Crítica | Monstro do Pântano: Amor e Morte (1984 – 1985)

estrelas 4,5

Spoilers!

Ao ler as primeiras páginas deste encadernado da Saga do Monstro do Pântano, da aplaudida fase escrita por Alan Moore, eu tive a impressão de que a potente semente plantada no primeiro livro enfraqueceria e que as histórias perderiam o seu brilho. De forma um tanto precoce, antipatizei com O Enterro (#28), por achar a trama aquém da linha narrativa apresentada nos arcos anteriores. Mas as coisas iriam mudar…

Na introdução deste volume há uma apresentação de Jamie Delano e outra de Neil Gaiman, esta última, bastante lúcida ao analisar os motivos que levaram à troca temporária de artistas, a homenagem de Moore ao Pogo (personagem pantaneiro criado por Walt Kelly e publicado em tiras de jornal entre 1948 e 1975) e a forma mais ou menos ordinária que ele “precisou” levar as primeiras aventuras, como se estivesse deixando para trás o que ainda havia restado do “velho” Monstro Pântano, mesmo após aquela reformulação do personagem feita no arco do Homem Florônico. Mas o paradoxo final em O Enterro e os belos quadros externos de Shawn McManus dão ao leitor algumas pistas do por quê tudo aquilo está acontecendo. E de fato, ao final, entendemos que havia um motivo.

monstro do pantano alan mooreSteve Bissette e John Totleben voltam para a edição #29, Amor e Morte, que juntamente com Auréola de Moscas e Balé de Enxofre (respectivamente, edições #30 e 31) formam o arco de retorno de Anton Arcane, que estava possuindo o corpo de Matt Cable desde o arco do Rei Macaco. Alan Moore quase escreve pisando em ovos na primeira parte do arco, como se ainda não tivesse muita certeza de que aquele era o caminho certo. O texto não tem a grande força característica de suas obras, mas ainda assim é bom. O grande destaque de Amor e Morte, porém, é a arte. Voltam aqui a criativa forma de diagramação de páginas de Bissette e Totleben, que nos números seguintes seguiriam na mesma linha mesmo com Rick Veitch e Alfredo Alcala como convidados cada um para uma edição.

A relação entre o Pantanoso e Abigail se intensifica ainda mais e o conteúdo demoníaco mais uma vez se destaca, aproximando-se bastante de um apocalipse zumbi. A mesma linha é seguida na famosíssima e brilhante história do Anual 2, Descida Entre os Mortos, que mostra o quanto um amigo está disposto a fazer para recuperar uma amiga das garras do inferno, especialmente se ela foi para lá de forma injusta. É nesta edição que o leitor compreende a estrutura dos roteiros das edições anteriores. Alan Moore estava preparando um cenário que pudesse ganhar ares passionais, místicos, simbólicos, filosóficos e até religiosos, afinal, a pergunta “o que acontece depois que morremos?” está em letras garrafais nas entrelinhas de todo o texto. E o texto ganha ainda mais camadas quando ouvimos que o Pantanoso é um Elemental da Terra e que houve outros antes dele.

Swamp Thing Annual 2O fato do Monstro não ser o único de sua “espécie” dá uma perspectiva universal, cíclica, na melhor das aplicações… natural ao que ele é e ao que ele representa. Aliás, a própria nomenclatura “Elemental da Terra” diz bastante sobre sua missão e seus poderes. O contato dele com o Desafiador, o Vingador Fantasma, o Espectro e Etrigan (de novo!) aumenta o significado da jornada, que apesar das semelhanças com A Divina Comédia, tem um sabor todo especial, particular, menos poético e mais hierárquico, organizado e social, por assim dizer.

Pog (#32) é injustamente menosprezada pelos leitores, mas creio que se todos se dispuserem a ver a história como ela de fato é, uma trama isolada, um dia específico na vida do Monstro do Pântano sem ligação com nenhuma outra história (transição entre dois eventos ou pausa para respirar, como queiram) creio que podem mudar de ideia. A intricada escrita em palavra-valise ou amálgama pede toda a atenção possível do leitor e a história tem um tom de consciência ambiental, humana, política e antropológica tão fortes quanto as melhores investidas do autor no Livro 1. Além disso, o trabalho de Shawn McManus ganha nossa simpatia por ser simples e belo, com organização fluída e sem intervenções estético-narrativas nos quadros, perfeita escolha artística, já que o texto denso e rebuscado se encarregava da parte difícil da edição.

A edição #33, Abandonadas Casas, é ao mesmo tempo um número preguiçoso e incrível. E explico a afirmação paradoxal: o início e o fim desse número tem Caim e Abel como anfitriões de Abigail Cable, que em seu sonho, escolha a casa dos segredos e tem a missão de contar para o Monstro do Pântano que ele não era o único, que houveram outros antes dele. Fica evidente que este fio é uma retomada de números anteriores e que nem de perto é cortado aqui. Trata-se de uma afirmação oficial e definitiva de uma realidade a ser trabalhada no futuro. O grande problema é que para quem leu o número 92 da House of Secrets, metade dessa história soa como uma incômoda repetição. Tudo é perfeitamente resolvido e entendido no final — embora Abby acabe se esquecendo do recado — mas a sensação de “história menor”, pelo menos para mim, permaneceu na cabeça.

Chegou a primavera, e tudo acordou […].

O volume se fecha com Rito de Primavera (#34), uma das melhores histórias em quadrinhos que eu já li em toda a minha vida, e isso vale tanto para o roteiro quanto para os desenhos, a arte final e a coloração.

mosntro do pantano rito de primaveraA histórica começa com Abby visitando Cable no hospital, preocupada e amargurada por ele estar respirando por aparelhos. Ao final da segunda página, vemos sutilmente o texto guinar da morte para a vida, mostrando a seguir um Monstro do Pântano muito bonito, florido e em verde vivo, marcado pela primavera. E como pede a estação, a vida ganha destaque, mesmo que o seu outro lado ainda esteja lá, igualmente vivo, pulsante, cru, vermelho…

A relação entre o Pantanoso e Abby enfim se revela mais do que puramente amizade, mas não há nada de clichê nessa revelação, tanto pelo excelente contexto simbólico e dramático da edição quanto pelos envolvidos: uma planta em formato humanoide de um macho e uma fêmea humana. A problematização da relação entre as duas espécias, o significado que isso tem para ambos e para a própria história e, principalmente, a forma como isso acontece é capaz de levar muitos leitores às lágrimas. Steve Bissette e John Totleben fazem quadros integrados e gloriosamente belos, mostrando a comunhão entre tudo o que é vivo no mundo animal e vegetal, na Terra, e estabelecendo uma ligação poética, milimétrica, sentimental e ao mesmo tempo racional entre esses lados. Eu nunca imaginei que veria o sexo alguma vez retratado dessa forma, especialmente nos quadrinhos, e confesso que ao terminar a edição eu a reli duas vezes seguidas para não deixar perder um único detalhe. Se por algum motivo a DC não tivesse mais interesse em continuar publicando o Monstro do Pântano (uma hipótese apenas ilustrativa, já que Rito de Primavera trouxe uma explosão de vendas para a revista, garantindo sua continuação por muito tempo) Alan Moore, Steve Bissette, John Totleben e Tatjana Wood já teriam garantido, com essa edição, a permanência de seus nomes na história do Musguento da DC.

A Saga do Monstro do Pântano – Livro 2 (Monstro do Pântano #28 a 34 + Anual 2) — Swamp Thing #28 a 34 / Annual 2  — EUA, 1984 – 1985
Roteiro: Alan Moore
Arte: Shawn McManus (#28, 32), Steve Bissette (#29, 30, 34), Rick Veitch (#31), Ron Randall (#33)
Arte-final: Shawn McManus (#28, 32), John Totleben (#29, 31, 34), Alfredo Alcala (#30), Ron Randall (#33)
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: Steve Bissette, John Totleben
Editora nos EUA: DC Comics (Vertigo)
Data original de publicação: setembro de 1984 a março de 1985
Publicação deste volume (no Brasil): A Saga do Monstro do Pântano – Livro 2 (2014)
228 páginas (encadernado)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.