Crítica | A Torre Negra: O Pistoleiro – O Homem de Preto

estrelas 4,5

E, finalmente, Peter David e Robin Furth chegam ao final da adaptação do primeiro livro da saga d’A Torre Negra, de Stephen King, em um esforço que contou com a ajuda da belíssima arte de ninguém menos do que Alex Maleev, além das costumeiras cores de Richard Isanove. Melhor ainda do que isso, o último arco da maxissérie O Pistoleiro, segunda do projeto da Marvel Comics neste universo, os roteiristas mexeram mais profundamente na história, utilizando-se de elementos novos, mas sem deturpar o propósito e os eventos da obra original.

Sem muito material restante com ação para adaptar, Furth, responsável pela pesquisa e pela criação do argumento, torna a jornada de Roland e Jake mais complexa aqui. No lugar dos dois sempre viajarem juntos como no livro, ela os separa no começo, amplificando a sensação de receio do menino sobre a possibilidade de ele vir a morrer mais uma vez, agora pelas mãos de Roland, como uma espécie de preço a ser pago pelo caminho da Torre Negra que ele tão obsessivamente persegue. E ela vai ainda além, usando esse momento de solidão de Jake para lidar com visões sobre o passado dessa terra estranha onde foi parar, com direito até mesmo a um atentado terrorista que pode ter sido ou não um sonho.

Da mesma forma, quando eles finalmente se reúnem, o leitor ganha uma dimensão extra na relação entre eles, pois a separação funciona para aproximá-los ainda mais, criando uma relação mais forte de interdependência. A partir do reencontro, os dois seguem por dias por túneis de um metrô abandonado há milênios, enfrentam vagos mutantes e chegam até um terminal de trem, onde as dúvidas de Jake sobre seu futuro novamente afloram ante que eles finalmente consigam sair desse pesadelo subterrâneo.

O roteiro de Peter David é esperto ao transformar o argumento de Furth em diálogos e narração, sempre mantendo a dúvida na mente de Jake, Roland e especialmente do leitor sobre o destino do garoto, que é, sem dúvida alguma, o grande artifício narrativo da minissérie. Se há uma coisa que o último pistoleiro do Mundo Médio deixa de ser a partir dos eventos na Colina de Jericó é um herói propriamente dito. Talvez até antes disso, quando da horrível morte do único amor de sua vida há muito tempo atrás. Portanto, é muito bem ver que os roteiristas não tentaram se esquivar de mostrá-lo exatamente dessa maneira: frio, obcecado, capaz de fazer qualquer coisa por seu objetivo final, mesmo que ele não tenha certeza do que fazer quando lá chegar. Aqui, mas do que nos demais arcos, Roland é esse anti-herói sisudo lembrando muito não o Clint Eastwood heroico da Trilogia dos Dólares, mas sim o amargo de Os Imperdoáveis, o que faz uma diferença enorme e quebra paradigmas.

Olhem só o belíssimo trabalho de Alex Maleev!

Olhem só o belíssimo trabalho de Alex Maleev!

O problema do arco é algo que não é exatamente culpa de David ou Furth, mas sim do livro de King. E ele vem do clímax, que acontece cedo demais na história, seguido de um longo dénouement composto exclusivamente de textos expositivos, mas crípticos, durante uma leitura de cartas de tarô pelo Homem de Preto para Roland. Mesmo para quem já leu os livros e sabe o que o futuro reserva para o protagonista, as palavras de Walter O’Dim são estranhas, metafóricas demais, viajantes de verdade. Há muito “não sei” de uma parte e de outra que chega a ser frustrante e esse texto em particular não foi amenizado na adaptação, mantendo-se razoavelmente fiel e, portanto, significativamente frustrante. É como se o grande evento algumas páginas antes tivesse sido esquecido completamente por Roland que, finalmente chegando ao seu grande inimigo, senta para conversar civilizadamente com ele e nem tenta sacar suas pistolas (ele saca, mas vocês entenderam o que quis, dizer, não?).

No entanto, talvez tenha sido inevitável. Esse momento, no livro, é icônico e estabelece as bases para A Escolha dos Três, volume posterior já adaptado em quadrinhos e, também, para tudo o que vem em seguida.

A arte, como mencionei acima, ficou com o sempre magnífico Alex Maleev, que usa seus traços estilizados que mantém os “riscos” em evidência para emprestar um caráter dúbio a Rolando, algo ainda mais essencial nesse arco. O rosto de Roland ganha contornos mais pesados, mais rudes, assim como o do Homem de Preto, com Jake sendo corretamente suavizado em razão de sua inocência. As criaturas – os vagos mutantes – também merecem destaque pela forma verdadeira horrenda, reptiliana como são retratados e não como monstros retirados de um filme sci-fi como em alguns arcos anteriores. O trabalho de cores de Richard Isanove é o mais diferente até agora, algo certamente combinado com Maleev para manter seu estilo peculiar intacto, com menos interferência da bela aquarela sombria do colorista. O resultado é, sem sombra de dúvidas, a melhor arte desta segunda maxissérie.

O Homem de Preto marca o fim do começo das aventuras solitárias de Roland Deschain. O leitor é deixado em suspenso exatamente como King deixou seus leitores em suspenso em 1981, quando o último capítulo de O Pistoleiro foi publicado. Em outras palavras, Robin Furth e Peter David cumpriram honrosamente sua difícil tarefa!

A Torre Negra: O Pistoleiro – O Homem de Preto (The Dark Tower: The Gunslinger – The Man in Black, EUA – 2012)
Conteúdo: A Torre Negra: O Pistoleiro – O Homem de Preto #1 a 5
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Alex Maleev
Cores: Richard Isanove
Letras: Joe Sabino
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: junho a dezembro de 2012
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 129 (encadernado americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.