Crítica | A Torre Negra: A Escolha dos Três – O Prisioneiro

estrelas 5,0

Demorou, mas a Marvel Comics começou a adaptação de A Escolha dos Três, segundo livro da saga A Torre Negra, de Stephen King, mantendo Robin Furth e Peter David nos argumentos e roteiros. Além disso, a editora insistiu em sua aposta na estrutura de cinco arcos interdependentes, cada um composto de cinco edições.

Para aqueles que não são familiarizados com a magnus opus de King, este segundo livro lida fortemente com o conceito de ka-tet que, na mitologia do Mundo-Médio, significa um grupo de pessoas (e não apenas pessoas, pois animais também podem fazer parte) reunidas pelo destino, com um objetivo em comum. Roland Deschain, o último pistoleiro, tinha, em sua juventude, um ka-tet composto por seus amigos de infância, que também se tornaram pistoleiros. Com o fim de uma era na Batalha da Colina de Jericó, Roland passou a vagar por seu mundo sozinho, sempre atrás do traiçoeiro Homem de Preto e A Escolha dos Três conta, essencialmente, como Roland forma seu novo ka-tet, conhecido como o ka-tet americano, essencial em sua busca pela Torre Negra, o nexo interdimensional que mantém em pé a realidade.

Como visto em O Pistoleiro, a segunda maxissérie da Marvel nesse universo, Jake Chambers, um menino vindo magicamente de Nova York, chegou a reunir-se com Roland, somente para que uma tragédia vastamente anunciada efetivamente acontecesse. A história, então, acabou com o herói envelhecido 10 anos e novamente sozinho em uma praia, depois de uma intrigante e quase ininteligível leitura de tarô por seu nêmesis.

E a terceira maxissérie, no lugar de começar de onde parou, faz algo ousado e que poderia afastar os leitores menos familiarizados com o épico, mas que funciona maravilhosamente bem: ela começa a contar uma história que um olhar perfunctório e menos engajado poderia levar à conclusão que não tem relação alguma com a jornada de Roland. Assim, somos apresentados ao garoto Eddie Dean, com dois anos de idade, em 1964, em Nova York.

Eddie e Henry, irmãos sempre unidos. Ou não...

Eddie e Henry, irmãos sempre unidos. Ou não…

Mas quem é, afinal de contas, Eddie Dean e porque raios é importante conhecer sua história pregressa? Ainda que alguns elementos sobrenaturais sangrem pela história, com a vida de Eddie sempre ameaçada por um ser misterioso que contrata capangas primeiro para matá-lo e, depois, para mantê-lo sob constante observação, o que chama atenção mesmo é o desenvolvimento, de 1964 a 1984, do novo personagem, que inclusive narra a história. Eddie é o irmão mais novo de três, idolatrando seu irmão mais velho Henry que o protege. A cada progressão temporal, a relação entre os dois é aprofundada e percebemos como a personalidade de Henry e tudo o que ele faz influencia na formação de Eddie, culminando com os dois enveredando pelo terrível caminho das drogas.

O leitor fica permanentemente ciente que há algo sinistro por trás de tudo, quase que movimentando as peças de um complexo tabuleiro. Além disso, a narração de um Eddie mais velho deixa claro que ele, em algum momento, se encontrará com Roland Deschain, mas Robin Furth e Peter David não tornam fácil a ligação entre o ponto A e o ponto B, realmente investindo na mitologia novayorkina dos dois irmãos em ordem cronológica, o que acaba deixando o encontro entre Eddie e Roland somente para a última edição do arco e, mesmo assim, por apenas uma ou duas páginas, mas de forma circular em relação ao que vemos na última página de O Homem de Preto.

Essa coragem narrativa gera dividendos, pois mantém o leitor que ultrapassar a estranheza inicial completamente grudado nas páginas da história, matutando sobre como uma coisa será ligada com a outra. A resposta – as portas interdimensionais – estabelece um dos pilares da obra de King e que passa a ser lugar-comum nos arcos seguintes. Mas a coragem narrativa vai além, pois, ainda que haja um momento trágico inicial, em termos de ação clássica, O Prisioneiro quase não tem nada. O foco é muito mais no drama de dois irmãos crescendo junto em um submundo de Nova York do que em pancadaria desenfreada. E, novamente, Furth e David colhem frutos, pois, quando Eddie e Roland finalmente se encontram, tudo estranhamente faz sentido, como se fosse algo óbvio desde o começo.

Pela primeira vez ao longo da publicação das HQs da série, Richard Isanove não faz parte do time artístico. Em O Prisioneiro, o lápis ficou ao encargo de Piotr Kowalski e as cores por Nick Filardi. O resultado dessa mudança completa na arte é bem diferente dos trabalhos anteriores, que mantinham uma certa uniformidade em razão das cores de Isanove. No entanto, assim como a escolha narrativa do roteiro, a troca da dupla artística faz completo sentido e funciona. Afinal, o arco é essencialmente urbano e os traços de Kowalski deixam transparecer a sujeira da cidade, mantendo, por outro lado, a inocência de Eddie e Henry e desconstruindo-a na medida em que os anos passam. O artista, apesar de não fazer muito uso de spreads ou páginas de um quadro só, quando o faz, entrega ao cirúrgico, normalmente para eficientemente chocar o leitor. Nas cores, Filardi sabe usá-las para lidar com emoções, mesmo tendo a tendência de manter tons claros ao longo de toda a história, o que acaba funcionando para reiterar as boas intenções iniciais dos irmãos.

O primeiro arco de A Escolha dos Três é uma surpresa. Uma excelente surpresa. A construção do ka-tet americano de Roland não poderia ter começado de maneira mais eficiente e dramática, com uma história que prende a atenção de quem souber ultrapassar a estranheza inicial, embarcando na engenhosidade do argumento e roteiro de Furth e David.

A Torre Negra: A Escolha dos Três – O Prisioneiro (The Dark Tower: The Drawing of the Three – The Prisoner, EUA – 2014/15)
Conteúdo: A Torre Negra: A Escolha dos Três – O Prisioneiro #1 a 5
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Piotr Kowalski
Cores: Nick Filardi
Letras: Joe Sabino
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro de 2014 a fevereiro de 2015
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 154 (encadernado americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.