Crítica | A Torre Negra: A Escolha dos Três – Castelo de Cartas

estrelas 4

O segundo arco de A Escolha dos Três, por sua vez a terceira maxissérie da Marvel Comics no universo de A Torre Negra, de Stephen King, começa exatamente do ponto onde O Prisioneiro parou, mantendo seu foco exclusivamente em Eddie Dean, ainda que, agora, Roland Deschain integre bem mais a narrativa. É interessante ver que a estrutura anterior do roteiro, que reconstruiu cronologicamente a história da vida de Eddie até seu encontro com o pistoleiro a partir de comentários esparsos ao longo da série de livros, encaixa-se com precisão no que é o efetivo começo do segundo livro do épico, satisfazendo tanto os leitores habituais de King quanto os da longa série de HQs.

A ação, assim, passa a ser mais intensa. Sem história pregressa para contar, Robin Furth e Peter David não perdem tempo em lidar com as consequências do tráfico de drogas de Eddie a mando de Balazar, um chefão do crime de Nova York. Preso no banheiro do avião, com acesso ao Mundo-Médio pela porta interdimensional que se abriu, o jovem viciado e o ferido pistoleiro costuram um plano para lidar com a polícia e com os criminosos não só para libertar Eddie de sua vida passada (e tentar salvar Henry, seu irmão mais velho), como, também, para trazer remédios para Roland que sofre sem dois dedos da mão, um do pé e, principalmente, em razão do envenenamento causado pelas lagostrosidades que o atacaram na praia onde dormia (como visto ao final de O Prisioneiro).

Aos poucos, vemos Eddie trabalhando cada vez mais em sintonia com Roland – depois do primeiro encontro, eles passam a poder se comunicar mentalmente entre mundos -, estabelecendo um ótimo ritmo que força seu amadurecimento e cria uma boa interdependência entre os dois. Além disso, o roteiro consegue criar um eficiente tom de suspense, especialmente na sequência do banheiro do avião e na que determina o destino de Henry. No clímax, que de certa forma lembra o de A Batalha de Tull, o pistoleiro atravessa o portal para Nova York e ele e Eddie, juntos, empunham as pistolas de coronhas de sândalo em um cinematográfico tiroteio.

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É interessante ver como a argumentista e o roteirista empregam mais uma edição inteira para Eddie, o primeiro membro do ka-tet americano de Roland (descontando o Jake Chambers que vimos em O Pistoleiro, claro, pois ele não conta exatamente). Essa escolha é ao mesmo tempo boa e ruim. É boa, pois permite o aprofundamento do personagem e de sua relação com o pistoleiro, algo fundamental para a jornada até a Torre Negra. É ruim, pois esse foco em Eddie pode potencialmente reduzir o tempo empregado para desenvolver Odetta Holmes, a próxima a reunir-se com o protagonista. Mas, considerando que são cinco arcos dedicados à A Escolha dos Três, é possível que os próximos dois seja para Detta, com o terceiro retornando à Jake. Já ficou bastante claro que Furth e David sabem o que estão fazendo.

No quesito arte, o volume ficou novamente ao encargo de Piotr Kowalski no lápis e Nick Filardi nas cores, o que é ótimo para evitar qualquer tipo de solução de continuidade se consideramos O Prisioneiro e Castelo de Cartas como os “arcos de Eddie”. Porém, ainda que o trabalho de Filardi tenha se mantido homogêneo, com a mesma altíssima qualidade, o mesmo não pode ser dito com tanta certeza dos traços de Kowalski.

No arco anterior, vemos Eddie ao longo das décadas e as transições que o desenhista faz na aparência do jovem são excelentes, convencendo-nos de seu crescimento, de que o Eddie que vemos aos dois anos é o mesmo que vemos anos depois, em 1984. Mas, em Castelo de Cartas, não há crescimento físico de Eddie. A história começa e termina em um intervalo de horas. A questão é que Kowalski faz a aparência do personagem oscilar demais entre cada edição, por vezes exagerando nos traços caricatos, quebrando um pouco a imersão do leitor em uma história que tem tom sério e bastante pesado. O problema não chega a estragar a experiência, mas, depois de ler o arco anterior, foi um certo choque ver Eddie mudar tanto quando não deveria ter mudado nada.

Mesmo com uma arte pior, Castelo de Cartas é mais um sólido arco de A Escolha dos Três. Leitura altamente recomendada!

A Torre Negra: A Escolha dos Três – Castelo de Cartas (The Dark Tower: The Drawing of the Three – House of  Cards, EUA – 2015)
Conteúdo: A Torre Negra: A Escolha dos Três – Castelo de Cartas #1 a 5
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Piotr Kowalski
Cores: Nick Filardi
Letras: Joe Sabino
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: maio a setembro de 2015
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 163 (encadernado americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.