Crítica | A Torre Negra: A Escolha dos Três – O Marinheiro

estrelas 4

E a história da formação do ka-tet americano de Roland Deschain, o Pistoleiro, chega ao fim com O Marinheiro, a quinta e última parte de A Escolha dos Três, a terceira maxissérie da Marvel Comics no universo d’A Torre Negra, criado por Stephen King. Mantendo a dupla de argumentista e roteirista já clássica em todas as HQs da série, mas trocando a equipe artística, o derradeiro arco encerra maravilhosamente bem a reunião do protagonista com o viciado em drogas Eddie Dean, a mulher com múltiplas personalidades e sem as pernas Susannah e, agora (e mais uma vez), o menino Jake Chambers.

Como vimos em Remédio Amargo, Roland, ao possuir a mente de Jack Mort, evitou a morte de Jake na Nova York dos anos 70, criando uma nova linha temporal em que ele nunca deixou o garoto morrer no Mundo-Médio para perseguir o Homem de Preto. Mas essa alteração causou um paradoxo espaço-temporal em que os dois, agora, passam a lembrar-se de duas realidades contraditórias, o que lentamente os leva à loucura. A ação, então, é dividida entre os eventos nos dois mundos, com Jake sendo guiado misticamente por Eddie em Nova York e Roland tentando manter todo mundo vivo no Mundo-Médio, considerando a ameaça de Shardik, o urso monstruoso que guarda um dos feixes que mantém em pé a Torre Negra e demônios variados.

Apesar de fazer parte de A Escolha dos Três, a verdade é que grande parte do material utilizado por Robin Furth neste arco final vem de As Terras Devastadas, terceiro livro do épico literário, algo que faz sentido narrativo e que em momento algum “quebra” a história. Muito ao contrário, a absorção desses momentos para dentro de A Escolha dos Três é justificável e até mais lógico do que a divisão que Stephen King faz, pois termina de maneira redonda a reunião do ka-tet quase completo de Roland, faltando apenas o “trapalhão” Oi.

Susannah e Jake nos traços caricaturais de

Susannah e Jake nos traços caricaturais de Juanan Ramírez e Cory Hamscher.

De todos os arcos da maxissérie, este é o que mais conta com momentos efetivos de ação que são bem equilibrados nos dois mundos. Jake tem que lidar com uma miríade de acontecimentos em sua vida, desde seu completo desinteresse pela escola, até a luta contra um demônio em um casa mal-assombrada, passando pela descoberta de uma chave e, principalmente, da rosa que representa a Torre Negra e do livro Charlie Choo-Choo, que funciona como um prelúdio para seu futuro encontro com o mono Blaine. No Mundo-Médio, Roland, Eddie e Susannah têm que encontrar a porta interdimensional por onde Jake passará e fazer todos os arranjos para que isso seja possível.

Sem dúvida alguma, é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e há uma desconexão maior entre o que lemos e o que efetivamente conseguimos entender (partindo da premissa que o leitor não tem conhecimento dos livros seguintes), o que pode causar uma certa angústia. A chave, a rosa e o próprio Blaine parecem ser jogados na narrativa, sem que haja uma fluidez e um compasso mais ritmado a cada nova edição, com muito mais perguntas feitas do que respostas oferecidas. No entanto, há que se entender que é por esse momento que, nos próprios livros que forma a saga, King começa a sedimentar as efetivas bases para os capítulos seguintes e o que parece perdido, aqui, terá sua utilidade mais para a frente, ainda que eu mesmo seja o primeiro a dizer que o autor nunca consegue ser completamente bem-sucedido em sua empreitada. De toda forma, o arco final é, também, uma espécie de começo e, mesmo considerando que a Marvel Comics ainda não anunciou a continuação da adaptação, a premissa que se parte é que estamos no começo de uma longa jornada. Se a editora não continuar o trabalho, muitos leitores que acompanham a história somente pelas HQs sairão muito frustrados da experiência.

A arte – lápis e tinta – ficou ao encargo de Juanan Ramírez e Cory Hamscher cujos estilos são bem diferentes do de Jonathan Marks, responsável pelos dois arcos anteriores. O que antes era uma viagem quase lisérgica, agora ganha um tom quase caricatural, com rostos e corpos alongados e uma dinâmica muito maior nas sequências de ação. O resultado é novamente muito bom se o leitor conseguir se adaptar com a modificação radical nesse quesito. O problema mesmo ficou por conta da forma como Jake Chambers é representado. Ao passo que os demais personagens ganham versões que respeitam todo o trabalho que veio antes, Chambers parece muito mais velho do que ele realmente é, quase da idade de Eddie Dean. E isso causa um bom estranhamento que não se resolve mesmo depois da leitura das cinco edições. O que era para ser uma criança de 10 ou 11 anos, parece um adolescente de 17, criando algumas inconsistências que deveriam ter sido evitadas.

Mesmo com seus problemas, O Marinheiro definitivamente é o encerramento que A Escolha dos Três merecia. Agora que o ka-tet de Roland está (quase)completo, resta torcer para a Marvel Comics continuar a saga em quadrinhos.

A Torre Negra: A Escolha dos Três – O Marinheiro (The Dark Tower: The Drawing of the Three – The Sailor, EUA – 2016/17)
Conteúdo: A Torre Negra: A Escolha dos Três – O Marinheiro #1 a 5
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Juanan Ramírez, Cory Hamscher
Cores: Jesus Aburtov, Federico Blee
Letras: Joe Sabino
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: dezembro de 2016 a abril de 2017
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 121 (encadernado americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.