Crítica | Monstro do Pântano: A Maldição

estrelas 4,5

Spoilers!

Uma das perguntas que ocorreu a Alan Moore e a seus parceiros artistas enquanto guiavam o Monstro do Pântano por uma de suas melhores fases (para alguns, a melhor), foi a seguinte: como é possível manter um personagem já retirado das cinzas e bastante explorado em seu “novo formato”, ainda atraente para o grande público? O que encontraram como resposta tinha dois núcleos à vista; o primeiro estava o tempo inteiro nos jornais, revistas, noticiários, ou seja, a ameaça nuclear, a era M.A.D.. O segundo estava no conhecimento e nas histórias populares de diversos lugares do mundo, as lendas urbanas sobre o domínio dos espíritos, de criaturas das mais diversas ‘espécies’ e também sobre algumas pessoas capazes de ter contato direto com o “mundo espiritual” e ainda continuar vivendo normalmente em nosso mundo — ou qualquer outra coisa que chegasse perto disso.

Swamp_Thing_v.2_37 monstro do pantano alan mooreEntre as edições #35 e 42 da Saga do Monstro do Pântano, Moore, Bissette, Totleben e outros artistas convidados trouxeram esses núcleos narrativos para as páginas da revista, explorando o universo místico e ao mesmo tempo trabalhando elementos críticos e em crise de nossa sociedade, como a poluição nuclear e os efeitos causados pela radiação, o racismo e a misoginia e, por outro lado, criaturas fantásticas e medonhas como vampiros, lobisomens e zumbis, estes últimos, lembrando bastante o tratamento dado a este mesmo tema por Len Wein em Monstro do Pântano #10 (Vol.1): O Homem Que Não Quis Morrer!

Estes dois lados (social e “espiritual”) que de alguma forma afetam diretamente a vida das pessoas chegam para o Pantanoso e para Abigail da forma mais invasiva e traumatizante possível — pontas que seriam amarradas no futuro, no crossover com o evento da Crise nas Infinitas Terras.

As duas primeiras edições do volume chamadas pelos autores de “Gótico Americano” mas cujo arco foi nomeado Notícias do Fuça-Radioativa (partes 1 e 2) são uma obra-prima sobre dejetos de Usinas Nucleares e transformações de um corpo, seja ele humano ou vegetal. Desde que modificara toda a concepção do Monstro do Pântano no arco do Homem Florônico, Moore ainda não tinha explorado outra grande mudança na constituição do personagem, algo que ele faz neste conjunto de edições começando com a contaminação do Musguento pelas mãos do Fuça-Radioativa e terminando com o domínio do personagem sobre a sua própria reconstrução natural depois de umas poucas conversas enigmáticas com John Constantine, que aparece pela primeira vez na edição #37.

monstro do pantano mooreA concepção de Steve Bissette e John Totleben para estas edições iniciais é sensacional. O trabalho de colagem feito por Bissette  e a finalização capaz de destacar essas notícias de forma a fazer sentido para a história e estar bem integrada nas páginas coroa as edições e, além disso, traz de representações marcantes do Fuça e do sofrimento do Pantanoso que renasceria no número seguinte, Padrões de Crescimento.

A diagramação de página dessa edição é extremamente inteligente, conseguindo aglutinar várias histórias de forma aceitável e entendível para o leitor. O texto de Alan Moore explora mais uma vez o íntimo do Monstro do Pântano, refletindo sobre o seu crescimento e sentindo, como uma planta frágil, os dissabores de estar na natureza e não ter muito controle sobre ela. Há diálogos e passagens que não existe outra palavra para definir além de “fofa” (o monstrinho do pântano pedindo para Abigail não lhe colocar inseticida porque ardia é um exemplo), muito embora a edição nos apresente a chegada de uma sombria criatura à qual todos os contatos de Constantine parece dar um nome diferente, nenhum deles aludindo a uma coisa boa — mais uma vez, pontas que seriam amarradas quando a Crise chegasse.

O arco seguinte, formado pelas edições Águas Paradas (#38) e História de Pescador (#39) apesar de manter o componente artístico em alta, possui um roteiro que peca no propósito e na finalização com cara de Deus ex machina. Mesmo entendendo toda a crônica dos vampiros submersos como algo que o Monstro do Pântano deveria enfrentar para maturidade própria, toda a história está bem aquém aquilo que a edição #37 nos havia preparado. A grande ameaça provoca uma das encarnações mais louváveis do Monstro do Pântano até agora, mas após a água se tornar corrente, todos se desfazem quase que como em um passe de mágica. Sinceramente, achei o final levemente decepcionante. Só não dá para descartar a história porque sua construção e as participações do Musguento, de Constantine e dos personagens coadjuvantes realmente se destacam com louvor.

Monstro do Pantano Alan Moore_Vol_2_39As duas aventuras finais apostam novamente em questões místicas, uma chamada A Maldição (#40), com a mulher-lobisomem e uma história da “cabana vermelha” que alude a ritos de alguns povos, quem separam as mulheres no período de sua menstruação, como se estivessem impuras (o subtexto bíblico também se faz presente na crítica de Moore); e finaliza com a trama dos negros zumbis em Mudanças Sulistas (#41) e Estranhos Frutos (#42), cuja primeira edição recebe uma das melhores artes-finais do volume, assinada por Alfredo Alcala, realizando um trabalho que não deve nada ao de Totleben.

Dominação dos mais fracos pelos mais fortes, injustiças sociais, desajustes familiares, inquietações espirituais, problemas urbanos das mais diversas ordens e questões ambientais discutidas sob um viés filosófico estão entre os temas dos arcos que formam as edições #35 a 42 do Monstro do Pântano e, exceto pela finalização da trama com os vampiros aquáticos, o trabalho de Moore é, mais uma vez, exemplar.

A Saga do Monstro do Pântano – Livro 3 (Monstro do Pântano #35 a 42) — Swamp Thing #35 – 42  — EUA, 1985
Roteiro: Alan Moore
Arte: Steve Bissette (#35, 36, 39 a 42), Rick Veitch (#37), Stan Woch (#38)
Arte-final: John Totleben (#35 a 40 e 42), Alfredo Alcala (#41)
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: Steve Bissette, John Totleben
Editora nos EUA: DC Comics (Vertigo)
Data original de publicação: abril a novembro de 1985
Publicação deste volume (no Brasil): A Saga do Monstro do Pântano – Livro 3 (dez, 2014)
212 páginas (encadernado)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.