Crítica | A Saga de Korvac (Tie-In de Guerras Secretas – 2015)

estrelas 4,5

Obs: Leia a crítica da saga aqui e dos demais tie-ins aqui.

O que são os tie-ins: Em Guerras Secretas, saga de 2015, o Doutor Destino – agora Deus Destino – recriou o mundo ou, como agora é conhecido, Mundo Bélico, a seu bel-prazer, dividindo-o em baronatos, cada um refletindo de alguma forma um evento ou uma saga passada da Marvel Comics. Com isso, a editora, que, durante o evento, cancelou suas edições regulares, trabalhou como minisséries – algumas mais auto-contidas que as outras – que davam novo enfoque à situação anterior já conhecida dos leitores, efetivamente criando uma saga formada de mini-sagas, com resultado bastante satisfatório, muitas vezes até superior do que as nove edições que formam o coração de Guerra Secretas.

Crítica

Apesar de não ser estritamente necessário, creio que vale começar com a contextualização da Saga de Korvac original, por ela ser muito pouco conhecida, mesmo por aqueles que acompanham quadrinhos há tempos. A saga que, na verdade, antecedeu a primeira grande saga dos quadrinhos (a primeira – e terrível – Guerras Secretas) e é mais um arco estendido publicado em Os Vingadores #167 a #181, de janeiro de 1978 a março de 1979, reúne os Guardiões da Galáxia originais (não os que ficaram famosos com o filme, mas sim os primeiros, cujos detalhes podem ser lidos aqui), do futuro do Universo Marvel, com os Vingadores do presente, depois que uma nova versão do vilão Korvac, apresentado em Defensores #3, de janeiro de 1975 e derrotado em Thor Anual #6, de dezembro de 1977, vem ao século XX para matar a versão adolescente de Vance Astro, líder dos Guardiões.

A história em si não é particularmente memorável por ser longa demais, tomando diversos desvios que a fazem ficar extremamente arrastada, mas ela é importante por trazer a primeira grande interação dos Guardiões originais com os Vingadores e por estabelecer que o futuro onde eles vivem é um possível futuro, não “o” futuro, algo que não havia ainda ficado claro nas histórias anteriores.

Outra história relevante ao completo entendimento da Saga de Korvac conforme reimaginada para fazer parte dos tie-ins de Guerras Secretas é a série Guardiões 3000, de 2014 e 2015, que aborda justamente os Guardiões da Galáxia originais lidando com uma anomalia espaço-temporal. A nova Saga de Korvac, na verdade, funciona quase que como uma continuação e substitui a publicação Guardiões 3000 (que durou apenas oito números), de certa forma encerrando a história.

Falando agora da nova versão da saga, temos novamente os mesmos players em dois baronatos vizinhos e rivais do Mundo Bélico criado por Deus Destino: o de Forrest Hills, comandado por Michael Korvac que tem os Guardiões da Galáxia originais ao seu serviço e o de Holly Wood, comandado por Simon Williams (ou Magnum, como é conhecido por aqui), que tem os Vingadores  a seu serviço. Apesar de ter apenas quatro números, o roteiro, que ficou ao encargo de Dan Abnett (o co-responsável pela nova encarnação dos Guardiões da Galáxia, a que acabaria sendo usada no filme e que estava escrevendo Guardiões 3000) rapidamente cria um senso de “antiguidade” e “familiaridade” a tudo o que vemos, mesmo para aqueles que não conhecem as duas séries que mencionei acima. A relação entre os Guardiões – especialmente Starhawk – e Korvac é de respeito e reverência e a relação dos Guardiões com os Vingadores é de antiga amizade, rapidamente determinada pela menção a uma guerra em que eles teriam lutado juntos. Além disso, Abnett acerta em cheio ao usar como líder dos Vingadores o saudoso Capitão Marvel original (Mar-Vell, aquele que famosamente morreu de câncer nos quadrinhos), estabelecendo um ar de nostalgia a quem acompanha quadrinhos há mais tempo.

A premissa é simples e rápida: acontecimentos estranhos em Forrest Hill, relacionados com pessoas que “sentem faltam de estrelas” e parecem se lembrar do universo antes de Deus Destino mudar tudo, começam a ter surtos psicóticos que as transformam em monstros. A situação acaba atrapalhando uma visita de Simon Williams a Korvac, colocando os dois lados em conflito entre si e também contra uma ameaça misteriosa. Apesar de o mistério em si não demorar para ser revelado – e, convenhamos, ser fácil de adivinhar – a história é engajante e dinâmica, sem que uma página sequer pareça um desperdício de tempo do leitor. E o melhor é que, assim como em Força-V e O Velho Logan, A Saga de Korvac tem relação direta com o evento principal e gera, pelo menos em tese, consequências para o futuro do Universo Marvel, deixando de ser auto-contida por um lado – marca da maioria dos tie-ins de Guerras Secretas -, mas trazendo um senso maior de continuidade.

A arte do russo Otto Schmidt, que recentemente desenhou Arqueiro Verde: Renascimento, evoca um ar super-heroico que respeita as raízes de ambos os grupos, mantendo seus uniformes originais e trabalhando a ação com um grande número de personagens sem poluir suas páginas demasiadamente. De certa forma, ele tenta imprimir um pouco do ar caricato de Gerardo Sandoval em Guardiões 3000, mas podando os exageros e maneirismos do mexicano. Suas splash pages, usadas com parcimônia, são eficazes para amplificar o drama e o senso de perigo, mas sempre de maneira fluida e lógica dentro da narrativa aceleradíssima de Abnett.

Apesar de a minissérie acabar de forma aberta – comum nos tie-ins mais relevantes de Guerras Secretas – ela reúne o que há de melhor dos Guardiões, dos Vingadores (nessa formação diferente, que conta até com Serpente da Lua) e de uma saga problemática de um passado remoto, comprovando que Abnett sabe capturar a essência das criações de terceiros, imprimindo sua marca e seu ritmo. A Saga de Korvac, versão 2015, consegue ser melhor que a original e uma das mais interessantes minis de Guerras Secretas.

A Saga de Korvac (Korvac Saga, EUA – 2015)
Contendo: A Saga de Korvac (2015) #1 a #4
Roteiro: Dan Abnett
Arte: Otto Schmidt
Cores: Cris Peter
Letras: Clayton Cowles
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: agosto a novembro de 2015
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: outubro de 2016 (encadernado – Guerras Secretas: Guardiões da Galáxia #3)
Páginas: 100

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.