Crítica | A Troca (2008)

A Troca é um filme denso e angustiante, principalmente quando focamos o olhar na trajetória de uma mãe em busca de respostas diante do misterioso desaparecimento do filho. Durante os seus longos 141 minutos, a narrativa baseada em eventos ocorridos em 1928 em Los Angeles retrata abuso infantil, corrupção da polícia e a intensa busca por questões que parecem doer mais intensamente quando não são devidamente respondidas.

Dirigido por Clint Eastwood, o filme é um drama denso, mas irregular, o que não impede, entretanto, a sua contemplação como reconstituição de época, desempenho dramático da protagonista e outras qualidades descritas adiante. Escrito por J. Michael Straczynski, com base em mais de seis mil páginas de documentos arquivados na Prefeitura de Los Angeles, o texto é instigante, mas vacila. Ao perder o rumo por conta da longa duração e do paralelismo que se expande próximo aos 90 minutos de história, A Troca flerta com temas demais e acaba não conseguindo dar conta de todas as propostas lançadas em seu preâmbulo. A impressão que temos é a de que há dois filmes em conjunto: o primeiro nos conta a história da saga de uma mãe que busca respostas para o desaparecimento do seu filho e o segundo narra o sangrento e aterrorizante caminho percorrido por um serial killer, Gordon Nortcott (Jason Butler Harner). Por mais curioso e relativamente fascinante que seja a segunda história, vamos nos deter aqui ao primeiro caso, melhor delineado pelo roteiro falho.

O ponto de partida é o sumiço de Walter (Gattlin Griffith). A história faz um preâmbulo eficiente ao nos apresentar a relação entre Christine Collins (Angelina Jolie) e o seu filho. Certo dia, uma situação inesperada a coloca diante do sumiço do garoto de nove anos. Desesperada, Collins sai em busca de respostas, numa odisseia maternal repleta de negação e desilusão. Ao denunciar o caso e recorrer aos diversos setores da sociedade para expor a negligência dos envolvidos na investigação, a personagem é internada e perseguida pelo Departamento de Polícia, tratada como louca e aprisionada em um hospício, subjugada pelos personagens desenvolvidos por John Malkovich, Jeffrey Donovan e Colm Feore, todos responsáveis pelo tom maniqueísta do roteiro.

Diante da situação exposta é preciso explicar o que de fato antecedeu tais problemas. Alguns meses depois a polícia informa que a criança foi encontrada. O encontro público é agendado, pois se acreditava que isso poderia melhorar a imagem dos envolvidos na investigação perante a sociedade. Ele insiste ser seu filho, mas ela nega veementemente. O garoto de nove anos que tinha uma relação tão próxima com a sua mãe não é aquele garoto que se apresenta diante dos seus olhos incrédulos. Como lidar? É a partir disso que a personagem é tida como uma mãe louca que precisa ser tratada como alguém “fora de si”. Ser mãe, em A Troca, é padecer no inferno da incerteza. É sofrer por conta do amor incondicional e passar todo o resto de vida em busca de respostas que nunca chegarão completamente, o que aumenta exponencialmente o sofrimento da personagem, e, por sua vez, a catarse do público, quase comprometida por conta das irregularidades já notificadas anteriormente.

Narrado por meio da montagem de Joan Cox e Gary Roach, o filme acerta na direção de fotografia assinada por Tom Stern, eficiente ao retratar bem os elementos organizados pela belíssima direção de arte de James J. Murakami, atenta ao tempo histórico em questão. Fotografias, paleta de cores e sombras bastante significativas dão o tom da união certeira de ambos os setores. A música, assinada pelo versátil Clint Eastwood soa intrusiva em alguns trechos, forçada demais, num exercício pobre artisticamente, algo que nos surpreende, afinal, foi realizado por um cineasta tão experiente e anteriormente mais eficaz.

Lançado em 2008, A Troca é um angustiante retrato de uma mulher que atravessou parte da sua vida imbuída pelo estoicismo, padrão de mãe ideal, aquela em busca de respostas sobre o paradeiro de seu filho. Tal como Zuzu Angel, Christine Collins sofreu da dor de não saber exatamente os pormenores que detalharam o destino final e trágico. Diferente da personagem de Michelle Pfeifer em Nas Profundezas do Mar Sem Fim, Collins nunca conseguiu reencontrar o seu filho perdido. Triste fim para uma mulher tão determinada a exercer o seu “papel” de mãe. A dor, em casos como este, ao menos nas narrativas cinematográficas, aparenta ser maior, pois a sensação de dúvida no ar se torna mais incomoda que confrontar a realidade violenta nua e crua.

A Troca — (Changeling) Estados Unidos, 2008.
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: J. Michael Straczynski
Elenco: Amy Ryan, Angelina Jolie, Devon Conti, Jason Butler Harner, Jeffrey Donovan, John Malkovich, Michael Kelly
Duração: 141 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.