Crítica | A Torre Negra: A Batalha da Colina de Jericó

estrelas 4,5

– Leiam, aqui, as críticas dos arcos anteriores.

E a primeira grande série em quadrinhos baseada em A Torre Negra chega a seu fim com A Batalha da Colina de Jericó. Diferente dos dois arcos anteriores, Peter David e Robin Furth apresentam uma história cativante, ainda que trágica, que encerra com chave de ouro esse olhar detalhado para o passado de Roland Deschain e seu ka-tet original e o começo de sua busca solitária pela mítica Torre Negra.

Com Gilead destruída, Roland e seus pistoleiros não tem mais base de onde agir e perambulam pelo Mundo Médio minando, dentro do possível, as forças de John Farson, o Homem Bom. A narrativa dá um salto temporal de nove anos, que mostra que essa guerra de guerrilha vem mantendo os dois lados em xeque, mesmo considerando o poderio militar dos seguidores do Rei Rubro que, como o começo do arco demonstra, conta, agora, até com raios laser. O ponto de virada na história é o sequestro da esposa e do filho de Randolph, um dos pistoleiros, por vagos mutantes que o leva a trair seu grupo.

Não é a primeira nem a segunda vez que David e Furth fazem uso da traição como artifício narrativo em seus arcos, mas, aqui, é onde o efeito é mais completamente sentido. Se, antes, o recurso fazia sentido, mas dramaticamente foi mal explorado, em A Batalha da Colina de Jericó ele ganha relevo e funciona como o primeiro dominó sendo derrubado de uma grande fila.

O significado da solidão de Roland ao começo de O Pistoleiro, primeiro livro da série, ganha contornos bem mais pesados e os roteiristas são muito bem sucedidos em deixar evidente o porquê de tanta amargura, rispidez e insensibilidade do pistoleiro que vai atrás do Homem de Preto em um cenário desértico. Mesmo para quem não leu os livros, todos os sinais dessa série em quadrinhos não permitiam outro quadro que não fosse a morte de todos os seus companheiros e é exatamente isso que esse arco final mostra, mas não exatamente da forma que imaginamos, em heroicos combates contra as forças intermináveis de Farson.

O confronto final!

O confronto final!

O combate está lá, sem dúvida, mas ele é muito mais como um último suspiro de uma era que não volta mais ou como a famosa defesa do Álamo no Texas ou até mesmo a heroica batalha nas Termópilas, em que o Rei Leônidas conseguiu segurar Xerxes por alguns dias. Quando chegamos a esse ponto na história, o verdadeiro horror na vida de Roland já acontecera a partir da traição de Randolph e de sua incapacidade de ouvir os avisos tanto de Sheemie quando de seu amigo Alain a respeito. Roland é, mesmo com a quantidade de provações por que passou, ainda inexperiente e idealista, alguém que realmente acha que seu pequeno grupo de sobreviventes (pois são isso que eles são, lá no fundo) poderia oferecer resistência ao dilúvio destruidor representando pelo exército de vagos mutantes e não-homens descartáveis de Farson, além da magia traiçoeira do Homem de Preto.

O roteiro, porém, apesar de dar muita ênfase ao uso de tecnologia antiga por Farson (tanques e o mencionado laser), simplesmente os esquece um pouco mais para frente, tornando o arco um pouco descasado quando olhamos para trás. Pareceu-me, apenas, uma forma que os roteiristas encontraram de estender a narrativa para o tamanho regulamentar de cinco edições, empurrando a resistência final de Roland apenas para o último número, enquanto ela poderia ter recebido um tratamento mais alongado. De toda forma, este é um elemento de menor importância dentro da triste história do fim dos Pistoleiros.

Na arte, Jae Lee está de volta junto com Richard Isanove, que havia ficado sozinho por todo o arco anterior. O encerramento dessa série pelos dois artistas juntos faz total sentido e o trabalho dos dois é o mais sombrio até o momento, realmente marcando fortemente a tragédia que se desenrola. Com um uso farto de splash pages que poderiam ser facilmente enquadradas e penduradas na parede de tão bonitas e melancólicas, a dupla retrata o Mundo Médio em frangalhos e a última resistência dos pistoleiros do baronato de Gilead de maneira triunfal. Um verdadeiro presente aos fãs da série.

Foram 30 edições no total ao longo de pouco mais de três anos em uma máxissérie de respeito que bebe do passado de Roland Deschain em Mago e Vidro (o quarto volume de A Torre Negra) e de diversas menções ao longo de todos os demais livros, em uma obra que complementa magistralmente, apesar de seus soluços, o trabalho original de Stephen King. O Mestre do Horror não poderia ter pedido à Marvel Comics uma equipe mais competente para colocar sua imaginação em forma de HQ e A Batalha da Colina de Jericó é a prova disso.

A Torre Negra: A Batalha da Colina de Jericó (Dark Tower: Battle of Jericho Hill, EUA – 2009/2010)
Conteúdo: A Torre Negra: A Batalha da Colina de Jericó #1 a 5
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Jae Lee, Richard Isanove
Letras: Chris Eliopoulos, Fabrice Sapolsky
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: fevereiro a junho de 2010
Editora no Brasil: Panini Comics (em edições separadas) e Editora Objetiva, selo Suma de Letras (encadernado)
Data de publicação no Brasil: fevereiro a agosto de 2013 (Panini), novembro de 2013 (Objetiva)
Páginas: 128 (encadernado)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.