Crítica | A Terra Treme (1948)

estrelas 4

Em Manuscritos de 1844, Karl Marx traz a seguinte afirmação: “o trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a produção aumenta em poder e extensão”. É basicamente através de uma lógica narrativa semelhante aos escritos marxistas que A Terra Treme, produção considerada um dos pontos altos do neorrealismo, dirigida por Luchino Visconti e lançada em 1948, estrutura-se.

A narrativa situa-se no período pós-guerra. No filme, um jovem pescador, juntamente com a sua família, revolta-se contra a exploração por parte dos seus superiores no porto de Catania, na Sicília, região pobre da Itália. Cientes da necessidade de mudança, hipotecam a casa e estabelecem o seu próprio comércio, tendo em mira livrar-se das garras capitalistas dos seus patrões.

O que eles não esperavam é que o negócio não vai adiante, as dívidas começam a chegar e, concomitantemente, a fome e a miséria. Se antes estava ruim, a situação torna-se ainda mais angustiante. Neste cenário, o que temos é a exploração do homem pelo homem. Não há um pensamento sindical, mas a busca pelo individualismo. E assim, surge a tese da obra: a negação do trabalho proletário.

Há um momento em que os personagens vendem o seu produto por um preço tão ínfimo que não consegue o suficiente para comprar mercadorias de outros vendedores, e assim, “circular” o mercador, fazer o processo de “distribuição de renda”. São as relações mercantis que ocorrem no filme, da maneira mais crua, desumana e sádica que o espectador possa imaginar.

Como cenários naturais, filmado de forma quase documental, Visconti eleva os ideais neorrealistas. Na seara da composição dos elementos da linguagem audiovisual, temos a Igreja como uma espécie de “personagem” da história. Um narrador apresenta os acontecimentos, utilizando-se da língua italiana na sua forma mais “pura”, “padrão”, a “norma culta”, diferente dos diálogos dos personagens, geralmente falados num italiano menos formal, uma espécie de dialeto.

Troque o mar pelo sertão. Observe o final cíclico da narrativa. Atenha-se ao som incomodo na abertura. Após estas observações, provavelmente você reconhecerá que está diante de um filme bem parecido com Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, adaptação do romance homônimo de Graciliano Ramos, uma das obras-primas da prosa moderna brasileira.  Na narrativa brasileira, Fabiano precisa abandonar a fazenda e seguir adiante em rumo de um futuro bastante incerto. Em A Terra Treme, o personagem precisa regressar ao mar, sob o olhar opressor dos mercadores que extraem de forma praticamente escravagista a sua mão de obra.

O tema já havia sido abordado no cinema anteriormente: As Vinhas da Ira, de John Ford, a trama nos mostra o drama proletário dos catadores de frutas nas fazendas capitalistas da Califórnia. Em Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica, somos apresentados a uma crônica adornada por requintes da tragédia, tendo como centro um homem trabalhando como colador de cartazes.

Há uma mensagem ideológica na produção: não há saída para aqueles que almejam por si só enfrentar a ordem capitalista e o mercado. Daí é possível perceber que temos uma metáfora para o fracasso do pequeno empreendorismo diante das artimanhas dos grandes conglomerados econômicos.

Com roteiro assinado por Antonio Pietrangeli, Giovanni Verga e Luchino Visconti, A Terra Treme conta elenco composto por atores não profissionais, no geral habitantes da Sicília. Ao longo dos seus 160 minutos, o filme, guiado pela música pouco intrusiva de Willt Ferrero e a edição equilibrada de Mario Serandrei, nos faz compreender que quase nada mudou após tantas décadas de desenvolvimento da sociedade contemporânea. A opressão continua, por sua vez, alcançou outras instâncias de representação.

À guisa de curiosidade, cabe ressaltar que o filme traz a fotografia como recurso de memória. Há uma cena bastante emblemática para a ilustração desta afirmação: uma das personagens está a limpar a casa quando de repente para diante de uma imagem na parede e fica a deslumbrá-la. Assim, através daquela fotografia e do breve diálogo sobre o seu conteúdo, somos apresentados à família que rege o centro nervoso do roteiro. É a nossa chance de conhecê-los mais, sem um flashback mais explícito.

O filme foi premiado no Festival de Veneza, mas a ovação não foi suficiente para a recepção de boa parte da crítica na época, campo discursivo que considerou a produção rudimentar, com aspecto austero e fora dos aspectos formais. Nada como o tempo para provar o contrário.

Hoje, clássico obrigatório para os que desejam entender o cinema e o movimento neorrealista, A Terra Treme é um ótimo exemplar para ilustrar a relação da ficção com as mazelas sociais que acometem a sociedade desde sempre. Reza a lenda que Visconti ficou sem financiamento para terminar o filme e foi obrigado a penhorar joias e um dos apartamentos da família. Parece que na trajetória de realização deste filme, a arte imitou a vida juntamente com a vida imitando a arte.

A Terra Treme (La Terra Trema) – Itália, 1948.
Direção: Luchino Visconti.
Roteiro: Antonio Pietrangeli, Giovanni Verga e Luchino Visconti.
Elenco:  Agnese Giammona, Antonnio Micale, Giuseppe Arddiacono, Giuseppe Vicari, Maria Micale, Nelluccia Giammona, Salvatore Vicari, Santo Valastro, Sebastiano Valastro.
Duração: 160 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.