Crítica | A Torre Negra: A Escolha dos Três – A Dama das Sombras

estrelas 5,0

Para que mexer em time que está ganhando, não é mesmo? Robin Furth e Peter David seguiram o ditado à risca e, exatamente como introduziram Eddie Dean no mundo de Roland Deschain nos arcos O Prisioneiro e Castelo de Cartas, eles, agora, fazem o mesmo com Susannah, em A Dama das Sombras. Assim, no lugar de simplesmente lidar com a chegada dela no Mundo-Médio, começamos a epopeia com seus nascimento em 1938 e testemunhamos sua vida até 1964, quando finalmente ela atravessa a porta interdimensional que batiza o arco em quadrinhos.

E sua história é fascinante.

Se Eddie Dean, com sua ligação com seu irmão, seu envolvimento com drogas e com o tráfico de Nova York já havia gerado uma magnífica história, a de Susannah – na verdade Odetta Holmes – é ainda melhor por funcionar como uma forma de se olhar para o preconceito racial nos EUA ao longo de quase 30 anos e também por lidar com o transtorno dissociativo de identidade, normalmente conhecido como transtorno de múltiplas personalidades, de que sofre a protagonista. Usando eventos traumáticos baseados na crueldade humana ao longo de sua vida, a pacata, delicada e bem educada jovem Odetta vai, aos poucos, desenvolvendo uma versão violenta, dura e mal educada que se chama Detta, o nome de sua boneca, como uma válvula de escape psicológica que a ajuda a sobreviver literal e metaforicamente. Se Odetta não sabe reagir quando alguém a trata mal, Detta toma a frente e não mede esforços para resolver a questão, algo inconsciente no começo, mas que, as poucos, vai efetivamente dividindo a protagonista em duas pessoas muito diferentes, opostas em todos os sentidos.

A fascinante arte de

A fascinante arte de Jonathan Marks.

A narrativa é contada por Susannah em longo flashback enquadrado a partir de um momento chave na vida dela, quando ela é empurrada nos trilhos do metrô, com terríveis consequências físicas para ela. Sempre vivendo uma vida rica em um meio em que negros simplesmente não “podiam” prosperar, o olhar de Susannah/Odetta é quase que de fora para dentro, com eventos externos que acabam formando seu caráter e que, sem ela ter plena consciência, são arquitetados pelo Homem de Preto, assim como foi no caso de Eddie Dean.

O interessante é que Robin Furth, a argumentista, apesar de ter feito uso de todo o material vindo diretamente do livro da saga A Torre Negra em que Odetta é introduzida (A Escolha dos Três), ela tinha menos material do que no caso de Eddie Dean. Isso a obrigou a improvisar, gerando excelentes momentos em que sua vida é mais intrinsecamente entrelaçada com o de Roland Deschain, mesmo considerando que ele somente aparece em carne e osso na última página do último número. Peter David, por sua vez, faz um excelente trabalho na transformação do argumento em roteiro, com um texto fluido e claro que não só costura os eventos do movimento de direitos civis que acontecia nos EUA nessa época, como, também, insere cirurgicamente elementos da mitologia da saga. Quando a história acaba, temos a perfeita percepção sobre quem são Odetta e Detta e uma ideia de quem exatamente pode ser Susannah, a narradora.

Na arte, o time mudou novamente, com Jonathan Marks no lápis e nas cores, com Lee Loughridge também nas cores. O estilo de Marks é espetacular, com quadros pintados, não desenhados, como em uma aquarela que vai literalmente materializando o transtorno psiquiátrico de Odetta em explosões de reações faciais e cores, com diversas pitadas de “viagens lisérgicas” representativas dos pensamentos confusos da jovem. É uma pena que Marks não faça uso de splash pages, pois seria o caso de enquadrar algumas páginas tamanha é sua habilidade em lidar com a questão. Não que as splash pages façam falta, pois não fazem, claro. Sua progressão de quadros, com seus desenhos sangrando de um para o outro e até mesmo saindo da moldura das páginas é belíssimo e consegue ganhar tanto destaque quanto o texto de David ou o argumento de Furth, em mais uma escolha precisa de equipe pela Marvel Comics.

A Dama das Sombras, terceiro arco da terceira maxissérie em quadrinhos baseado em A Torre Negra, de Stephen King, é mais uma pequena obra-prima que consegue superar até mesmo a obra original. Mais um grande acerto da editora em uma saga em quadrinhos sem precedentes.

A Torre Negra: A Escolha dos Três – A Dama das Sombras (The Dark Tower: The Drawing of the Three – The Lady of Shadows, EUA – 2015/16)
Conteúdo: A Torre Negra: A Escolha dos Três – A Dama das Sombras #1 a 5
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Jonathan Marks
Cores: Lee Loughridge, Jonathan Marks
Letras: Joe Sabino
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 2015 a fevereiro de 2016
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 163 (encadernado americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.