Crítica | A Sombra de uma Dúvida

estrelas 4

A Sombra de uma Dúvida possui uma posição, no mínimo, curiosa na filmografia de Alfred Hitchcock. O filme nunca se faz presente nas listas de obras-primas do diretor, mas é considerado até hoje, como o filme favorito de Hitchcock. Sendo um trabalho “menor” ou não, o fato é que A Sombra de uma Dúvida merece configurar-se entre os bons suspenses do diretor, além de valer como curiosidade por ser aquele que intensificou as características que o Mestre do Suspense viria a apresentar no restante de sua filmografia.

A Sombra de uma Dúvida foi um dos primeiros filmes de Hitch rodado em solo americano, e na trama somos apresentados a uma típica família desta região, onde a ingênua Charlie (Teresa Wright) aguarda ansiosamente a chegada de seu tio, também chamado Charlie (Joseph Cotten), que vai visitar seus parentes na pacata cidade de Santa Rosa. O clima de alegria se instaura entre a família, mas logo Tio Charlie começa a agir de forma estranha, o que desperta a desconfiança da Jovem Charlie e de mais dois detetives, que logo descobrimos, estão atrás de um misterioso assassino, cujo costume é tirar a vida de viúvas recentes. Após suas pesquisas, a Jovem Charlie começa a desconfiar que seu tio possa ser o assassino, passando a temer não apenas a segurança de seus familiares, mas também a sua própria.

Quando digo que este foi o filme que intensificou as futuras características de Hitchcock, não é por acaso. Basta prestar atenção na maneira como o diretor constrói a atmosfera do longa, e em como sua carreira alcançou novos vôos após este filme. Inicialmente apresentada como uma cidade calma e convencional, a cidade de Santa Rosa logo se torna o palco de um intrigante jogo de gato e rato, onde a suspeita se instaura em todo lugar. Ainda que boa parte do filme se passe dentro da casa da família, a aura pacifica da cidade ajuda na sensação de desconfiança, como se da mesma forma que acontece na casa da Jovem Charlie, todos ali possuem seus segredos dentro das paredes de suas residências. A situação que ocorre durante do filme serve como inspiração para refletir sobre os segredos que cada um esconde dentro de seu próprio lar.

Boa parte do longa, aliás, é dedicada a construção de diálogos simples e caseiros, transmitindo toda a simplicidade da família, e o quão grave é a situação que se desenvolve no meio desta família comum. Assim, quando começamos a perceber a verdadeira personalidade de Tio Charlie, e de como ele é capaz de tudo para manter sua identidade em segredo, o clima de tensão se instaura, e daí pra frente nos deparamos com situações imprevisíveis e repletas de nervosismo, que nos deixam grudados na cadeira, ansiosos pelo clímax da história.

Mas A Sombra de uma Dúvida, sendo um dos menos ambiciosos de Hitchcock, encontra alguns problemas pelo caminho, destacando sua protagonista, apresentando-se como uma garota ingênua demais, sonhadora demais, e por conseqüência, irritante demais. Os sorrisos esboçados por Teresa Wright após a chegada de seu tio não convencem, e só fizeram crescer meu desapreço pela personagem, que felizmente, assume uma posição mais intensa após a primeira metade. Esta primeira metade, aliás, possui certo exagero em sua narrativa, demasiada lenta, mas que consegue manter a atenção graças as sutilezas na direção de Hitchcock.

Mas estes problemas pouco atrapalham o ótimo nível de A Sombra de uma Dúvida, que mesmo sendo um dos menos lembrados do diretor, prova que não envelheceu, e se mostra mais eficiente do que a maioria dos exemplares atuais, com situações tensas e imprevisíveis, além de um desfecho pequeno, mas memorável. Hitchcock viria a melhorar muito em seus projetos seguintes, mas isto não desmerece esta pequena pérola de sua filmografia e do gênero do suspense.

A Sombra de uma Dúvida (Shadow of a Doubt, EUA, 1943)
Roteiro: Thorton Wilder, Sally Benson e Alma Reville
Direção: Alfred Hotchcock
Elenco: Henry Travers, Joseph Cotten, Teresa Wright, Hume Cronyn
Duração: 108 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.