Crítica | A Saga do Judô II

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estrelas 3

Muito embora A Saga do Judô – Parte 2 (1945) não seja pior que A Mais Bela, fica evidente que Akira Kurosawa não nasceu para lidar com películas de propaganda e, sempre que precisava fazê-lo (exatamente em duas ocasiões consecutivas e de maneira forçada), o resultado não era algo realmente louvável. É diferente, por exemplo, se levarmos em consideração os filmes de teor político ou social não encomendados, mas realizados por escolha do diretor, como Juventude Sem Arrependimento, Um Domingo Maravilhoso Anatomia do Medo, por exemplo.

Em uma escala bem menor que o drama das operárias em A Mais Bela, temos aqui uma evidente propaganda política que deixa clara a demonização do Ocidente e utiliza de um plano de fundo cinematográfico que havia dado bons frutos para o Estúdio em 1943. A proposta parecia perfeita: alinhar um discurso ideológico a um sucesso de bilheteria. A qualidade, como se vê, nem entrou na pauta de discussão. Já nessa segunda parte de A Saga do Judô, temos uma versão inicialmente até mais interessante que a primeira, a despeito de seu caráter propagandístico. Particularmente, gostei muito de como Kurosawa fez os links de abertura com a obra anterior, repetindo o lugar da primeira luta e já trazendo uma situação de opressão do mais forte sobre o mais fraco, algo que voltaria a aparecer no decorrer da trama.

A representação do inimigo pode ser vista desde o início, primeiro, na pessoa do marinheiro que espanca o garoto do riquixá e segundo, na pessoa do boxeador, que metaforicamente acaba representando a invasão do Ocidente ao Japão, e nesse caso, falamos de uma ocupação territorial e de uma imposição (pelo menos é assim que se vê) da cultura americana sobre as tradições e cultura japonesas. O roteiro volta à essência do primeiro filme e mostra o impacto da novidade sobre qualquer elemento tradicional. A diferença é que nessa segunda parte da saga a briga cultural possui outras motivações.

Se trabalhasse apenas essa relação do Oriente com o Ocidente e as consequências culturais desse encontro, A Saga do Judô 2 poderia ser um filme bem diferente. Mas tendo em mente desenvolver o futuro do vilão da primeira parte, Kurosawa acabou adicionando uma terceira linha dramática externa, a dos treinadores de karatê. Desse ponto em diante, é ladeira abaixo. O roteiro passa a lidar com a perda da identidade cultural japonesa — e expõe isso de maneira política, posicionando-se contra os Estados Unidos –, com os conflitos morais de Sugata, o crescimento da escola de judô e a briga interna, dessa vez, com outra arte marcial. Não é preciso dizer que não há tempo para que todas essas coisas sejam trabalhadas e as pinceladas ideológicas acabam por enferrujar de vez a imagem geral da fita.

Exceto pela luta final, que considero um tremendo erro de Kurosawa, especialmente na exposição do oponente de Sugata, há uma maior quantidade de grandes cenas que demonstram um ótimo uso de câmera e bom ritmo de montagem, que é assinada pelo próprio diretor. Por outro lado, o seu cuidado com a matéria natural só pode ser visto no derradeiro confronto, que por não representar um bom exemplo de coreografia de luta, de exposição dramática de personagens ou criação de um efeito conclusivo para o filme, acaba sendo completamente esvaziada, tendo apenas beleza e nada mais.

A partir desse filme, Kurosawa estaria livre de encomendas políticas e imposições ideológicas para seus roteiros, o que o faria mergulhar numa fase próxima ao neorrealismo italiano já em seu filme seguinte — talvez um reflexo desse primeiro momento da carreira, cuja única exceção é Os Homens Que Pisaram na Cauda do Tigre –, e de Um Domingo Maravilhoso em diante, apresentaria um cinema visivelmente autoral, esculpindo a cada obra o seu merecido status de Mestre e gênio do cinema.

A Saga do Judô – Parte 2 (Zoku Sugata Sanshirô) – Japão, 1945
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa (baseado na obra de Tsuneo Tomita)
Elenco: Denjirô Ôkôchi, Susumu Fujita, Ryûnosuke Tsukigata, Akitake Kôno, Yukiko Todoroki, Sôji Kiyokawa, Masayuki Mori, Seiji Miyaguchi, Ko Ishida, Kazu Hikari
Duração: 83 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.