virilidade a uma trama, por natureza, fadada ao marasmo.

E está ai uma definição da qual a série não consegue escapar. Óbvio que boa parte da culpa provém da péssima escrita de Stephenie Meyer e de sua inabilidade em preencher suas tramas com elementos mais curiosos. Mas é de impressionar a ineficácia da roteirista Melissa Rosenberg (do ótimo Aos Treze) em lapidar um script mais enxuto e menos concentrado nas forçadas de barra cometidas pelos livros. Sente-se uma necessidade de tornar tudo inverossímil, de exagerar até tal ponto nas situações e diálogos (o que é a cena da cabana?) apenas para fazer a felicidade das fãs descontroladas.

Ao menos o triângulo amoroso entre a menina inexpressiva, o vampiro purpurina e o lobisomem descamisado assume contornos mais intensos, apesar de isso não significar muita coisa. Também temos a sub-presença da “ameaçadora” Victoria (Bryce Dallas Howard) e do clã dos Volturi, comandado pela impiedosa (sem aspas desta vez) Jane (Dakota Fanning). Existem também algumas pausas no meio da história que visam se aprofundar no passado traumático de alguns coadjuvantes, como Rosalie (Nikki Reed) e Jasper (Jackson Rathbone). Mas no fim das contas, isso não faz diferença nenhuma, a lenga-lenga é praticamente a mesma.

Kristen Stewart segue interpretando Bella Swan com tamanha fidelidade a descrição dos livros que chega a incomodar (para alguns, causa até irritação). Apesar da antipatia gerada pela personagem, Stewart consegue trazer vivacidade a uma personagem já odiosa por natureza. Robert Pattinson apesar da sensível melhora (na verdade, sensível é até elogio), ainda surge apagado diante da presença de Stewart ou do carisma de Taylor Lautner, que não é bom ator, mas ao menos fala, e não sussurra. Lamentável mesmo é que papéis pouco valorizados sejam entregues a atores competentes como Billy Burke (que interpreta Charlie Swan) e as já mencionadas Dakota Fanning e Bryce Dallas Howard.

Apesar de visualmente menos criativo que Lua Nova (como esquecer aquele belo momento de Bella frente a uma janela?), Eclipse é tecnicamente mais bem acabado. Os planos abertos são eficazes em capturar a beleza de certas paisagens e cenários (o jardim no início do filme é encantador), a fotografia de Javier Aguirresarobe acerta ao empregar tons mais escuros e sombrios, e a trilha sonora de Howard Shore, apesar de ser menos inspirada que as composições de Alexandre Desplat para o anterior, agrada e empolga nos momentos corretos. Só fez falta uma montagem equilibra, uma vez que o filme é quase desprovido de ritmo.

Com ótimas canções de bandas como Metric, Muse, Florence & The Machine, The Black Keys, Vampire Weekend e diversos outros, Eclipse é um filme minimamente superior aos antecessores, porém ainda desprovido de alma e de elementos que possam, de fato, nos fazer interessar pela história e pelos personagens. No fim das contas, é um avanço, porém pouco significativo.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.