Crítica | A Torre Negra (2017)

estrelas 2

– Leiam, aqui, a crítica com spoilers.

A experiência cinematográfica tem o poder de evocar incontáveis diferentes sensações no seu espectador – fascinação, tensão, angústia, alegria, dentre muitas outras. Quando a experiência é tida como negativa pelo receptor não é incomum ouvirmos frases como “esse filme é horrível” (poupando, aqui, meu francês), com tais pessoas considerando toda a obra como uma grande perda de tempo. Mesmo não gostando de determinado longa-metragem, porém, sentimentos essencialmente diferentes podem ser sentidos, existem aqueles filmes tão ruins que chegam a nos causar raivas, enquanto que outros soam como uma refeição completamente sem tempero – em outras palavras, existe conteúdo, mas ele falha em verdadeiramente nos atrair de qualquer forma. Infelizmente, esse segundo caso se aplica ao longa-metragem A Torre Negra.

Para quem não acompanhou entrevistas ou outras notícias relacionadas ao filme, trata-se da continuação (canônica) da famosa série de livros, de mesmo nome, de Stephen King. Não irei entrar em detalhes sobre como ambas dialogam entre si, isso ficará a cargo da crítica de nosso outro editor, Ritter Fan, que abordará o filme de Nikolaj Arcel sob o ponto de vista do leitor dos diversos volumes escritos por King. Dito isso, esta crítica, sem spoilers, traz o olhar de alguém que nunca leu qualquer um desses romances, enxergando, portanto, o longa como algo fechado em si próprio, ao menos por enquanto.

A história inicia com a visão de Jake (Tom Taylor), um garoto que vive em Manhattan e que vem sendo assolado por estranhos pesadelos. Logo nesses primeiros instantes já contemplamos a destruição da Torre Negra, ou, ao menos, a iminência de sua queda, cujos abalos chegam a provocar terremotos na dimensão paralela onde Jake vive. Não demora muito para que o garoto passe a ser perseguido por estranhos seres de seus sonhos, sem opção, ele foge de casa e encontra um portal para o outro mundo que há tanto tempo vinha acompanhando durante as noites. Lá ele encontra Roland (Idris Elba), o último dos pistoleiros, grupo cuja missão é a de defender a tal torre, essa, por sua vez, é o que mantém todas as dimensões protegidas dos demônios do lado de fora do universo. Ambos eles precisam arranjar uma forma de impedir os planos do Homem de Preto (Matthew McConaughey), que visa justamente destruir a torre.

A Torre Negra, portanto, adota pontos comuns à incontáveis outras fantasias, sejam da literatura ou cinema. Temos um personagem estrangeiro a uma terra de magia, que atua como nossa porta para esse universo, justificando, portanto, as explicações oferecidas ao longo da projeção e, claro, a figura de uma espécie de mestre, função cumprida pelo pistoleiro, que está em sua própria jornada pessoal, tendo de reencontrar a essência daquilo que fora há tantos anos, essência essa que fora quebrada pelo Homem de Preto, quando este matou todos os outros pistoleiros.

O roteiro, assinado por Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jensen e Nikolaj Arcel, faz um bom trabalho nos introduzindo a essa nova mitologia, sem soar exageradamente didático. Desde cedo entendemos o que está em jogo ali e qual a função de cada personagem. O problema é que o texto se mantém nesse caráter introdutório, somente arranhando a superfície, sem, de fato, se aprofundar em personagens outros que Roland e Jake. Mesmo a construção desses, contudo, se mantém fixa na relação entre os dois, a tal ponto que um personagem parece que não irá existir sem o outro em termos de narrativa.

Em razão disso, apesar do excelente design de produção, que sabe mesclar muito bem o faroeste com elementos pontuais de magia e tecnologia, sentimos como se a trama fosse extremamente artificial, não nos permitindo, plenamente, acreditar nesse universo fantasioso, prejudicando nossa imersão e nos fazendo enxergar o filme como uma mera “sessão da tarde”. Esse não envolvimento nosso com a história logo nos cansa, mesmo considerando a curta duração da obra, de apenas noventa e cinco minutos e, no fim da projeção simplesmente abandonamos a sala de cinema, enxergando essa como uma produção completamente esquecível.

Mesmo as sequências de ação não conseguem nos envolver da maneira que deveriam, visto que contam com uma decupagem pouco dinâmica, que nos situa bem no que está acontecendo, mas não transmite qualquer tensão ou empolgação. Com uma mise-en-scène nada inspirada, os personagens, em geral, permanecem parados em um bangue-bangue simplesmente sem sal, de tal forma que não sentimos o impacto do que está acontecendo em tela. Breves exceções ocorrem quando Arcel opta por uma câmera lenta, geralmente acompanhando alguma façanha do pistoleiro, mas nada que cause verdadeiro espanto no espectador.

Depende tudo, portanto, do trabalho do ótimo Idris Elba, cujo olhar e linguagem corporal perfeitamente dialogam com a essência de seu personagem, um homem calejado, que mata para proteger. Infelizmente o mesmo não pode ser dito de sua contraparte, o Homem de Preto, interpretado por Matthew McConaughey, que mais parece estar em piloto automático do que qualquer outra coisa, cumprindo, por pouco, sua função. Evidente que a superficialidade desse vilão não pode ser considerada culpa do ator, visto que o roteiro não se preocupa nem um pouco em construir sua história. Sim, estamos falando de uma continuação dos livros, mas o filme deveria se sustentar por si próprio, algo que acaba não ocorrendo.

Ao acabarmos, então, de assistir A Torre Negra, somos deixados com uma forte sensação de vazio, como se tivéssemos assistido algo ausente de significado ou emoção, uma obra incapaz de nos envolver mesmo que minimamente, funcionando, no máximo, como entretenimento descompromissado e isso se já não tiver qualquer outra coisa passando nos cinemas. Pouco inspirado, superficial e nada engajante, o filme realmente parece uma refeição sem tempero.

A Torre Negra (The Dark Tower) — EUA, 2017
Direção:
Nikolaj Arcel
Roteiro: Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jensen, Nikolaj Arcel (baseado na série de livros de Stephen King)
Elenco: Idris Elba, Matthew McConaughey, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Ben Gavin, Claudia Kim, Jackie Earle Haley, Fran Kranz, Abbey Lee, Katheryn Winnick, Nicholas Pauling, Michael Barbieri, José Zúñiga, Nicholas Hamilton, Inge Beckmann, Alfredo Narciso
Duração: 95 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.