Crítica | A Saga do Judô

estrelas 3,5

Akira Kurosawa iniciou a sua carreira no cinema bem antes de dirigir o seu primeiro longa-metragem. Entre 1936 e 1941, o então assistente de direção esteve na equipe produção de 24 filmes, trabalhando principalmente ao lado do diretor Kajiro Yamamoto, a quem sempre considerou como um mentor. Nesse período, Kurosawa também esteve na equipe de Mikio Naruse, sendo o terceiro assistente de direção no filme Nadare (1937), e chegou até a dirigir algumas cenas do filme Uma (1941), mas não recebeu os créditos pela direção.

Essa experiência pregressa permitiu que Kurosawa tivesse uma clara percepção do que era o domínio da câmera, da linguagem cinematográfica e da direção de atores, lições que lhe serviriam muito no início de sua carreira. Atento observador, conseguiu dominar bem cedo o equipamento de filmagem, e em seguida, o de edição. Em 1942, escreveu dois roteiros para a Toho, mas não conseguiu a confiança dos produtores para dirigi-los. A sorte mudaria em 1943, quando adaptou o famoso romance de Tsuneo Tomita e após alguma insistência, conseguiu o aval para poder dirigir o filme.

Lançado em plena Segunda Guerra Mundial, A Saga do Judô teve imensos problemas com a censura, e contou até com os esforços do veterano Yasujiro Ozu para que fosse lançado. A versão aprovada para exibição, no entanto, era menor que a imaginada por Kurosawa, e todo o material cortado do filme acabou se perdendo. Todavia, é possível identificar alguns pontos da obra que deixam claros os motivos pelos quais a censura se incomodou, e a despeito dos cortes recebidos, A Saga do Judô contém elementos que deixam clara a assinatura de Kurosawa, mesmo que ela não esteja tão forte quanto provavelmente estaria se não tivesse passado pelo moviola dos militares.

O elemento mais forte e mais visível do filme é a quebra da tradição. A história aborda o surgimento do Judô e a oposição imediata com o tradicional Jiu-jitsu. Ambientado em 1882, ano em que Jigoro Kano fundou a arte do “caminho da suavidade”, a película nos mostra a dificuldade da nova arte marcial se estabelecer e o preconceito inicial em relação aos seus discípulos. Dentro dessa armadilha social, Kurosawa escreve e dirige muito bem as motivações pessoais e espirituais para os mentores e alunos, diferenças que podemos ver claramente durante as lutas, mas que não podem ser jamais generalizadas, porque tanto de um lado quanto de outro existem lutadores desequilibrados.

A primeira parte da obra é praticamente o caminho da iluminação e crescimento do protagonista do filme, Sugata Sanshiro (título original do filme). Se fosse filmado cinco anos depois, o papel certamente seria de Toshiro Mifune, especialmente porque mostra a passagem de um lutador “selvagem” para alguém que encontrou sua paz de espírito e passou a ver a humanidade com outros olhos. Embora Sugata não tenha tido grandes explosões emocionais antes de seu longo treino, percebemos uma pessoa bem diferente após a “noite de iluminação”. Também notamos que a personagem é fisicamente superior aos seus adversários mas que não há nele uma ponta de orgulho ou ar de superioridade, atitude que se escancara por ocasião da luta com o mestre Hansuke Murai, que por ironia, é pai de Sayo, a garota de quem Sugata gosta.

Já nesse filme de estreia, Kurosawa expõe no roteiro e na imagem uma gama de conflitos morais, éticos e (esteticamente) culturais, de onde podemos eleger os reflexos do western e a presença da cultura japonesa, seja no modelo quase teatral das filmagens internas, no belíssimo uso da matéria natural e, claro, na música. Kurosawa ainda não traz os acertados pontos de ligação entre as tramas internas ou a conclusão individual dos destinos, que se afunilam. Mas já podemos perceber um notável uso de câmera e uma forma bastante lírica de inserir o romance ou qualquer outro sentimento e relações afetuosas sem interferir negativamente na história central.

A presença da natureza possui significados além do óbvio e ganha belas metáforas ou elipses narrativas durante a projeção, como por exemplo, a cena com o geta (aquele calçado tradicional de madeira) de Sugata, que é deixado na rua quando ele assume o riquixá do mestre de Judô e passa a segui-lo. Além de representar a primeira renúncia da personagem, o objeto marca de maneira poética a passagem do tempo. Vemos que não é só a passagem das estações do ano ou o cachorrinho que rói o geta, mas há um constante movimento do objeto pela paisagem, um espelho do que estaria acontecendo com o seu antigo dono. Não é à toa que quando o calçado é enfim jogado no rio e levado pela correnteza, temos em sentido contrário, um grupo de lutadores correndo atrás de Sugata. É um ponto de ruptura, um caminho diferente a ser seguido a partir daquele momento.

A Saga do Judô superou as minhas expectativas. Eu já sabia que ele havia sido picotado pela censura, então esperava um produto bastante inferior, já que esse tipo de interferência geralmente desconfigura toda a obra. Mas fiquei espantado do quanto foi mantido e de como já é possível perceber no filme elementos muito caros a Kurosawa, coisas que ele manipularia com perfeição alguns anos depois. Embora não figure na lista de seus melhores filmes, A Saga do Judô é um início interessante, o primeiro passo de uma gloriosa carreira.

A Saga do Judô (Sugata Sanshirô) – Japão, 1943
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa (baseado na obra de Tsuneo Tomita)
Elenco: Denjirô Ôkôchi, Susumu Fujita, Yukiko Todoroki, Ryûnosuke Tsukigata, Takashi Shimura, Ranko Hanai, Sugisaku Aoyama, Ichirô Sugai, Yoshio Kosugi, Kokuten Kôdô, Michisaburo Segawa
Duração: 79 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.