Crítica | A Tortura do Silêncio

estrelas 3,5Alfred Hitchcock sempre foi um diretor de características únicas. Seu título de “Mestre do Suspense” não lhe foi concedido por lotar seus filmes de sangue falso ou sustos incessantes, e sim por sempre apostar na subjetividade, naquilo que não se pode ver ou entender. Este era o maior trunfo de seus filmes: permitir que a mente do espectador trabalhasse juntamente com a narrativa de seus filmes, sempre instigando a curiosidade do espectador em seguir até o final.

E sendo, como já mencionei um diretor de características únicas, um dos principais “clichês” dos filmes de Hitch era colocar algum personagem inocente no meio de um cenário onde fosse perseguindo por tudo e por todos. E esta costumeira característica do diretor nunca foi tão bem trabalhada quanto neste A Tortura do Silêncio, que apesar de estar longe dos grandes filmes de Hitchcock, trabalha muito bem este aspecto juntamente com um forte debate sobre culpa e religião, transformando este em mais um interessante trabalho do currículo do diretor.

O padre Michael Logan (Montgomery Clift), aparentemente um modelo da piedade religiosa, ouve a confissão de um assassino. Testemunhar o ocorrido a partir do ponto de vista do matador e as normas da igreja impedem Logan de falar – mesmo que seja em sua própria defesa – quando evidências circunstanciais apontam o padre como o principal suspeito. Assim, ele terá de buscar evidências que o inocentem da acusação.

Com um poderoso material em mãos, o maior pecado de Hitch é desenvolver o assunto de forma inconstante, ora apostando no sentimento de culpa do padre, ora focando no interesse romântico do mesmo com uma antiga namorada, Ruth (Anne Baxter). Claro, vindo de alguém como Hitchcock, o trabalho narrativo é criativo ao gerar vários bons momentos, mas as escolhas impensadas de Hitch fazem com que o interesse caia gradativamente (ainda que os minutos finais sejam bastante divertidos).

O romance sempre foi uma presença forte nos filmes de Hitch, mas chega a ser estranho que, de uma hora pra outra, o diretor deixe a trama original de lado para se ater ao envolvimento romântico entre o Padre Logan e Ruth. Se Montgomery Clift e Annex Baxter interpretam corretamente seus respectivos papéis, incomoda que a instigante narrativa dê lugar a mais um romance impossível, servindo como apelo aos personagens, mas que destoa completamente da proposta original.

E um dos aspectos mais peculiares dos filmes de Hitch era a atenção especial que ele conferia aos seus vilões. Foi assim em A Sombra de uma Dúvida, Pacto Sinistro, Festim Diabólico, Disque M para Matar, e em sua obra máxima, Psicose. Infelizmente, o vilão apresentado aqui se mostra uma incógnita: Otto (O. E. Heller) jamais parece ser definido como alguém arrependido pelo crime que cometeu, ou se é apenas um sujeito mau caráter que visa somente o próprio benefício na situação. Esta repentina mudança de caráter do personagem aparenta ter ocorrido apenas por conveniência do roteiro, e a maneira repentina com que é apresentada apenas deixa o personagem mais desinteressante.

Entretanto, o filme traz outras figuras interessantes. O detetive é dono de uma personalidade bastante perspicaz, e é muito bem interpretado pelo sempre ótimo Karl Maden. Da mesma forma, Dolly Haas, apesar do pouco tempo em cena, se destaca como a esposa de Otto, uma mulher atormentada pela culpa e incerteza acerca das atitudes de seu marido.

E apesar da narrativa irregular, Hitch mais uma vez se mostra inspirado em suas concepções visuais, permitindo, como já dito, que o espectador trabalhe junto com o andamento da trama. Seus enquadramentos, sempre destacando símbolos religiosos, nos remetem a questão: qual seria a atitude correta? Delatar o verdadeiro culpado ou seguir os dogmas impostos pela igreja? Existem também momentos de para o coração, como quando os padres estão tomando café na paróquia, enquanto são servidos pela esposa de Otto. Os olhares furtivos da esposa para o Padre Logan, como se temesse que o segredo do marido fosse revelado, transformam esta em uma cena tensa, com uma pressão psicológica tão forte que a vontade é de não piscar o olho para não perder nenhum lance.

Mesmo estando longe da perfeição, A Tortura do Silêncio (titulo mais apropriado não há) é mais um ótimo filme na vasta carreira de Hitchcock. Um suspense bem trabalhado, com muitos dos toques que tornam este um dos diretores mais geniais que o cinema já teve.

A Tortura do Silêncio (I Confess, EUA, 1953)
Roteiro: Paul Anthelme, George Tabori, William Archibald
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Montgomery Clift, Anne Baxter, Karl Maden, Brian Aherne, Roger Dann, Dolly Haas, Charles Andre, Judson Pratt
Duração: 95 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.