Crítica | A Torre Negra: A Queda de Gilead

estrelas 3

A série em quadrinhos A Torre Negra é baseada na obra de mesmo nome em sete volumes do mago do terror Stephen King. Os dois primeiros arcos da história, Nasce o Pistoleiro e O Longo Caminho para Casa são excelentes, quase irretocáveis na capacidade de síntese de Peter David e Robin Furth e pela assombrosa arte de Jae Lee e Richard Isanove. O primeiro adapta parte do quarto livro da série, Mago e Vidro, focando no passado de Roland Deschain no Mundo-Médio, como ele se tornou o pistoleiro mais novo de Gilead e como, junto com seu ka-tet original, Alain Johns e Cuthbert Allgood, eles enfrentaram os Caçadores do Grande Caixão em Hambry e como a tragédia se abateu sobre a vida de Roland, roubando-o de seu grande amor, Susan Delgado. O segundo volume é uma continuação direta do primeiro, mas trazendo material completamente inédito e não escrito por Stephen King, graças a um trabalho dedicado de Robin Furth, sob a aprovação direta de King e transformado em roteiro por Peter David.

O primeiro momento de falha é o terceiro volume – Traição – em que vemos a introdução de Aileen Ritter e uma série de acontecimentos de larga escala que não são tão bem trabalhados, mas que desaguam naturalmente em A Queda de Gilead, o quarto e penúltimo volume dessa primeira grande série de “origem do pistoleiro” e cujo nome é auto-explicativo. David e Furth chegam ao fim de uma era, com a inevitável destruição de Gilead, conforme King deixa entrever, mas sem nunca explorar de verdade, em sua heptalogia literária.

No entanto, diferentemente dos arcos anteriores, este foi precedido por um one-shot batizado, simplesmente, de O Feiticeiro, que tem como objetivo fazer a ponte entre o terceiro e quarto arcos. Mais do que isso, a HQ, escrita exclusivamente por Furth, troca o ponto-de-vista narrativo, pela primeira vez, para o vilão Marten Broadclock, conselheiro pessoal de Steven Deschain, amante de Gabrielle Deschain que a usa para matar o marido e pai de Roland. Conhecido também como Randall Flagg e, mais comumente como o Homem de Preto, o feiticeiro é uma das figuras mais traiçoeiras da série de livros de King e que somente nos quadrinhos ganha todo o grau de ameaça prometida.

No one-shot, aprendemos detalhes sobre suas verdadeiras motivações. Apesar de externamente ele estar em linha com os planos do Rei Rubro, a grande verdade é que o mago tem sua própria e sinistra agenda e todo seu envolvimento nesse longo processo de destruição da Mundo Médio e dos pistoleiros não é nada mais do que os degraus da escada que ele deseja galgar para ele mesmo. Trata-se de uma história com pouca ação, mas muitos esclarecimentos motivacionais que, de certa forma, reduzem o misticismo dessa figura e o equaliza a sentimentos humanos a que somos todos sujeitos. De toda forma, considerando que Marten é peça importante nos quadrinhos – arrisco dizer que bem mais importante do que ele é nos livros – e que ele já havia sido muito explorado nas maquinações que levam à queda de Gilead, o descortinamento de suas intenções faz completo sentido aqui. É interessante notar que essa HQ marca a primeira vez que Robin Furth, sozinha, escreve um roteiro da série, além de ser a primeira edição sem Jae Lee nos lápis, com toda a arte cabendo a Richard Isanove, responsável primordialmente pela arte-final e cores dos volumes anteriores. Ele se esforça em manter o espírito do estilo de Lee, mas sem deixar de imprimir sua maneira de desenhar, um pouco menos misteriosa que a de seu colega, mas que funciona muito bem aqui.

Apesar da ausência de Lee, Isanove não faz feio sozinho!

Apesar da ausência de Lee, Isanove não faz feio sozinho!

A história principal, assim, começa exatamente onde acaba o volume anterior, que tem um final chocante (pelo menos para quem não leu os livros de King, claro). Pegando esse gancho, as várias traições que começaram em… bem, Traição, continuam ativamente, inexoravelmente devorando Gilead por dentro. Pelos quatro primeiros números, Peter David e Robin Furth mantém um ritmo excelente, com uma história instigante que faz bom uso de todos os eventos anteriores em uma espiral inexorável de destruição e morte. Durante esse tempo, o roteiro prepara o grande ataque final de John Farson – ostensivamente o final boss na história, ainda que ele não o seja efetivamente -, construindo lentamente o fim de uma era para os Pistoleiros de Nova Canaã.

No entanto, nos dois últimos números, que relatam o efetivo ataque de Farson à Gilead, David erra no passo, apressando extremamente a ação, sem uma passagem de tempo coerente, o que acaba retirando a importância dos eventos. O pior de tudo é que Roland, o pistoleiro e personagem principal da saga de King, nada faz. Ele apenas solta algumas frases bonitas, mas não demonstra nenhum traço da liderança que esperamos dele, considerando o que acontece mais para frente nos livros. Claro, ele é apenas um jovem Pistoleiro aqui, mas tudo o que ele já passou – notadamente os eventos que levaram à morte de Susan Delgado, mas sem esquecer da morte de seus pais e de toda a destruição que testemunhou – exigia algo mais do personagem nesse que pode ser chamado o clímax dessa primeira fase dos quadrinhos da série.

Realmente não entendi a escolha de enfraquecer a personalidade de Roland. Também não entendi o subaproveitamento da personagem Aileen Ritter, introduzida no volume anterior como a única Pistoleira mulher. Em A Queda de Gilead, ela ganha apenas um momento previsivelmente interessante e nada mais. Uma grande desperdício que acaba demonstrando uma certa inabilidade da dupla de roteiristas em caminhar para a conclusão de sua história.

Faltou, nesse volume, ou uma saudável economia de páginas no terço inicial ou pelo menos mais um número, de maneira que fosse possível desenvolver em mais detalhes a batalha climática, evitando que ela parecesse levar 15 minutos e sem deixar transparecer que os pistoleiros sobreviventes pouco se importam com o resultado. Se os cinco primeiros números (contando, aqui, com O Feiticeiro) não fossem bem estruturados em seu mini-arco, mostrando a queda dos regentes de Gilead, o volume seria uma perda de tempo.

Assim como no one-shot, vale lembrar que, em A Queda de Gilead, pela primeira vez desde o início desse projeto de adaptação de A Torre Negra, Jae Lee não participou da arte, deixando-a exclusivamente com Richard Isanove. Isso acabou retirando um pouco da dramaticidade dos desenhos dos volumes anteriores. Não é nada que realmente atrapalhe, mas, estando acostumando com o trabalho bem azeitado da dupla de artistas, a ausência de Jae Lee é realmente palpável, causando estranhamento pelas primeiras páginas ao menos.

A Queda de Gilead simplesmente precisava ser mais do que foi. Afinal, ela representa o fim do mundo como Roland o conhecia e o começo efetivo de sua jornada atrás da Torre Negra, mesmo considerando que ele ainda enfrentaria os vilões mais uma vez ao lado de seus amigos sobreviventes na Colina de Jericó.

*Crítica publicada pela primeira vez em 2009 fora do Plano Crítico. Revisada e publicada no site originalmente em 31 de dezembro de 2014.

A Torre Negra: A Queda de Gilead (Dark Tower: The Fall of Gilead, EUA – 2009/2010)
Conteúdo: O Feiticeiro #1 e A Torre Negra: A Queda de Gilead #1 a 6
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Richard Isanove
Letras: Chris Eliopoulos
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: junho de 2009 (O Feiticeiro), julho de 2009 a janeiro de 2010 (A Queda de Gilead)
Editora no Brasil: Panini Comics (em edições separadas) e Editora Objetiva, selo Suma de Letras (encadernado)
Data de publicação no Brasil: janeiro de 2012 (O Feiticeiro – Panini), fevereiro a agosto de 2012 (A Queda de Gilead – Panini), novembro de 2012 (encadernado – Objetiva)
Páginas: 192 (encadernado)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.