Crítica | Monstro do Pântano: A Saga

estrelas 5,0

Introdução

O Monstro do Pântano surgiu quase que por acidente após uma conversa entre Len Wein e Bernie Wrightson, em 1971. Wein precisava entregar um trabalho para a DC e não tinha exatamente inspiração para criar nada. Em uma festa, depois de uma troca de impressões e ideias, os dois chegaram ao enredo que se transformou no roteiro da House of Secrets #92 (publicada em julho de 1971) onde Alex Olsen, trabalhando em um ambicioso projeto de pesquisa em botânica é vítima de um criminoso acidente. Como consequência, ele tem seu corpo embebido na fórmula restauradora que desenvolvia no mesmo momento em que a explosão ocorre, e sai com o corpo em chamas, mergulhando em seguida no pântano próximo. Surge aí, o Monstro do Pântano.

Após certa resistência dos criadores, o Pantanoso teve sua história retrabalhada e ganhou uma revista própria. Alec Holland faz o seu debute em Monstro do Pântano #1: Gênese Sinistra (novembro de 1972) e este primeiro volume da revista seria publicado até a edição #24: The Earth Below (setembro de 1976), sendo então cancelada. A renovação da revista tornou-se pauta na DC quando o diretor Wes Craven (que até então só tinha dois filmes de destaque no currículo, Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos) manifestou interesse em realizar uma adaptação para o personagem. Len Wein encabeçou a “campanha” de retorno do Pantanoso e se saiu vitorioso: três meses depois da estreia do filme O Monstro do Pântano (1982) nos cinemas americanos, chegava às bancas a revista Monstro do Pântano #1 (volume 2), com roteiro de Martin Pasko, arte de Tom Yeates e cores de Tatjana Wood. Esta fase, que começou bem hypeada pelo filme, foi caindo assustadoramente em número de vendas e a revista estava novamente prestes a ser cancelada. Até que Len Wein, novamente responsável por encontrar uma equipe que desse continuidade à revista e tentasse alavancar as vendas, trouxe do Reino Unido um ilustre semi-desconhecido chamado Alan Moore. Ele ainda não sabia, mas havia encontrado a galinha dos ovos de ouro para seu personagem.

A Saga do Monstro do Pântano – Volume 2 — #20 a 27

Spoilers!

O Monstro do Pântano foi a estreia de Alan Moore nos quadrinhos estadunidenses. Ele e um time de artistas receberam liberdade total para guiar o personagem e já percebemos nuances dessa liberdade vir à tona na edição #20, Pontas Soltas, publicada em janeiro de 1984, onde Moore fecha as janelas deixadas na fase de Martin Pasko e abre diversas possibilidades de condução dramática para o personagem. De início, vemos que ele foca a atenção em coisas exteriores, preparando o leitor a partir daquilo que lhe é mais familiar, o mundo corporativo, e afunilando a trama para os pântanos da Louisiana, onde o Monstro está.

Um elemento contemplativo por parte do Pantanoso pode ser visto logo na primeira página da edição, já que o vamos lamentando a morte de Anton Arcane, e de maneira um pouco saudosa e afetada — posteriormente entenderíamos melhor esse comportamento –, construindo um discurso de “caça aos monstros” que faria total sentido no término da edição. Outro grande destaque de Pontas Soltas é a excelente diagramação, com belíssimas páginas duplas e uso dos desenhos como complemento da história, não no sentido ilustrativo, mas muitas vezes irônico ou mesmo revelador de algo que o texto não diz, esconde ou mente a respeito.

Na edição #21, A Lição de Anatomia, começa o chamado “arco do Homem Florônico” (um vilão B trazido do baú e utilizado com primazia neste cenário), trama que avança até o número #24, contendo os seguintes títulos de capa, além do já citado: Empantanado (#22), Outro Mundo Verde (#23) e Raízes (#24), esta última, com uma pequena participação da Liga da Justiça. Aqui, tudo o que julgávamos saber sobre o Monstro do Pântano é recriado, ganha outras camadas e explicações que nos deixa completamente embasbacados.

A incursão do Homem Florônico (Jason Woodrue), que é um cientista com uma mutação, contextualiza a explicação das planárias e da comparação da anatomia humana com o mundo vegetal, as várias composições botânicas que se pode comparar ao Monstro e, por fim, a colocação dos platelmintos como parte da origem do Pantanoso, o que a um só tempo é genial em um nível secular/científico e em um contexto artístico, porque o roteirista não apenas retirou, desordenadamente, o que foi colocado por Len Wein na origem do Monstro do Pântano. Ele trabalhou a primeira explicação como uma suposição, e agora, com um cientista pesquisando a verdadeira origem do Monstro, estabeleceu a verdade a respeito. Uma descoberta. Alec Holland não existe mais. O Monstro do Pântano é, na verdade, uma planta que acredita (ou acreditava) ser homem.

À medida que novas camadas psicológicas e comportamentais são criadas — o personagem tem contato com a explicação sobre o que ele é e após uma enorme resistência inicial, tenta lidar com isso –, vemos que o embate entre o VERDE e o VERMELHO, questões ambientais elevadas a um nível impensável, misturadas com existencialismo, evolucionismo e um tipo messiânico e psicopata de criacionismo encabeçado por Woodrue. A relação entre texto e arte chega à sua excelência nas edições 22 a 24 desse arco, com algumas das melhores diagramações de página e detalhes na construção de cenários por quadro que eu já tive o prazer de ver em uma HQ.

O arco final, chamado de “arco do Rei Macaco” (que é uma representação do medo) e a aparição do demônio Etrigan (personagem de Jack Kirby criado na The Demon #1, em agosto de 1972) não é tão brilhante quanto o do Homem Florônico, mas, ainda assim, é excelente. A arte também dá uma recuada, optando por desenhos maiores e um número menor de detalhes e hachuras, a fim de destacar a característica surreal, sobrenatural dos personagens envolvidos. Enquanto o primeiro arco possui uma cadência científica, ambiental, existencialista, o segundo possui uma cadência espiritual e bem mais próxima do gênero terror. Em ambos os casos, a presença do Monstro do Pântano e alguns instigantes temas paralelos são trabalhados a fundo, concluindo-se perfeitamente e deixando uma tenebrosa porta aberta para o arco seguinte.

A leste um céu arde rubro sobre a lagoa. Furtivo ele volta à lama por onde perambula. Seria o que ele sente inquietude à toa ou o outono a lhe penetrar a medula? Como a noite, o rol das sombras a nada se reduz enquanto horrores piores são prenunciados pela luz… Confortam-se ânimos, perdoam-se agravos medonhos, por entre trevas num curso movido por demônios…

Alan Moore

A Saga do Monstro do Pântano – Livro 1 (Monstro do Pântano #20 a 27) (The Saga of The Swamp Thing Vol. 2 — 20 – 27) – EUA, 1984
Roteiro: Alan Moore
Arte: Dan Day (apenas edição #20) e Steve Bissette
Arte-final: John Totleben
Cores: Tatjana Wood e Len Wein (apenas edição #21)
Letras: John Costanza e Todd Klein (apenas edição #22)
Capas: Steve Bissette, Tom Yeates, John Totleben
Editora nos EUA: DC Comics (Vertigo)
Data original de publicação: janeiro a agosto de 1984
Editoras no Brasil: Pixel Media (2007) e Panini (2014)
Data original de publicação (no Brasil): A Saga do Monstro do Pântano – Livro 1 (abril de 2014)
210 páginas (encadernado)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.