Crítica | A Torre Negra: A Escolha dos Três – Remédio Amargo

estrelas 5,0

Como aconteceu com a “origem de Eddie Dean”, a equipe criativa responsável pela introdução de Odetta Holmes e de sua “versão má” Detta Walker na adaptação em quadrinhos da saga literária A Torre Negra foi mantida, o que torna o arco anterior – A Dama das Sombras – e este, Remédio Amargo, praticamente uma coisa só.  A diferença é que, aqui, Roland e Eddie têm um papel mais relevante do que Roland tivera no segundo arco de Eddie, o que de forma alguma retira o brilho do trabalho de Robin Furth no argumento e Peter David no roteiro, além de Jonathan Marks no lápis e tinta e Lee Loughridge nas cores.

Recontando os momentos finais de A Dama das Sombras, mas pelo ponto de vista de Roland e Eddie, descobrimos que a chegada de Odetta/Detta no Mundo-Médio foi arquitetada pelo pistoleiro, que entrara na confusa mente da perigosa mulher no momento em que ela está na loja de departamentos furtando artigos por divertimento. Quando ela atravessa a porta interdimensional, com cadeira de rodas e tudo mais, é Detta que está no comando e ela se torna a pior inimiga possível para o nascente ka-tet americano de Roland. Desbocada e violenta ao extremo, ela torna a vida dos dois um inferno total, exigindo constante vigilância e cuidado, com o agravante do pistoleiro estar ainda doente em razão do envenenamento pelas lagostrosidades ainda ao final de O Prisioneiro.

É claro que essa raiva (medo, na verdade) que Detta tem de Roland foi algo plantado lá atrás, no arco anterior, pelo Homem de Preto, caso ele não conseguisse eliminá-la antes. Assim, é muito interessante o embate psicológico de Odetta contra Detta tanto no interior de sua mente quanto no pouco tempo que Odetta se torna dominante. Além disso, Roland tem um papel determinante aí, com sua habilidade, por intermédio da porta interdimensional, de entrar na mente de Odetta e entender pelo menos em linhas gerais o que se passa lá dentro, de forma a poder tomar providências de acordo.

A belíssima arte de Jonathan Marks e Lee Loughridge.

A belíssima arte de Jonathan Marks e Lee Loughridge.

Essa questão mental ganha vida de verdade graças à arte de Jonathan Marks, com traços e finalizações que lembram quadros surreais, mas que nunca confundem ou desnorteiam o leitor. Ele materializa o conceito do “duplo” maravilhosamente bem com imagens espelhadas e alterações dramáticas na fisionomia de Odetta/Detta, sendo mais solto aqui do que no arco anterior, o que combina perfeitamente com os conflitos que se estabelecem. E o mesmo vale para as belíssimas cores em guache de Lee Loughridge que derramam nas páginas belíssimas explosões de lilás, amarelo e outras cores representativas do estado de espírito e do ambiente em que estão os personagens.

Mas o roteiro vai além do drama envolvendo Odetta/Detta, ainda que esse seja o foco do arco. Puxando também elementos de As Terras Devastadas, o terceiro livro da saga de Stephen King, Furth e David lidam também com Jake Chambers, o mesmo que Roland deixou morrer tragicamente em O Homem de Preto. Aqui, vemos a tentativa de Roland de achar remédios e de “consertar” Odetta/Detta entrando na mente de Jack Mort, o homem diretamente responsável pela perda de suas pernas (e da criação da personalidade dividida), sendo usado como veículo para o roteiro alterar a linha temporal de Jake, evitando sua morte em Nova York nos anos 70, abrindo as portas para que ele volte ao ka-tet em O Marinheiro, o arco seguinte.

Remédio Amargo é mais uma aula de adaptação. Um trabalho magnífico de toda a equipe que consegue eleva a qualidade da história sendo contada a vários patamares acima da própria obra original de Stephen King. É uma das poucas situações em que eu afirmaria, sem medo de errar, que ler apenas as HQs é mais producente do que enfronhar-se nos longos e às vezes confusos – e chatos (mas deixa eu falar baixo para nenhum fã querer me matar) livros do Mestre do Horror em sua auto-proclamada obra-prima.

A Torre Negra: A Escolha dos Três – Remédio Amargo (The Dark Tower: The Drawing of the Three – Bitter Medicine, EUA – 2016)
Conteúdo: A Torre Negra: A Escolha dos Três – Remédio Amargo #1 a 5
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Jonathan Marks
Cores: Lee Loughridge
Letras: Joe Sabino
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: junho a outubro de 2016
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 163 (encadernado americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.