Crítica | A Torre Negra: O Pistoleiro – O Posto de Parada

estrelas 4,5

Peter David e Robin Furth continuam tirando leite de pedra na adaptação de O Pistoleiro, primeiro livro da saga de Roland Deschain atrás do Homem de Preto e da Torre Negra. O quarto arco da série e segundo a efetivamente abordar o livro, marca um grande momento na mitologia do herói: seu primeiro encontro com o jovem Jake Chambers.

A tragédia marca a vida do Pistoleiro e isso não poderia ter ficado mais evidente do que no explosivo final de A Batalha de Tull. Roland está, agora, completamente sozinho, mas, em uma decisão estranha, mas que ao mesmo tempo faz todo sentido, Furth decidiu começar a narrativa sobre o Posto de Parada onde o herói encontraria o garoto na casa de Brown, o morador do deserto de Mohaine que abriga Roland. A decisão é estranha, pois ela já havia usado esse artifício em  A Jornada Começa, mas faz todo sentido, pois ela sabiamente brinca com a natureza cíclica do épico de Stephen King e cria quase que um déjà vu, fazendo com que o pistoleiro acorde na cabana de Brown e, aturdido, comece a contar a história a partir da última cena do arco anterior.

Como é a marca desse primeiro livro de King, pouca coisa acontece de verdade. Tudo é preparação para o que está por vir e há um foco muito grande em diálogos razoavelmente expositivos que estabelecem as premissas da saga. A obra original foi publicada entre 1978 e 1981, na forma de cinco histórias – ou capítulos – interconectados e Peter David usa isso nos quadrinhos. Em A Batalha de Tull, ele aborda unicamente o primeiro capítulo, intitulado simplesmente O Pistoleiro. Em O Posto de Parada, dois capítulos são adaptados: o homônimo e O Oráculo e as Montanhas. O resultado é mais uma versão bem azeitada entre adaptação direta e inserção de elementos extras do passado de Roland, especialmente aqueles objeto de Nasce o Pistoleiro.

Roland, Jake e o súcubo.

Roland, Jake e o súcubo.

Isso fica muito claro na primeira edição do arco que lida, substancialmente, com o pistoleiro lutando para encontrar água no deserto. A inexistência de ação é substituída por flashes para o passado e por uma progressão natural que flui naturalmente da história, mesmo que, no livro, King simplesmente comece já dias depois do massacre em Tull. Jake Chambers só entra mesmo na história a partir da última página do primeiro número e, a partir daí, a interação entre os dois é a chave do sucesso do arco. No lugar de ligar o automático e pecar pelo didatismo, Furth e David criam uma interessante relação de interdependência quase imediata entre os dois, com bons diálogos que estabelecem uma confiança hesitante entre eles. Roland sabe que qualquer pessoa que se aproxima dele acaba morrendo e Jake percebe isso naturalmente, na medida em que os dias progridem.

O único momento em que o texto ganha inevitável caráter expositivo é quando o pistoleiro se encontra com um súcubo (o oráculo do terceiro capítulo do livro) e, como parte de uma demoníaca barganha, recebe uma profecia que estabelece seu futuro ka-tet (grupo de pessoas ligadas por um destino), mesmo que ele ainda não saiba. O grande acerto do roteiro é justamente abordar somente esse aspecto e não a história pregressa de Roland que os leitores dos quadrinhos obviamente já conhecem. A mudança no conteúdo do encontro de Roland com a figura fantasmagórica estabelece, então a ponte para a maxissérie seguinte, A Escolha dos Três, o segundo livro da série, mesmo considerando que o arco final de O Pistoleiro ainda está por vir.

O artista da vez é Laurence Campbell, que retrata Roland de maneira a manter, quase como uma constante, as sombras em seu rosto, raramente revelando o pistoleiro em detalhes. Com isso, ele não só mantém o mistério sobre o protagonista, como permite uma alteração de foco para Jake, que ganha relevo pelo inusitado de sua presença no Mundo Médio graças ao Homem de Preto. Mesmo sem ação, os traços sombrios de Campbell e sua cadência narrativa tornam a leitura fácil e prazerosa, com um crescendo que inevitavelmente levará à tragédia. Mais uma vez, as cores de Richard Isanove terminam de estabelecer o tom do arco e de torná-lo fungível em relação a tudo o que veio antes.

O Posto de Parada é mais um ótimo trabalho de adaptação de O Pistoleiro, que mostra cuidado e respeito à obra original, ao mesmo tempo que um saudável grau de liberdade para tornar a leitura fluida e irresistível.

A Torre Negra: O Pistoleiro – O Posto de Parada (The Dark Tower: The Gunslinger – The Way Station, EUA – 2012)
Conteúdo: A Torre Negra: O Pistoleiro – O Posto de Parada #1 a 5
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Laurence Campbell
Cores: Richard Isanove
Letras: Joe Sabino
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: fevereiro a junho de 2012
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 120 (encadernado americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.