Crítica | A Série Divergente: Convergente

estrelas 2

Dentre os desserviços que uma obra, inclusive cinematográfica, pode prestar ao seu espectador, destaquem-se dois: o primeiro, e mais raro, é o da má qualidade explícita da obra, com aqueles problemas que a maioria do público, se não todo, identifica e, de novo sendo específico em relação ao cinema, faz sentir sua indignação pela baixa bilheteria. Já o segundo e mais grave, por sua tendência em passar despercebido à maioria, quando não a todos, é o da má qualidade implícita, hipócrita, que tem no discurso seu problema, seu descaso, ignorância ou simplesmente malícia para com seu público – sendo, de todo modo, a malícia a fonte da qual derivam os desserviços involuntários, quando mesmo uma fórmula ruim vira tendência.

Pois bem, é o segundo caso que se apresenta em Convergente, terceiro longa de A Série Divergente, adaptação de parte do terceiro livro, de mesmo nome, da trilogia de Veronica Roth — a tendência de se dividir um livro em dois filmes, por bem ou por mal, pegou. O longa, aliás, sejamos diretos desde o começo, é o pior da trilogia cinematográfica que a obra literária de Roth rendeu até agora. Enquanto Divergente, o primeiro filme da saga, segurou as pontas, com um nível dramático razoável e com um foco de interesse na apresentação do mundo futurista e distópico no qual vive a adolescente Beatrice, ou apenas Tris (Shailene Woodley), dividido em facções; enquanto a segunda parte, Insurgente, provou-se a melhor das três ao investir mais no psicológico de sua protagonista e em uma pegada ligeiramente mais crua, mais sombria; o terceiro longa, que bem como o livro poderia – aliás, deveria – ser o último, traz à tona o que, bem lá no fundo, se podia constatar desde o começo.

Sim, o que desde o início se podia perceber: no final das contas, estamos diante de apenas mais uma obra que, planejada ou não como parte de um movimento, voluntário ou não – somando-se à série títulos como Jogos Vorazes e outros bem conhecidos -, ameaça contentar tantos jovens, distraindo-os de trabalhos tão mais elevados em qualidade, com ficção científica, daí para a fantasia e para o romance, de segunda, superficial sob uma premissa que parece mais elaborada, mas não é – a falta de explicações sobre como chegamos a tal universo de facções é que o diga -, com pontas soltas e estímulos ao “emburrecimento” do expectador ao longo de toda a saga. Em Convergente, principalmente, é incrível como os personagens parecem refletir, eventualmente, o que se poderia esperar de seu público segundo os idealizadores de tais figuras para a tela. Vejamos, Convergente começa com Tris, Quatro (Theo James), Caleb (Ansel Elgort), o espertalhão Peter (Miles Teller), Christina (Zoë Kravitz) e Tori (Maggie Q) deixando Chicago para descobrir o que mais há lá fora, no resto do mundo, supostamente inabitável. Acontece que eles são os únicos – sim, os únicos – que parecem dispostos a tanto, depois de, na conclusão do filme anterior, terem mostrado para toda Chicago a mensagem de Edith Prior.

E a coisa só melhora. Tris e sua turma descobrem uma nova sociedade, que, segundo explicam, tomava os habitantes de Chicago por um experimento dedicado a resgatar e preservar os chamados “puros”, geneticamente falando. Tris, então, é convencida a ajudar os supostos mocinhos graças a aparentes memórias de sua mãe, de posse do diretor do lugar, David (Jeff Daniels), e transmitidas a ela por uma tecnologia futurista, sem que a garota se questione, em momento algum, sobre a autenticidade das lembranças. O filme segue assim, tecnicamente aceitável para os padrões comerciais de hoje, com uma trilha sonora também razoável, que segue o padrão dos filmes anteriores ao misturar o pop com um certo lirismo moderninho, mas cheio de problemas, com um Quatro que realmente acredita que vão deixá-lo voltar a Chicago – ri muito nessa parte – e com mais um vilão sem graça alguma – não direi quem é para fugir do spoiler, mas basta dizer que, mais uma vez, a culpa é mesmo do roteiro e não de quem o interpreta.

Os males só não são piores do que a subida dos créditos, quando fica claro que realmente se darão ao trabalho de lançar mais um filme para algo que, se já não tinha acabado antes do terceiro longa, agora perdeu a oportunidade perfeita para fazê-lo. A alguns jovens e leitores em geral, minhas desculpas, mas a verdade também é divergente, e como tal deve ser dita.

A Série Divergente: Convergente (The Divergent Series: Allegiant), EUA – 2016
Direção: Robert Schwentke
Roteiro: Noah Oppenheim, Adam Cooper, Bill Collage (baseado em obra de Veronica Roth)
Elenco: Allison Rowe, Shailene Woodley, Zoë Kravitz, Naomi Watts, Theo James, Xander Berkeley, Miles Teller, Maggie Q, Jeff Daniels, Ansel Elgort
Duração: 121 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.