Crítica | A Travessia (2015)

estrelas 5,0

Vira e mexe, deparamo-nos com coisas e eventos que parecem impossíveis demais para serem verdade. Vem-me à mente uma versão um tanto mais otimista da frase de Alex DeLarge em Laranja Mecânica, quando ele se espanta com “a maneira que a violência parece mais real quando a vemos numa tela de cinema”, e ainda que concorde com o perturbado personagem de Malcom McDowell, gosto de pensar também que não só a violência, mas as coisas belas parecem mais vívidas quando as vemos projetadas. É exatamente isso o que Robert Zemeckis faz em A Travessia.

Aqui, o diretor utiliza o 3D para contar a história real de um certo Philippe Petit (vivido por Joseph Gordon-Levitt), um equilibrista francês que enxergou nas torres gêmeas do World Trade Center o palco perfeito para seu número definitivo: atravessar os dois prédios utilizando uma corda bamba.

Ao lado do roteirista Christopher Browne, Zemeckis transforma a façanha de Petit em uma verdadeira fábula. Logo nos segundos iniciais, quando o próprio surge interagindo com a platéia enquanto encontra-se no topo da Estátua da Liberdade, Petit já é visto como uma espécie de mágico que nos contará sobre suas incríveis aventuras, e o tom fabulesco preenche todo o primeiro ato da projeção ambientado em uma Paris muito característica. Todo o tempo, o roteiro nos cria uma imagem visionária para o protagonista, especialmente ao retratar sua ambição e subsequente arrogância para realizar seu sonho. E Joseph Gordon Levitt trabalha com cuidado seu sotaque francês, por pouco não transformando Petit em uma caricatura, mas compensando pela empatia que causa com o público e sua constante interação com este.

Claro, é uma visão absolutamente idealizada, o que pode incomodar um pouco quem não entender por completo as motivações do protagonista. Se o excelente documentário O Equilibrista é mais direto e factual, o filme de Zemeckis aposta pesado no tom de conto-de-fadas e no constante incentivo aos sonhos impossíveis, além de ignorar as sutilezas na bela homenagem ao World Trade Center, quase um personagem em seu próprio mérito. E é sempre bom esclarecer que não é uma homenagem a uma bandeira ou nação, mas sim à perseverança do espírito humano e à natureza da Arte.

Já no segundo ato, Zemeckis troca a fábula por um inusitado filme de heist, e a mistura funciona. A trilha de Alan Silvestri converte o acorde mais sensível para uma divertida trilha old school, ao passo em que os personagens planejam seu “golpe” e testam suas artimanhas, sendo particularmente eficaz em sua montagem dinâmica, como na cena em que a flecha de um treino de pontaria em um parque (utilizado para lançar o cabo entre as duas torres) sutilmente transita para o World Trade Center, além dos planos habitualmente longos do diretor; daqueles tão ricos que nem percebemos que um corte não ocorreu. Existe até mesmo uma justificativa crível para o fato de todos os personagens franceses falarem em inglês o tempo todo, já que Philippe é obcecado em conhecer Nova York e insiste que todos os seus colegas falem o idioma ianque para “praticar”. Claro, é a “legendafobia” americana, mas é uma desculpa muito eficiente.

Muito bem, falemos sobre a meia hora final do filme, na qual Philippe enfim realiza a tão antecipada travessia. É facilmente um dos melhores usos de 3D que qualquer cineasta já tenha realizado até hoje, e fica ainda mais impressionante se visto em uma boa sala IMAX, a fim de realmente conseguir a mesma sensação experienciada por este que vos escreve: a de absoluto deslumbramento. Zemeckis conduz a vertiginosa sequência com maestria, valorizando a maravilha que é o ato do protagonista, ao mesmo tempo em que sua câmera viaja pelo ambiente digital – que jamais deixa de parecer convincente – e nos coloca na pele do equilibrista, que enfim alcança seu clímax emocional nesta que é uma das mais memoráveis cenas do ano. A profundidade de campo é chave para que o 3D tenha um efeito tão profundo, e o diretor de fotografia Dariusz Wolski merece aplausos por compor luzes e cores belíssimas, mas que respeitam a estética naturalista do projeto – evitando imagens surrealistas ou tons mais oníricos que transformassem a caminhada em algo fantasioso.

A Travessia é uma obra inspiradora e que traz Robert Zemeckis em sua melhor forma em anos. Beneficiando-se da ótima história, produção e um 3D avassalador, a saga de Philippe Petit transforma-se em uma das mais poderosas experiências cinematográficas de 2015.

A Travessia (The Walk, 2015 – EUA)
Direção:
Robert Zemeckis
Roteiro: Robert Zemeckis, Christopher Browne (baseado em auto-biografia de Philippe Petit)
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Ben Kingsley, Charlotte Le Bon, Clément Sibony, César Domboy, James Badge Dale, Steve Valentine, Ben Schwartz
Duração: 121 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.