Crítica | A Teta Assustada

A Teta Assustada entrou para meu radar ainda quando foi anunciado como o indicado do Peru para concorrer ao Oscar de Melhor Filme estrangeiro. Quando saiu a lista dos efetivos indicados à categoria, ele se manteve lá, firme e forte, dentre outros fortes concorrentes como o alemão A Fita Branca e o argentino O Segredo dos Seus Olhos, que acabaria levando a estatueta. Mas o representante peruano da lista também merece atenção dos espectadores, ainda que sua divulgação tenha sido tímida à época.

Dirigido por Claudia Llosa, A Teta Assustada conta a história de Fausta (Magaly Solier), moça de singular beleza, moradora de um paupérrimo povoado ao redor de Lima. Sua mãe, estuprada quando da revolução há décadas, com Fausta ainda no útero, passou, segundo diz a lenda local, a doença da “Teta Assustada” para a filha. Trata-se de um pavor de viver transmitido pelo leite materno à criança recém-nascida. Fausta, de fato, não tem vida que não seja cuidar de sua mãe idosa. No entanto, logo no começo da projeção, sua mãe morre e ela, então, parte para uma luta para enterrá-la de forma minimamente digna em seu vilarejo de origem. Para isso, ela tem que se livrar dos grilhões que a impedem de ir à esquina sozinha, de efetivamente viver sua vida. Ela tem um medo visceral, certamente martelado em sua cabeça pela mãe (ou transmitido pelo leite materno, para quem preferir assim acreditar) de ser estuprada. Não consegue tocar em nenhum outro ser humano. É um bicho do mato em todos os sentidos da palavra.

Diante do dilema, Fausta enfrenta os perigos da vida fora de casa para juntar dinheiro para enterrar sua mãe, conseguindo emprego de doméstica em um casa de uma milionária meio ruim das ideias em Lima (usada, claramente, com símbolo do colonialismo). Lá, ela passa a conviver, de forma muito relutante, com o jardineiro, um homem bom, que só quer ajudá-la.

O medo, elemento que obviamente é a mola mestra da obra, não só é o literal já abordado acima, com Fausta literalmente plantando um tubérculo em sua vagina para evitar ser violada, o que se torna o símbolo máximo de sua “prisão”, como também o representante de um sofrimento maior. Em um nível, temos o embate psicológico entre o querer viver e o temor de experimentar a vida, com sequências belíssimas capturadas pelas lentes de Llosa, em que vemos Fausta como uma ilha de sentimentos reprimidos explorando seus arredores. Em uma delas, o jardineiro traz um presente para Fausta e o leve roçar das mãos dele na pele dela, a faz largar o presente no chão e correr desesperada. O rosto da atriz Magaly Solier consegue, de forma magistral, passar essa aflição, esse horror de Fausta pelo simples fato de estar fora de casa.

Em um segundo nível, o sofrimento de Fausta é o sofrimento de todo um povo, um lembrete das feridas do passado, durante a chamada época do terrorismo nos Andes peruanos com dezenas de milhares de habitantes assassinados friamente e também durante as ditaduras que assolaram o país de forma intermitente por décadas. As críticas são sempre indiretas, cuidadosas, discretas, tendo Fausta em seu centro como uma vítima ignorante do medo e do sofrimento ao seu redor. Ao mesmo tempo, o filme também festeja a tradição nativa dos peruanos, fazendo questão de mostrar a língua nativa, danças locais e tradições do povo colonizado pelos espanhóis.

A delicadeza – e por vezes a bizarrice – de A Teta Assustada chama a atenção do espectador para o cuidadoso trabalho de Claudia Llosa e, claro, para a excelente atuação de Magaly Solier que compensam o claro baixo orçamento da fita. Trata-se de um filme que, a princípio, parecerá estranho ao espectador, mas que, aos poucos, o atrairá para o dilema da protagonista e para o que ele representa para toda uma cultura. Não há dúvidas que a Academia fez bem ao destacar a obra na cerimônia do Oscar de 2009.

A Teta Assustada (La Teta Asustada, Espanha/Peru – 2009)
Direção: Claudia Llosa
Roteiro: Claudia Llosa
Elenco: Magaly Solier, Susy Sánchez, Efrain Solís, Bárbara Lazón, Delci Heredia, Karla Heredia, Fernando Caycho, Miller Revilla Chengay, Spencer Salazar, Summy Lapa, María del Pilar Guerrero, Leandro Mostorino, Anita Chaquiri, Edward Llungo
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.