Crítica | “A Sailor’s Guide To Earth” – Sturgill Simpson

estrelas 4

É com estranheza que muita gente pode olhar o terceiro álbum de Sturgill Simpson, A Sailor’s Guide To Earth, em meio a discos de celebridades como Beyoncé, Adele e Drake na indicação de Álbum do Ano do Grammy 2017. Embora faça jus a sua indicação (bem mais que algumas, na verdade), fica claro que a obra está ali cobrindo a “cota de disco country”, que por sinal ano passado pertenceu a Chris Stapleton. O álbum é o terceiro da carreira de Sturgill, sendo o primeiro realizado em uma grande gravadora (Atlantic Records), enquanto High Top Mountain e Metamodern Sound In Country Music (que na época foi indicado ao Grammy de Melhor Álbum de Americana) foram independentes.

Traduzida como “um guia de marinheiro para a terra”, a obra embarca em seu título quase de forma conceitual, embora bem longe de ser considerado tal tipo de trabalho. Na abertura, assim que a voz do cantor emerge das profundezas, ela arrepia com seu forte grave: “Hello, my son/ Welcome to earth” (Olá, meu filho/ Bem vindo a terra”). Assim como Johnny Cash e tantos outros gigantes do country sabiam incorporar um eu-lírico em sua voz potente, Sturgill repete tal experiência aqui com maestria. É como se o cantor aqui encarnasse um marinheiro já experiente com a vida e as inúmeras navegações que enfrentou. Welcome To Earth carrega uma riquíssima interpretação de um pai compartilhando sua sabedoria com o filho. Já a faixa seguinte, Breaker’s Roar, mostra uma imagem mais próxima desse marinheiro, vemos aqui a imagem de um grande sonhador. Ambas as faixas escolhem um clima leve de violinos e cordas acústicas afim de transmitir essa aura aventuresca e filosófica.

O country criado aqui por Sturgill é refinado, lírico e interpretado de maneira extremamente poética. Há um ar contemplativo que lembra muito as clássicas filosofias de que “navegar é preciso”. O artista imprime em A Sailor’s Guide To Earth também o famoso outlaw country, subgênero do country marcado por suas influências vindas do folk e rockabilly, algo que faz com que canções como Sea Stories e principalmente a rica em riffs interessantes, Brace For Impact (Live A Little), se aproximem bastante do rock setentista. Perceba que até mesmo o ótimo cover da clássica In Bloom do Nirvana funciona bem dentro desse catálogo, ganhando destaque por criar uma versão que sobrevive por si só de maneira quase autêntica, inserida dentro de um gênero tão diferente como o country.

Apesar de não possuir grandes pretensões dentro do gênero, repetindo grande parte de seus arquétipos, a obra aposta em bons flertes com o jazz e no comprometimento de construir ótimos arranjos. Há uma complexidade em All Around You que faz com que seja impossível rotular a canção como country, tudo isso graças ao instrumental exuberante com direito a teclado marcante e metais que trazem um charme único a faixa. Uma atmosfera semelhante se repete em Call Arms, misturando doses pesadas de jazz e rock n’ roll tão frenéticas e cheias de energia que fazem qualquer ouvinte mergulhar de cabeça e quando menos perceber estar aplaudindo e dançando no rítmo da canção (bem, aconteceu comigo). É quase como se fôssemos jogados em uma grande festa realizada em um clássico saloon de western regado a bebidas, mulheres e demais celebrações.

A Sailor’s Guide To Earth é uma legítima trilha sonora de um marujo que se preze. Se trata de música feita por um viajante experiente nas mais diversas navegações, tudo incorporado em meio a belos arranjos e dignas composições. Sturgill Simpson pode passar longe de reinventar algo no country, mas segue fazendo uma música honesta e de alto nível artístico. E para sua tripulação isso é mais que o suficiente.

A Sailor’s Guide To Earth
Artista: Sturgill Simpson
País: Estados Unidos
Lançamento: 3 de março de 2016
Gravadora: Atlantic Records
Estilo: Country

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.