Crítica | A Teoria de Tudo

estrelas 5,0

Baseado na autobiografia escrita por Jane Hawking, Travelling to Infinity: My Life with Stephen, A Teoria de Tudo facilmente poderia cair dentro da velha proposta “o amor conquista tudo”, percepção prévia já sedimentada pelas campanhas publicitárias da obra, seja através dos posteres, com o bordão “A Extraordinária história de Jane e Stephen Hawking” ou dos trailers (superexpositivos) que evidenciam o foco na relação do casal. É natural, portanto, que se espere, no mínimo, um drama criado única e exclusivamente para comover as audiências e agaranhar alguns prêmios da academia. O filme, contudo, vai muito além desse primitivo ensejo – mira nas estrelas e as atinge, quebrando cada uma de nossas expectativas.

Não que o longa não seja sobre Stephen e Jane, esse continua sendo o tema central da narrativa. Interpretados por Eddie Redmayne e Felicity Jones, o futuro casal se conhece em uma festa de estudantes de Cambridge. Hawking, um completo nerd, doutorando em física, acaba sendo cativado (e vice-versa, naturalmente) pela bela Jane, estudante de artes e uma relação começa a se formar. Ao mesmo tempo, o roteiro de Anthony McCarten trabalha em cima da formação da tese de Stephen – ele ainda não decidiu seu tema central e sua já percebida genialidade traz uma certa ansiedade por parte de seus colegas acadêmicos. Com o fluir do relacionamento dos dois jovens, trabalhado com um humor natural que se mantém pelo restante do longa, a hipótese de Hawking vai se formando, inspirada por momentos pontuais que surgem, por acaso, aqui e lá, como a clássica maçã de Newton. Logo cedo na trama, o futuro professor fecha seu tema acerca de singularidades e uma única equação que explica tudo no universo e, logo em seguida, como uma brincadeira de mal gosto do destino, sua doença degenerativa dá as caras com todas as forças.

Aqui entramos na atuação de Redmayne, que, desde cedo, nos oferece indícios (alguns óbvios, outros não) de sua condição já preocupante. Através dele enxergamos um Stephen desajeitado, com um andar curioso e movimentos estranhos dos dedos na mão. Mesmo se não soubéssemos o que viria pela estrada à frente, já suspeitaríamos que algo estava fora do lugar. Mas fora do evidente está a qualidade de seu trabalho, através de sua retratação excêntrica de Hawking, Eddie transforma cada movimento em algo completamente natural – em ponto algum do filme enxergamos sua atuação como forçada, a percepção tida por nós é que ele mesmo passa por aquelas dificuldades, seja nos primeiros minutos, ainda em boas condições, seja nos finais, praticamente todo paralisado. Mais notável ainda é que, mesmo sem poder movimentar a maior parte de seu corpo, conseguimos perceber suas emoções, seu simples olhar transmite alegria, tristeza, raiva ou ciúmes, amplificando ainda mais a carga dramática da obra.

Mas Redmayne não está sozinho em tela, tendo de carregar A Teoria de Tudo nas costas. Ao seu lado temos Felicity Jones, que nos oferece uma interpretação sincera e convincente de Jane Hawking, uma personalidade que chega a ser difícil de acreditar que exista, por tudo que já passou. Jones é quem, muitas vezes, constrói o tom da narrativa, trazendo consigo todo o peso de cuidar de uma família inteira por conta própria. Nem tudo são flores nesse “amor que conquista tudo” e a forte química entre os dois atores é crucial, fazendo com que o espectador se identifique com cada desavença entre os dois, por menor que seja, de forma que entendemos ambos os lados. Todavia, temos aqui um dos tropeços do roteiro de McCarten, que, em certos pontos traz uma ligeira vilanização de Jane – algo completamente injusto considerando o que ela passou. É certo que essa não era a intenção, especialmente levando em consideração as ações de Stephen dentro do filme, mas não temos como não sentir que o texto falhou nesse ponto. Felizmente, o desfecho consegue consertar tal aspecto, tornando-o passível de ser relevado dentro do cenário geral.

Dando luz às estrelas desse universo em forma de filme temos a emblemática trilha sonora de Jóhann Jóhannsson, indicado ao Oscar e também responsável pela música de Foxcatcher: Uma História que Chocou o MundoJóhannsson emprega suas melodias diversas vezes a fim de, em conjunto com a imagem, construir as diversas elipses presentes dentro da trama. O passar dos anos dentro da vida de Stephen e Jane passa de forma orgânica e, em ponto algum, é sentida pelo espectador, que transita pelo longa fluidamente. Com músicas marcadas pelo piano, o compositor intensifica consideravelmente a carga dramática, trazendo o que faltava para lágrimas escorrerem dos olhos do espectador, que certamente sairá comovido da sala do cinema. Esse mesmo trabalho faz funcionar as sequências que fazem uso de uma fotografia de caráter documental, como antigas filmagens de família – nestas, o som ambiente fica em segundo plano, permitindo que o ritmo não seja quebrado.

A fotografia de Benoît Delhomme, dentre outros filmes, responsável por O Homem Mais Procurado, em conjunto com um ótimo trabalho de coloração, traz não só toques de envelhecimento para cada fotograma, como elabora efetivas metáforas para o caráter cosmológico do filme, utilizando, muitas vezes, cores azuladas, que refletem também a disposição serena de Hawking em relação à sua doença. Algumas dessas metáforas são mais evidentes, como a emblemática cena da dança, outras mais sutis. Temos aqui um notável aumento da profundidade da obra, que conta sua história não só através de seus diálogos e mais, puramente, pela imagem. Não temos excessivas explicações para detalhes óbvios (ou não), o enredo se desenvolve naturalmente, deixando muito nas entrelinhas, tratando o espectador como ser humano e o permitindo que pense por conta própria.

É por essas razões que A Teoria de Tudo merece que deixemos de lado velhos preconceitos acerca de dramas ou histórias onde “o amor vence tudo”. Ele vai muito além disso, trazendo um relato sobre duas pessoas, suas dificuldades e inúmeras felicidades. Não é um filme sobre a Física e sim sobre um físico e sua resistente companheira de luta, se distanciando bastante do que vimos em A História de Stephen Hawking, com Benedict Cumberbatch. Merecedor de todas as indicações do Oscar 2015, o longa deve ser conferido no cinema e certamente será apreciado por qualquer audiência: um drama que traz sinceros choros e risos.

A Teoria de Tudo (The Theory of Everything – Reino Unido, 2014)
Direção:
 James Marsh
Roteiro: Anthony McCarten (baseado no livro de Jane Hawking)
Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Tom Prior, Sophie Perry, Harry Lloyd, Alice Orr-Ewing, David Thewlis, Michael Marcus, Simon McBurney
Duração: 123 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.