Crítica | A Transfiguração

estrelas 4

O longa-metragem de estreia do americano Michael O’Shea nos traz um olhar intimista sobre a depressão e como o trauma pode desfigurar a personalidade de jovens, forçando-os a criar válvulas de escape que vão desde a automutilação até a criação de uma realidade alternativa em suas próprias mentes. A Transfiguração é um assustador retrato de uma dessas situações, que leva o espectador em uma jornada pela mente conturbada de um menino que acredita ser um vampiro, é uma história que foca em seus personagens, trabalhando a progressão de cada um deles em um nível emocional.

Milo (Eric Ruffin) é um menino que vive com seu irmão após a morte de seu pai e suicídio de sua mãe. Se tornando cada vez mais recluso, o que apenas é amplificado pelo bullying que sofre nas mãos de outros jovens que moram próximo a ele, ele passa a se enxergar como um vampiro, fruto de sua obsessão por filmes sobre essas criaturas da noite. Sua vida passa por uma grande mudança, contudo, quando conhece Sophie (Chloe Levine), uma menina que também perdera os dois pais e que acabara de se mudar para a casa de seu violento avô, no mesmo prédio de Milo.

Há uma beleza incontestável na crescente relação entre esses dois personagens centrais, dois jovens profundamente desestabilizados, que encontram um no outro uma forma rara de se relacionar. Mesmo com o constante silêncio de Milo sentimos uma evidente proximidade entre os dois e, nas ocasiões que ele a afasta, sabemos que ele está pensando no bem da garota, visto que ele se considera perigoso para ela em virtude da condição que criara em sua própria mente. A menina, que se automutila para se distanciar dos inúmeros problemas em sua vida, porém, acaba se atraindo por ele, enxergando nele uma forma de conseguir viver no meio de tanta opressão.

Mas Milo, de fato, é perigoso. Ele está tão inserido nessa fantasia mental que, de fato, já matara e a qualquer momento pode fazer isso de novo, algo que aprendemos desde cedo na projeção. Ele, porém, é uma figura extremamente solitária, algo evidenciado pela direção de O’Shea, que emprega planos mais abertos para ilustrar a solidão do garoto. Ao mesmo tempo, os closes refletem sua instabilidade, da mesma forma que a câmera sempre em sutis movimentos, nunca apoiada sobre um tripé ou estabilizada por uma steadycam, da mesma forma que o protagonista não tem ninguém para se apoiar – isto é, até Sophie aparecer.

O roteiro, também de O’Shea, ainda insere uma interessante metalinguagem na obra. Repetidas vezes ouvimos, na conversa do jovem casal, Milo falar sobre o realismo nos filmes de vampiro – constantemente diz que algo não é realista, como não poder andar no sol ou brilhar, como nos filmes de Crepúsculo. Ele, evidentemente, está falando de si próprio, que, em sua cabeça, tem como única necessidade beber sangue na Lua cheia. A metalinguagem se constrói ao passo que percebemos que, além de um filme sobre a depressão e suas válvulas de escape, essa é uma obra realista sobre vampiros, ainda que seja tudo imaginação.

Mas, como nada é perfeito, o ritmo da projeção tropeça em alguns momentos em virtude do desenvolvimento do protagonista, que ora dá passos para a frente, ora passadas para trás, como se o roteiro não conseguisse, de fato, progredir. Felizmente, o trabalho de Ruffin e Levine conseguem sustentar o longa-metragem e os dois contam com uma química evidente, que, mesmo nos momentos de silêncio, está fortemente presente. Conseguimos sentir o afeto que um tem pelo outro, por mais estranho que seja o comportamento do garoto.

A Transfiguração consegue, portanto, nos trazer um triste retrato do trauma: da mesma forma que ele pode ser vencido, com mudanças que levam sua vida adiante, é possível se entregar a ele e caminhar em uma estrada vertiginosa, que apenas ocasiona na própria miséria do indivíduo. Michael O’Shea ilustra de forma bela, ainda que com seus defeitos, como a depressão é um problema constante em nossa realidade e que tira ou destrói mais vidas do que podemos imaginar.

A Transfiguração (The Transfiguration) – EUA, 2016
Direção:
 Michael O’Shea
Roteiro: Michael O’Shea
Elenco: Eric Ruffin, Chloe Levine, Jelly Bean, Dangelo Bonneli, Andrea Cordaro
Duração: 97 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.