Crítica | A Teia do Homem-Aranha #1 a 6 (1985)

a-teia-do-homem-aranha-1-a-6-plano-critico

estrelas 3

O Homem-Aranha é um dos heróis com a galeria mais diversa de vilões, com antagonistas icônicos como o Duende Verde, o Rei do Crime, Venom, Kraven, dentre muitos outros. Apesar disso, é importante que os roteiristas de suas histórias não tirem de vista aquilo que tão constantemente abala o Aracnídeo, que forma o personagem como o conhecemos: a luta interna entre sua vida como Peter Parker e Aranha. Evidente que, em muitas histórias, a máscara serve como uma válvula de escape de sua vida normal, mas, muitas vezes, ela atrapalha o indivíduo, o impossibilitando de ser  como qualquer outra pessoa. As primeiras seis edições de The Web of Spider-Man (traduzido livremente para A Teia do Homem-Aranha) toca em tais questões.

Esses primeiros números podem ser divididos em dois arcos não-oficiais distintos, com o primeiro trazendo os Abutres como antagonistas, um grupo que roubara a tecnologia da roupa do Abutre original. Já o segundo coloca Otto Octavius de volta na jogada, ainda que a história de Peter se mantenha sem grandes interrupções, somente com algumas elipses no meio do caminho. Temos, também, claro, a sexta edição, parte da terrível saga Guerras Secretas II – essa, por sua vez, como é de costume nas grandes editoras de quadrinhos, interrompe o fluxo narrativo a favor de uma grande saga, que obriga o leitor a ler todas as outras revistas relacionadas para entender o que está acontecendo.

Apesar de utilizar figuras importantes de sua galeria de heróis, The Web of Spider-Man, como já dito antes, não foca na velha e cansativa luta entre mocinhos e vilões. Ao invés disso, opta por trabalhar o impacto do Aranha na vida pessoal de Parker, algo que é muito bem simbolizado pela sua tentativa de dar o presente de tia May, enquanto é atrapalhado sucessivas vezes – primeiro pelo traje simbionte, que escapara do prédio Baxter, depois pelos Abutres. Em paralelo, acompanhamos May ainda se remoendo em razão de Parker ter abandonado a faculdade para ser fotógrafo, algo que, claramente, está relacionado à sua vida dupla, já que ele é a pessoa perfeita para fotografar o aracnídeo. Para finalizar, vemos Parker lidando com o Clarim Diário e J. Jonah Jameson, que insiste que o herói é uma ameaça.

De fato, ele não está 100% errado. O Aranha é, sim, uma grande ameaça para o próprio Peter e, nessas seis edições, nos perguntamos se ele não é para o restante da sociedade, visto que todos os vilões apresentados estão especificamente indo atrás do herói e não tentando roubar bancos ou algo assim. Teria, portanto, inadvertidamente, o Aracnídeo catalisado todos esses eventos? Afinal, até o próprio Octavius retorna em razão de seu passado com o lançador de teias. O roteiro de Louise Simonson não perde tempo e verbaliza tais dúvidas através de Mary Jane, que basicamente diz que Peter não tem uma vida social em razão de seu alter-ego.

Infelizmente, o arco conta com um grande problema: seus diálogos superexpositivos. Cada painel é lotado de balões de fala ou pensamentos, alguns, sim, se fazem necessários, mas outros apenas narram o que vemos na imagem, como se não confiassem na arte para nos passar a mensagem. Por outro lado, esses balões acabam ajudando, já que a arte se torna um tanto confusa em determinados momentos, pulando de um ponto para o outro sem mais nem menos. Fica bastante claro que a intenção era de entregar histórias fechadas a cada edição e, para isso, não teriam de utilizar qualquer espaço possível para agilizar a história. Tal manobra, contudo, polui as páginas e prejudica o ritmo da leitura, a tal ponto que, se somente lermos o que está escrito, iremos entender a história plenamente.

Esses primeiros números de The Web of Spider-Man, portanto, utilizam de ótima maneira os vilões e a própria dualidade de Peter Parker a fim de criar uma história que foge do simples, preto no branco, bem contra o mal. A execução disso tudo, porém, é falha em mais de uma ocasião, tornando esta uma leitura nada fluida, que requer um certo esforço do leitor para que consiga mergulhar plenamente nessa trama. No fim, felizmente, o saldo continua positivo, se configurando como uma história que merece ser lida, por mais que existam dezenas de outras melhores por aí.

A Teia do Homem-Aranha #1 a 6 (The Web of Spider-Man #1-6) — EUA, 1985
Roteiro: Louise Simonson, Danny Fingeroth
Arte: Greg LaRocque, Mike Zeck
Arte-final: Vince Colletta, Greg LaRocque, Mike Zeck, Bob Layton, Dave Simons, Jim Mooney
Cores:
Julianna Ferriter, Bob Sharen, George Roussos, D. R. Martin
Letras: Phil Felix, Rick Parker, Janice Chiang
Editora original: Marvel Comics
Data de publicação original: abril a setembro de 1985
Editora no Brasil: Editora Abril
Data de publicação no Brasil: março a julho de 1990
Páginas: 138

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.