Crítica | A Soma de Todos os Medos

estrelas 4

A Soma de Todos os Medos, o quarto filme com o personagem Jack Ryan criado pelo romancista americano Tom Clancy e o primeiro a efetivamente fazer um reboot da franquia, teve o gigantesco azar de ter sido lançado apenas nove meses depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e, ainda por cima, tratar justamente de um devastador ataque terrorista em solo americano. Apesar de ele não ter ido necessariamente mal na bilheteria, esse fator somado com a substituição de Harrison Ford no papel principal por Ben Affleck acabou fazendo com que, de todas as fitas com Jack Ryan antes do segundo reboot, essa tenha sido a mais desdenhada e esquecida pela crítica e pelo público.

Mas essa reação é injusta. Se eu fizesse meu ranking pessoal de melhores filmes com o personagem, excluindo Operação Sombra, colocaria A Soma de Todos os Medos em segundo lugar, atrás apenas do primeiro – e muito superior – Caçada ao Outubro Vermelho. Sim, isso mesmo: o filme de Ben Affleck, dirigido por Phil Alden Robinson (do excelente Campo dos Sonhos) é uma eletrizante aventura de espionagem que antecede as infelizes montagens bruscas e cenas de ação absurdamente exageradas dos filmes desse gênero de hoje em dia.

Apesar de ter sido escrito posteriormente a Caçada ao Outubro Vermelho, A Soma de Todos os Medos (o livro) se passa antes e mostra um Jack Ryan ainda novo e inexperiente. E, usando esse gancho, os roteiristas Paul Attanasio e Daniel Pyne fizeram justamente isso e nos trouxeram algo semelhante a um filme de origem, mas passado na época atual e completamente ignorando a continuidade. Jack Ryan mal entrou na CIA e acabou de começar a namorar sua futura esposa Cathy Muller (Bridget Moynahan). Ninguém do alto escalão o conhece até que a repentina morte do presidente russo e sua substituição pelo Presidente Nemerov (Ciarán Hinds) o coloca sob os holofotes, já que ele havia escrito um detalhado relatório prevendo justamente a ascensão de Nemerov.

Com isso, o diretor da CIA William Cabot (Morgan Freeman) reboca Ryan para uma reunião de emergência no Kremlin com Nemerov. Simultaneamente, vemos o plano de um neo-nazista ensandecido (sei que é pleonasmo, mas não resisti…), vivido por Alan Bates, para criar um “estado europeu” fascista, depois de colocar as duas super-potências em guerra nuclear. Para isso, ele recupera uma ogiva nuclear esquecida depois do final da guerra do Yom-Kippur e a planta em Baltimore, nos EUA, dentro do estádio durante a final do Super Bowl, com direito até ao presidente americano (James Cromwell) assistindo.

E o filme claramente se divide entre os acontecimentos pré e pós detonação da bomba, em um clímax corajoso para qualquer produção cinematográfica de ação. Antes da devastação da explosão, vemos Jack Ryan com a ajuda de John Clark (Liev Schreiber tomando o papel que fora de Willem Dafoe em Perigo Real e Imediato) tentando entender as ações do Presidente Nemerov e o sumiço de três cientistas russos especialistas em bombas nucleares. Vemos um jogo de gato e rato que só alcança as dimensões corretas quando a bomba explode, quase matando o presidente americano (que fugira pouco antes graças a Ryan e Cabot) e as peças começam a se encaixar.

Ryan está absolutamente convencido que Nemerov não teve relação alguma com o atentado, mas o presidente e quase todo seu staff militar querem literalmente iniciar a 3ª Guerra Mundial, exatamente como o neo-nazista doente (novamente, um pleonasmo) quer. E, apesar de ser bem evidente que a guerra não acontecerá (a destruição do mundo não costuma combinar com franquias de espionagem, especialmente se uma continuação é esperada), Robinson, com ajuda da eficiente – e clara – montagem de Nicolas de Toth e Neil Travis, além da trilha sonora de Jerry Goldsmith, consegue criar muita tensão.

E a grande sacada do diretor é trabalhar com narrativas paralelas após a explosão atômica. De um lado vemos o presidente americano no Air Force One tendo que tomar decisões com informações equivocadas e, de outro, vemos Jack Ryan correr para tentar corrigir as distorções e evitar o pior. E o diretor ainda consegue tratar – mas sem focar – das investigações de Clark sobre a origem da bomba e do paradeiro de Cathy nessa confusão toda.

Sim, sem dúvida temos que aceitar uma certa omnipresença de Ryan. Ele sempre está nos lugares que precisa estar e consegue se transportar de um lugar para outro no meio de um cenário de guerra como se estivesse caminhando na praia no domingo, mas, mesmo assim, a urgência está lá. O fim do mundo pode ser visto ali na esquina e Robinson é eficiente ao conjurar essas imagens cataclísmicas, misturando sequências no Ground Zero e operações militares comandadas pelo presidente americano e também pelo neo-nazista demente. Filmes de ação e espionagem mais atuais exigem muito mais de nossa suspensão da descrença do que A Soma de Todos os Medos, pelo que esse filme vale uma segunda chance.

“Ah, mas Ben Affeck é um ator terrível!”

Para aqueles que acham isso eu digo: vocês estão exagerando e criaram uma camada de implicância que o ator não merece. Ainda que ele seja um diretor muito melhor do que é ator, Affleck é sim eficiente no que se propõe a fazer (ok, menos em Demolidor, mas ninguém vestido de couro vermelho que não seja mulher fica bem em um papel como esse, não é mesmo?). Ele encarna corretamente o papel de Jack Ryan e convence tanto como analista júnior quanto como alguém – como é característico do personagem – que é jogado em uma cena de guerra completamente sem querer.

A Soma de Todos os Medos é um thriller de fazer com que unhas sejam roídas e queixos sejam derrubados no chão. Dispam-se do preconceito com o que vocês acham que lembram do filme e do que acham que Ben Affleck é e vejam a fita pelo que ela é: entretenimento puro, bem construído e absolutamente tenso.

A Soma de Todos os Medos (The Sum of All Fears, EUA/Alemanha – 2002)
Direção: Phil Alden Robinson
Roteiro: Paul Attanasio, Daniel Pyne (baseado em romance de Tom Clancy)
Elenco: Ben Affleck, Bridget Moynahan, Liev Schreiber, Morgan Freeman, James Cromwell, Michael Byrne, Ciarán Hinds, Colm Feore, Philip Baker Hall, Alan Bates, Ron Rifkin
Duração: 124 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.