Crítica | A Tormenta de Espadas – As Crônicas de Gelo e Fogo – v.3, de George R. R. Martin

estrelas 5,0

Há spoilers.

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A Tormenta de Espadas originalmente fecharia a trilogia que George R. R. Martin imaginara quando iniciou sua escrita das Crônicas de Gelo e Fogo. Chega a ser irônico pensar que exatamente esta obra virou a abertura para um mar de possibilidades, graças aos espetaculares e horrendos eventos que povoam a maioria do livro e que formaram a principal razão da existência da série Game Of Thrones. Um, em específico, tornou-se um trauma real para leitores e espectadores, o que só mostra a genialidade de Martin, aqui em seu apogeu.

Muita acontece nesse livro três. Enquanto o livro dois continuou a introdução de personagens centrais para a história e teve na Batalha da Água Negra o seu grande clímax, a presente obra é cheia de ápices fora de hora que desconstroem uma linha narrativa clássica do gênero, destruindo expectativa em cima de expectativa que a imensa maioria de leitores criou devido ao arquétipo que todos esperavam desde o início. Ler A Tormenta de Espadas chega a ser um exercício de masoquismo, justificador do título do livro, que faz o fã larga-lo de tanto ódio pela imaginação sanguinária do autor, para logo depois retomar a leitura e depositar um fio de esperança em seus personagens favoritos…logo a ser cortado novamente.

Pode ser uma repetição excessiva, ou ainda um lugar comum, depois de tanto sucesso, bater na tecla da surpresa. Só quem leu sabe, todavia, o destroçar que é produzido como uma avalanche em que você, paralisado, busca algum inútil refúgio. Cada palavra de Martin beira o surrealismo por gerar tanto receio no leitor, que a cada capítulo prova um pouco do domínio sedutor calmamente construído pelas hábeis mãos de um escritor genial. Isso graças ao lento e envolvente percurso iniciado na Guerra dos Tronos e que aqui encontra seu capítulo final, ainda que o fim das Crônicas esteja longe de ser selado.

Evidentemente, o final que falo, e pelo qual gostaria de iniciar essa crítica propositalmente com spoilers, é o já famosíssimo Casamento Vermelho. A morte de Robb Stark, Catelyn Stark e Vento Cinzento, traídos por famílias nortenhas até então de segundo e terceiro escalão dentro do estabelecido, é o fim de uma jornada iniciada no primeiro capítulo de Ned Stark no primeiro livro. A condução manejada por Martin é exatamente no sentido de criar a sede de vingança no leitor que viu o mais honesto dos homens de Westeros ser decapitado pelas ordens de um rei mimado. É essa vingança que ganha corpo em todo o segundo livro e que começa a titubear nas angustiantes escolhas que Lady Catelyn tem de fazer, ainda que o escritor nunca dê indícios da chuva de sangue porvir. Capítulo por capítulo, sob a perspectiva da matrona dos Stark, a sensação passada é a de que o jovem Robb – que curiosamente não possui capítulos com seu ponto de vista – é um ótimo líder militar, mas um ingênuo líder político. Mas por mais que uma olhada retroativa pós-trauma identifique os erros de percurso, é impossível conceber que os Frey, aqueles mesmo de um capítulo já esquecido em outro livro, e os Bolton!, seriam capazes de tamanho feito.

O fim dos Stark é o fim da narrativa clássica que todos esperavam – o filho vingando seu bom e injustiçado pai, conquistando e apaziguando o reino, aqui sob um viés político e dialogal. Os Lannisters venceram com ‘v’ maiúsculo e há ainda dois detalhes que gostaria de ressaltar: como retratado fielmente na série televisa, Arya Stark, personagem favorita de boa parcela dos fãs, depois de um longo, perigoso e cansativo caminho, se encontra à beira de rever sua família e reatar o vínculo afetivo já tão estraçalhado. Ler linha por linha da descrição de Martin e não ir acreditando no que se lê é um puro choque que se inicia nos capítulos de sua mãe e se estende impiedosamente em cada página do capítulo da garota que se segue ao fatídico casamento.

“Dói tanto, pensou. Os nossos filhos, Ned, todos os nossos queridos bebês. Rickon, Bran, Arya, Sansa, Robb…Robb…por favor, Ned, por favor, faça com que pare, faça com que pare de doer….As lágrimas brancas e as vermelhas correram juntas até que seu rosto ficou rasgado e em farrapos, o rosto que Ned amara. “ (p.532)

Martin amassa o coração de cada um que se viu simpático aos Stark nas mais de 1.500 páginas lidas até então. E o melhor (ou pior): havia mais 300 páginas a serem lidas. Isso significa, e é esse o segundo ponto que friso, que não se trata da morte de Ned, já no final do livro um, nem da Batalha de Tyrion, evento que praticamente termina o livro dois. O Casamento Vermelho quebra o leitor no meio do percurso e sequer dá tempo de recuperação.

Espertamente, Martin coloca na frase fatal do traidor Roose Bolton um dos personagens de maior destaque deste livro: Jaime Lannister. Com razão ele vira aqui o herói – ou pelo menos ganha a simpatia, o que já é muito para um infanticida e incestuoso soldado – para muitos leitores, nitidamente transformado física e psicologicamente. Ao associá-lo com a honrada e austera Brienne de Tarth e fazê-los passar por desgraças das mais imaginativas, Martin desveste o personagem de Jaime da arrogância e beleza asquerosa com que foi pintado junto de sua irmã em contraposição à simplicidade e honradez dos Stark. Uma lenta inversão de papéis se inicia aqui de forma brilhante, principalmente com um diálogo fenomenal entre os dois cavaleiros envolvendo a história de Westeros, o assassinato do Rei Louco e a figura cada vez mais obscura do falecido Eddard Stark. Da mesma forma, Jaime encara o livro dos cavaleiros da Guarda Real, lembrando de Sor Arthur Dayne armando-o cavaleiro quando jovem em uma contida e gostosa reflexão sobre sua biografia até ali, focada no regicídio tão famoso. É como se o autor gritasse em nossa cara: “Aqui não há maniqueísmos, seu tolo”.

Se personagens conhecidos morrem e outros são aprofundados inesperadamente, novas figuras também dão os ares da graça apenas para novamente provarmos do veneno de Martin. É o clássico caso de Oberyn Martell, a Víbora Vermelha de Dorne que vem à capital com o ódio que o próprio leitor nutre pelos Lannisters, além de uma boa dose histórica de Westeros e características tipicamente dornesas. É o meio que Martin encontra de introduzir um novo núcleo e puxar o tapete do leitor ao mesmo tempo. Oberyn é uma amostra da poderosa escrita de Martin, pois se trata personagem de presença fortíssima e que aparece por poucos capítulos. Mesmo não durando, já vi muitos lamentando mais sua morte do que o a de Robb, o que é compreensível dado o ritmo que Martin dita, personificando a esperança do leitor em um convicto guerreiro estrangeiro que logo não só acabará com sua morte, como ainda prejudicará Tyrion Lannister, provavelmente o melhor personagem de todos os livros. Veja que em trezentos páginas Oberyn é introduzido, Joffrey morre no famigerado Casamento Roxo – um pingo de luz na escuridão atormentadora deste livro. Ainda assim, um pingo muitíssimo bem saboreado – o arco de Tyrion envolvendo seu julgamento pela morte do rei e a traição de sua amante Shae se desenrola, Oberyn é morto por Gregor Clegane em um dos duelos mais emocionantes dos cinco livros, Tyrion consegue escapar e Shae é assassinada assim como Lorde Tywin, patriarca dos Lannisters, nas mãos de seu próprio filho. Não à toa este é o melhor livro da série, já que tantas reviravoltas acontecem apenas em um núcleo logo após o impacto emocional do tamanho que o Casamento Vermelho causou.

Martin reinventa o papel de Tyrion a cada livro, para deleite de qualquer fã, abusando do tormento psicológico que o anão passa, principalmente em sua estadia na prisão, mas que também se prolongaria pelos outros livros. Refaz com isso o pavor que o leitor sente ao se perguntar até o final se Tyrion sofreria da mesma injustiça de Robb, o que faria muitos fãs queimarem A Tormenta de Espadas sem dó nem piedade. A questão é que Martin aproveitou este livro para matar metade dos personagens que criara. Felizmente, todas as mortes são importantes e extremamente bem construídas, algo em que a série televisiva, por vezes, peca.

Vamos para o Norte e vejamos, por exemplo, o Senhor Comandante da Patrulha da Noite, Jeor Mormont, pai de Jorah. Sua morte em um motim na casa de Craster é permeada por um tocante perdão dado ao seu filho, em um precioso e rápido momento onde Sam tenta salvá-lo, em vão. Pequenos detalhes narrativos são o que todo fã gostaria de ver na série, mas nem sempre isso é traduzido ao pé da letra na adaptação. Um dos casos mais claros é o do enigmático Mãos-Frias, um cavaleiro encapuzado e de pele gelada que monta um alce gigante e ajuda Sam a escapar dos Outros quando este está com Goiva. Não só a presença de um personagem esteticamente incrível faz diferença, mas também sua junção ao grupo de Bran Stark, logo depois, virou base de inúmeras teorias – envolvendo, inclusive, o saudoso tio perdido dos filhos Stark, Benjen – e aumentou o elemento mágico neste núcleo nos livros seguintes. Na série, nem sinal desse obscuro salvador.

Ainda que os livros possuam muito mais conteúdo no que diz respeito às tais teorias e profecias, a série adapta muitíssimo bem momentos emocionantes que encerram, na narrativa do livro, longos arcos que ali se estendiam. A batalha entre patrulheiros e selvagens, por exemplo, toma seu tempo no livro, centrando-se no líder Mance Rayder e sendo, por vezes, até confusa em termos espaciais. Ainda assim, a previsível – por incrível que pareça – morte de Ygritte, serve ao desenvolvimento de Jon Snow ao mesmo tempo que evita ser um clichê amoroso por demais melodramático. O retrato da morte na série, com as devidas liberdades criativas, capta bem o sentido do episódio, assim como ocorre na morte de Lysa Arryn, a irmã de Catelyn que é assassinada por Mindinho e que serve para fixar no leitor que Martin não cansará de matar quem for preciso.

O autor, porém, soube dar uma distância necessária para determinados personagens, como no caso de Davos, Stannis, Melissandre e, principalmente, Theon, guardando-os para os próximos capítulos e dando indícios, principalmente no caso dos primeiros, do desenvolvimento da guerra no Norte. Já no caso do segundo, Martin utiliza a interrogação em cima do que aconteceu com Greyjoy em Winterfell para retirar qualquer mínima base segura dos Stark, posto que seu próprio lar se torna um ambiente completamente desconhecido.

Há ainda neste livro inúmeros coadjuvantes a ganharem conteúdo nos próximos capítulos, como os irmãos Kettleblack; os próprios gigantes, pela primeira vez “vistos” ao norte da Muralha; os imaculados de Daenerys Targaryen, aqui ainda em ascensão cada vez mais admirável e que ganha em Sor Barristan Selmy um ótimo conselheiro, ponto crucial que Martin coloca para recontar a imagem da família da mãe dos dragões sob uma perspectiva imparcial; Hoster Tully, pai de Catelyn e Lysa que delira momentos antes de sua morte com sua filha Stark, gerando mais uma mini- seção de teorias; e a Irmandade sem Estandarte, do mais que esquecido Berric Dondarrion, presente, em suma, para dar base ao acontecimento mais fantasioso de Martin. Nada supera, afinal, o epílogo de A Tormenta de Espadas:

“A carne tornara-se esponjosa na água e tomara a cor do leite coalhado. Metade dos cabelos tinha desaparecido, e o resto ficou tão branco e quebradiço como o de uma velha. “ (p.840)

Por mais que As Crônicas de Gelo e Fogo sejam uma fantasia com pés no chão, sutil em suas magias e poderosa em suas intrigas, é sempre bom ver um exagero, uma doidice de vez em quando. Ainda melhor é ver esse surrealismo vestido de horror e querer abraça-lo, torcer por ele e morrer de ansiedade para a próxima página chegar e você ver a justiça sendo feita de verdade, porque matar um Frey aqui e acolá de pouco vale para o desejo irrefreável de quem perdeu uma parte de si nas Gêmeas. George Martin é tão sádico que demorou cinco anos para lançar o quarto livro e mais seis para o quinto. Terminar um livro desse com a aparição da Senhora Coração de Pedra é simplesmente brincar com a ansiedade e o coração de quem acompanhou suas três obras até então publicadas. Das três, ou melhor, das cinco, esta é certamente a mais memorável, corajosa e revolucionária, essencialmente por ser pontuada de morte em cada página e ainda assim não banaliza-la.

A Tormenta de Espadas – As Crônicas de Gelo e Fogo – v. 3 (A Storm Of Swords – A Song of Ice and Fire – vol. 3, EUA – 2000)
Autor:
George R.R. Martin
Editora: Leya
Páginas: 884

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.