Crítica | A Torre Negra: O Longo Caminho para Casa

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estrelas 5,0

O sucesso dos primeiros números de Nasce o Pistoleiro fez com que a Marvel, mesmo antes de encerrado o primeiro arco, anunciasse que a continuação sairia em breve. E, de fato, o lançamento de O Longo Caminho para Casa não demorou nada, considerando que a primeira série acabou em agosto de 2007 e a segunda, composta por cinco edições, começou em março de 2008.

Além disso, essa segunda série já demonstra maior segurança por parte da editora. Tendo iniciado seu projeto de adaptação de A Torre Negra, obra máxima (palavras dele mesmo) de Stephen King, com o que é reconhecidamente o melhor livro da “heptalogia” – Mago e Vidro – ou seja, da maneira mais segura possível, a Marvel Comics escancarou as portas da criatividade e partiu para criar conteúdo completamente inédito, baseado apenas em pequenos comentários de leve sobre o passado de Roland Deschain, o pistoleiro, em sua terra natal, Gilead. Com isso, O Longo Caminho para Casa marca a primeira vez que o Mundo Médio recebeu tratamento de outro autor que não o próprio King, ainda que, claro, muito provavelmente conforme o contrato de licença, ele tenha tido o direito de aprovação final do roteiro.

Mas o risco da Marvel em trabalhar material novo foi apenas relativo, pois a decisão foi simplesmente a de continuar a história de Mago e Vidro que foi o objeto de Nasce o Pistoleiro. Com isso, a forte ambientação de western continua, além do tom de “origem” do pistoleiro como o conheceríamos em O Pistoleiro, o primeiro livro da série. Além disso, e principalmente, a expectativa daqueles que abraçaram A Torre Negra em quadrinhos seria mantida, com uma continuação direta e não a abordagem de algum outro livro de King. Àqueles que adoravam e adoram a série, resta o conceito de Universo Expandido que é comum em Star Wars e Star Trek, mantendo-se dentro do cânone dos livros, mas acrescentando novos acontecimentos. Vitória para todos.

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A espetacular arte de Lee e Isanove.

E, de fato, O Longo Caminho para Casa começa exatamente de onde a primeira minissérie acaba e mostra a volta dos pistoleiros – Roland Deschain e seus melhores amigos Alains Johns e Cuthbert Allgood – à Gilead, sua cidade natal, fugindo dos Caçadores do Grande Caixão, grupo de vilões liderado por Clay Reynolds, depois da tragédia em Hambry. Interessantemente, porém, a narrativa é separada entre os eventos que acontecem no dia-a-dia em relação a Johns e Cuthbert e os que acontecem somente em relação a Roland, já que ele foi enfeitiçado pela bola de cristal rosa que recuperaram na cidade de Susan Delgado e que viria a ressurgir nos livros de King bem mais para a frente (a explicação detalhada dos acontecimentos deixarei para que os leitores descubram conferindo a história).

Essa minissérie é carregada de referências futuras da série de livros: vemos Dogan, o Rei Rubro, os poderes de Sheemie, Rolando adulto, Marten Broadcloak, a relação entre Roland e o Rei Rubro e mais um sem-número de elementos. Mas o peculiar é que, apesar disso tudo, Robin Furth (especialista na mitologia da série e coordenadora da adaptação) e Peter David (o roteirista) não se perdem e não deixam o leitor que por acaso não conheça os livros se perderem. É algo raro, na verdade, pois, embriagados pelo sucesso da primeira minissérie, teria sido fácil deixar-se levar pelo peso da mitologia criada por Stephen King e carregar nas metafóricas cores dessa fonte inesgotável de criatividade, resultando em algo hermético, que impedisse novos leitores de se aproximar. Mas não. O Longo Caminho para Casa não só é bem sucedido em se manter simples o suficiente para leitores “virgens” como traz situações profundas o suficiente para os mais experientes. Um perfeito equilíbrio que ainda tem a vantagem sobre Nasce o Pistoleiro de ser menos presa à continuidade, já que é material substancialmente inédito.

No lado da arte, novamente Jae Lee e Richard Isanove repetem seu triunfo visual, impedindo qualquer solução de continuidade. Os traços esguios – que, concordo, exigem costume para serem completamente apreciados – e os rostos com olhos sombreados conseguem, quase que magicamente, reunir as características místicas e de faroeste da minissérie. Cada personagem novo é trabalhado de modo que ele seja exatamente aquilo que esperamos quando lemos o livro – para quem leu o livro, claro – sem que se perca o frescor autoral que os dois trazem para a HQ. Os spreads são ricos, fortes e a narrativa, carregada de informação, nunca é confusa e nunca carrega demais as páginas, graças a uma distribuição cirúrgica pelos dois.

A Torre Negra: O Longo Caminho para Casa é mais um grande acerto da Marvel Comics e de sua equipe criativa no Mundo-Médio. Diversão e fascinação garantidas!

*Crítica publicada pela primeira vez em 2009 fora do Plano Crítico. Revisada e publicada no site originalmente em 29 de dezembro de 2014.

A Torre Negra: O Longo Caminho para Casa (Dark Tower: The Long Road Home, EUA – 2008)
Contendo: A Torre Negra: O Longo Caminho para Casa #1 a 5
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Jae Lee, Richard Isanove
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março a julho de 2008
Editora no Brasil: Panini Comics (em edições separadas) e Editora Objetiva (encadernado)
Data de publicação no Brasil: fevereiro, junho, novembro e dezembro de 2009 e junho de 2010 (edições separadas da Panini), maio de 2011 (encadernado da Objetiva)
Páginas: 136 (encadernado brasileiro)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.