Crítica | A Torre Negra: Traição

estrelas 3

Recebido com entusiasmo pelos leitores de quadrinhos, fãs ou não de Stephen King, a adaptação para a Nona Arte da série de livros A Torre Negra ganhou um terceiro volume, composto de seis edições, lançado em 2008, o mesmo ano de A Longa Jornada para Casa, o segundo volume. Como característico da estratégia da Marvel Comics para essas adaptações, com exceção do primeiro volume – Nasce o Pistoleiro – adaptação direta de parte de Mago e Vidro, o quarto livro da série literária, Traição é obra original, galgada apenas na mitologia do Mundo-Médio estabelecida por King, que expande elementos do passado da vida de Roland Deschain, o futuro pistoleiro solitário e obsessivo, e de seu ka-tet, formado por seus amigos de infância Alain Johns e Cuthbert Algood.

O roteirista Peter David, baseado na arqueologia literária feita por Robin Furth, auto-declarada fã inveterada de A Torre Negra e que recebeu a bênção do próprio King, fez um excelente trabalho em seus dois primeiros volumes, o segundo, livre das amarras da fonte literária, ainda melhor que o primeiro. No entanto, em Traição, ele parece ter perdido o gás. Não que a história em si seja ruim, mas apenas que, comparativamente, ela sofre demais com idas e vindas e reviravoltas que soam demasiadamente artificiais.

A arte de Lee e Isanove não perde a qualidade!

A arte de Lee e Isanove não perde a qualidade!

Em Traição, vemos Roland ainda enfeitiçado pela bola de cristal rosa chamada Grapefruit (se você não entendeu a referência, sugiro ler os volumes desde o começo, pois contar mais não só é complicado, como tira a graça da história) e luta pela sua sanidade enquanto seus dois amigos, Cuthbert e Alain, ficam cada vez mais desconfortáveis com a situação, pois nada podem revelar aos seus pais ou mesmo ao pai de Roland, regente de Gilead. Além disso, entra em cena uma nova personagem, Aileen Ritter (nenhum parentesco com o presente crítico), a sobrinha de Cort, o treinador de pistoleiros que Roland derrotou prematuramente para tornar-se o pistoleiro mais jovem da história de seu reino (isso é contado em detalhes em Nasce o Pistoleiro). Ela deseja tornar-se a primeira pistoleira ao mesmo tempo em que Cort quer que ela se resigne a casar com Roland. Há uma tentativa de se criar uma atmosfera de romance, meio que para substituir o grande amor da vida de Roland, Susan Delgado, mas que, mesmo o leitor que só acompanha os quadrinhos, sabe que não pode dar certo. Esse é o primeiro aspecto que derruba um pouco a narrativa de Peter David, que falha em construir uma personagem realmente cativante e que seja efetivamente mais do que um joguete artificial para construir uma história.

Ao mesmo tempo em que esse aspecto mais intimista se desenrola, vemos os pais de nossos heróis em uma missão para derrotar John Farson, enviado do Rei Rubro para devastar Gilead. Assim, a ação se desenrola nessas duas frentes e a “traição” do título – que na verdade deveria ser “traições, pois são várias -, começam a acontecer. Nada é o que parece ser e nisso Peter David é bem sucedido, ou seja, consegue escrever bem as motivações dos personagens em um número limitado de páginas. No entanto, a cadência da história sofre, com pouco efetivamente acontecendo ao longo dos seis números que compõe o volume. A presença de Aileen, ainda que interessante, é gritantemente mal aproveitada, quase que uma espécie de desculpa para gastar mais algumas páginas. Traição parece, na verdade, um enorme epílogo para a aventura iniciada no primeiro volume, algo que poderia ter sido feito em umas cinco páginas ao final de A Longa Jornada para Casa.

Novamente, porém, a deslumbrante arte de Jae Lee e Richard Isanove merece todo o destaque. Na verdade, o trabalho deles só melhora, com spreads de tirar o fôlego e que gritam para ser enquadrados e pendurados na parede de tão bonitos, mesmo quando retratam atos de violência extrema. Não há muito mais para falar nesse quesito que já não tenha abordado em minhas críticas anteriores. Apenas, talvez que, mesmo com um roteiro menos eficiente, a arte, sozinha, já faz com que Traição tenha que ser conferido por amantes de quadrinhos e, também, pelos fãs de A Torre Negra.

Traição é um volume menos interessante que os dois anteriores, mas, mesmo assim, é uma leitura digna que vale o quanto custa. A série de livros de King não poderia estar em melhores mãos.

*Crítica publicada pela primeira vez em 2009 fora do Plano Crítico. Revisada e publicada no site originalmente em 30 de dezembro de 2014.

A Torre Negra: Traição (Dark Tower: Treachery, EUA – 2008/2009)
Conteúdo: A Torre Negra: Traição #1 a 6
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Jae Lee, Richard Isanove
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro de 2008 a fevereiro de 2009
Editora no Brasil: Panini Comics (em edições separadas) e Editora Objetiva, selo Suma de Letras (encadernado)
Data de publicação no Brasil: junho a novembro de 2011 (Panini), janeiro de 2012 (Objetiva)
Páginas: 152 (encadernado da Objetiva)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.