Crítica | A Torre Negra (Série Literária Completa)

dark tower torre negra

estrelas 3

Obs 1: Há spoilers

Obs 2: A crítica que segue engloba, “apenas”, os sete livros que formam o coração da série e não o conto As Irmãzinhas de Eluria, que precede o primeiro livro e foi publicado em 1998 e o 8º livro, O Vento Pela Fechadura, de 2012, que se passa entre os 4º e 5º livros da série.

Obs 3: A avaliação acima (em estrelas) é para o conjunto da obra.

Stephen King é completamente insano. O autor americano, então já famoso por obras seminais de horror como Carrie – A Estranha e O Iluminado, embarcou em um projeto épico em sete volumes sobre um pistoleiro. O primeiro – e menor – volume foi lançado em cinco capítulos sob pseudônimo, começando em 1978 e acabando em 1981. No ano seguinte, o volume completo, batizado simplesmente de O Pistoleiro foi lançado. O volume dois, A Escolha dos Três, foi lançado em 1987 e o terceiro volume, As Terras Devastadas, em 1991.

Nesse ponto, King já havia se estabelecido como um prolífico escritor e sua obra-prima (como ele mesmo a denomina) ganhou um séquito de fãs. O quarto volume, Mago e Vidro, porém, só ficou pronto em 1997.

E, então, novamente, silêncio profundo. Parecia que King não queria mais escrever os últimos três volumes, para desespero dos fãs.

No entanto, o problema acabou entre 2003 e 2004, quando Stephen King finalmente fechou sua saga, lançando quase que simultaneamente os volumes cinco, seis e sete. São eles, respectivamente: Lobos de Calla, A Canção de Susannah e, finalmente, A Torre Negra. O épico, que ainda conta com um conto-prelúdio separado e um oitavo livro que se passa cronologicamente entre o quarto e o quinto (lançado em 2012), estava, finalmente, completa.

Para quem não sabe, a fagulha da ideia de Stephen King para a história veio do poema Childe Roland à Torre Negra Chegou, do século XIX, escrito por Robert Browning. Categorizar sua obra como de apenas um gênero é difícil, pois King consegue misturar bem facilmente faroeste, ficção científica e fantasia em algo nem de longe tão detalhado, mas certamente inspirado pelo universo de O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien (afinal, não é sem querer que grande parte da história se passa em uma terra conhecida por Mundo Médio). Há universos paralelos, monstros, seres superpoderosos, possessões demoníacas e, claro, um cowboy, uma espécie de estereótipo do gênero fortemente galgado no Homem Sem Nome da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone.

A história pode ser brevemente resumida da seguinte forma: Roland Deschain é um pistoleiro solitário que atravessa um mundo pós-apocalíptico com o objetivo de alcançar o centro do multiverso, representado pela mítica Torre Negra. Durante sua busca, Roland junta-se a um garoto chamado Jake Chambers, um viciado em drogas chamado Eddie Dean e uma negra sem as duas pernas e com distúrbios de personalidade que acaba sendo batizada de Susannah, todos de New York, a mesma que conhecemos só que de épocas diferentes. Juntos, eles formam um ka-tet, uma espécie de grupo ligados por um só destino e passam por diversos perigos ao longo da interminável jornada. Em outras palavras, essa é a estrutura básica de um sem-número de aventuras do gênero e isso, por si só, claro, não é ruim.

Entrando em mais detalhes, vale dizer que o primeiro livro – o mais curto da série – é também muito simples, mas profundamente misterioso e intrigante. Somos apresentados a Roland no meio de sua perseguição ao Homem de Preto e, no caminho, ele encontra o jovem Jake. Não há muita ação e a obra serve mesmo de introdução ao personagem principal e ao seu nêmesis, deixando o leitor curioso pelo que pode acontecer. O segundo livro começa com Roland acordando sozinho em uma praia e sendo atacado por monstros que ele chama de “lagostrosidades”. Elas arrancam alguns dedos do pistoleiro que, muito ferido, encontra portais para a Nova York em diferentes épocas: 1987, 1964 e 1977. De cada uma dessas portas, ele retira um dos componentes de seu ka-tet e, na terceira, um inimigo. Muito do livro se passa efetivamente na cidade. O choque entre realidades e a necessária adaptação de Roland a cada uma delas, além da introdução dos outros componentes de seu ka-tet torna a estrutura de A Escolha dos Três muito interessante e cativante. É nesse ponto que efetivamente começamos a entender, ainda que discretamente, o plano maior de Stephen King e o tamanho dos vários universos tangenciais que ele cria sem muita cerimônia ou explicação.

Já no terceiro volume, As Terras Devastadas, Roland junta-se a Jake Chambers novamente e seu ka-tet está completo (junto com um animal do Mundo Médio chamado Oi) e todos partem para Lud, através das terras do título. Lá, encontram mutantes e o Homem do Tique-Taque, uma oportunidade para King trabalhar várias referências a filmes pós-apocalípticos, especialmente, talvez, Mad Max. Além disso, o grupo embarca em um trem altamente inteligente chamado Blaine e o jogo de cérebros entre homens e máquina faz referência ao embate entre Dave e HAL 9000 em 2001, Uma Odisseia no Espaço, com boa dose de aventuras e perigo.

No quarto e melhor volume, Mago e Vidro, quase que completamente abordado como uma espécie de faroeste distópico (com direito a um inusitado início galgado em O Mágico de Oz), acabamos conhecendo parte do passado de Roland, quando ele era um jovem pistoleiro que acabara de receber suas armas. Junto com Alain Johns e Cuthbert Allgood – seu ka-tet da época – ele parte para sua primeira aventura no Baronato de Mejis, onde se apaixona por Susan Delgado. É a aventura de formação do amargo pistoleiro que conhecemos no primeiro livro, o que empresta uma sensação de profundidade a um personagem que, antes, era só atitude e poses (por assim dizer). Por outro lado, o mistério sobre as motivações de Roland desaparecem e, com ele, toda sua aura de cowboy “clinteastwoodiano” vai embora.

Nos três últimos volumes, os elementos sobrenaturais e estranhos da mente complexa de Stephen King acabam aparecendo de forma exacerbada e tudo começa a desmoronar, por assim dizer. Apesar de ter construído uma história coesa e cativante com os quatro primeiros volumes, os três últimos quase anulam os efeitos até então obtidos. É difícil saber se a narrativa épica de King realmente caminharia para esse lado ou se foram os seis anos de silêncio sobre a série que tornou os três volumes finais um exagero auto-indulgente que pisoteia na mitologia que ele mesmo estabeleceu.

Como exemplo do que quero dizer, notem que, no quinto volume – Lobos de Calla – o ka-tet de Roland tem que proteger os habitantes de Calla Brin Sturges de monstros que sequestram seus filhos (a parte boa da história) e, também, uma rosa vermelha em um terreno baldio da Nova York que conhecemos (a parte ruim da história). Essa rosa é mal contextualizada e sua introdução parece aleatória, forçada, como se ela fosse – e é, na verdade – o MacGuffin que une os três capítulos finais da saga que, em uma espiral de complexidade, ainda faz surgir uma nova personalidade para Susannah, uma louca completa chamada Mia.

Mais para a frente, no sexto volume (A Canção de Susannah), o ka-tet se separa e Stephen King faz algo que me surpreendeu negativamente: ele se insere na história como um personagem que está escrevendo o épico A Torre Negra. Realidade e ficção se confundem e, ainda que, em termos lógicos do multiverso que ele próprio criou, faça sentido sua auto-inserção na trama, não pude afastar o sentimento de que o ego do autor se inflou além dos limites do aceitável. As referências à outras obras do autor passam a se intensificar ao ponto do ridículo, com livros inteiros servindo de guias ao ka-tet, além de eventos verdadeiros ocorridos com o próprio autor (notadamente, o atropelamento que quase o matou). Esse volume é particularmente complexo e culmina com o nascimento do filho demoníaco de Mia/Susannah.

O último volume é extremamente longo e anticlimático, demorando muito a decolar. Quando decola, é usando novamente uma estrutura de faroeste, dessa vez em um local chamado Dogan, onde seres com poderes psíquicos estão tentando destruir os feixes que mantém a Torre Negra (e, portanto, todas as realidades) de pé. Isso mostra, na verdade, que é na simplicidade que Stephen King se sobressai. Ao tentar desdobrar seu universo em algo do naipe “tolkeniano”, King acaba se perdendo, algo que fica particularmente evidente na jornada final até a Torre Negra. Ao chegar em seu objetivo, o que acontece com Roland bem no final é de se aplaudir pela coragem, mas são os momentos que levam o pistoleiro até lá que deixam a desejar, com uma batalha contra o Rei Rubro – o inimigo apenas mencionado, nunca antes visto, por trás de tudo – mal construída, mal pensada e jogada no livro como algo corrido para dar uma espécie de satisfação aos leitores, satisfação essa que nunca vem de verdade. Teria sido mais honesto deixar Roland entrar na Torre Negra e descobrir seu segredo sem oposição do que nos fazer passar por uma falsa batalha, que quebra a narrativa completamente, alongando-a muito além do realmente necessário.

A jornada até a Torre Negra é longa e árdua, de difícil leitura. Stephen King faz seu grande épico, mas o conjunto de sua obra tendo Roland Deschain como protagonista é irregular, claudicante e tenta abraçar mais do que pode. Há momentos excelentes, ideias muito boas, um livro inteiro sensacional (Mago e Vidro) e três livros bons (O Pistoleiro, A Escolha dos Três e As Terras Devastadas), mas há, também, desenvolvimentos muito fracos, inimigos que não se concretizam em toda sua propalada ameaça, momentos egocêntricos em exagero e três livros fracos (Lobos de CallaA Canção de Susannah e A Torre Negra), apesar de o encerramento circular ser enervantemente perfeito.

Se é uma leitura recomendada? Minha resposta é um relutante sim, mas somente caso o leitor já tenha se refestelado com os outros clássicos épicos que A Torre Negra tenta emular.

*Crítica originalmente publicada em 2009 fora do Plano Crítico, no blog pessoal do autor (hoje não mais atualizado). Versão atualizada publicada no Plano Crítico pela primeira vez em 26 de dezembro de 2014, novamente atualizada para republicação.

A Torre Negra, volumes I a VII (The Dark Tower, volumes I to VII, EUA – 1982 a 2004)
Conteúdo: O Pistoleiro, A Escolha dos Três, As Terras Devastadas, Mago e Vidro, Lobos de Calla, A Canção de Susannah, A Torre Negra
Autor: Stephen King
Editora (nos EUA): Grant
Editora (no Brasil): Editora Objetiva
Páginas: 224 (v. I), 416 (v. II), 528 (v. III), 816 (v. IV), 744 (v. V), 408 (v. VI), 1.088 (v. VII)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.