Crítica | A Tumba do Drácula #1 a 6 (1972)

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estrelas 2,5

Uma das maiores abominações da História dos Quadrinhos foi a criação, em 1954, da chamada Comics Magazine Association of America que, muito na linha do Código de Produção Cinematográfica de 1930 (outra abominação), criou o Comics Code Authority, uma espécie de manual que determinava o que podia e não podia entrar nas HQs, que tinham que passar pelo crivo desses censores. Essa medida foi fruto da histeria coletiva dos anos 50 causada pelo psicólogo Fredric Wertham com seu livro A Sedução do Inocente, uma obra que basicamente dizia que os quadrinhos eram determinantes para influenciar o comportamento delinquente de jovens. Pautado em pseudo-pesquisas, o livro gerou – bem na era Macartista de caça aos comunistas, audiências no senado americano sobre o assunto e, então, o controle rígido sobre os quadrinhos começou.

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A capa do encadernado da Panini.

O cenário da produção da Nona Arte nos EUA era de declínio das HQs de super-heróis e a exploração maciça de quadrinhos de crime e terror. A sanguinolência e a violência era realmente geral e esse foi um dos fatores que levou à censura, não que ela seja justificável, claro. Dentre as várias regras que foram colocadas em prática, o código proibiu violência, sangue, conotação sexual e mais uma penca de outros elementos que teriam a tendência de “corromper” as mentes em formação. Além disso, havia uma proibição absoluta na retratação de vampiros, zumbis, lobisomens e fantasmas (fico pensando o porquê disso – será que as crianças seriam influenciadas a morder os pescoços de transeuntes, a roubar membros de corpos humanos para costurar um monstro, a estraçalhar presas na rua?).

Mas, em 1971, isso mudou. O Código ainda existia firme e forte e todas as editoras passavam pelo seu crivo, inclusive a DC e a Marvel (a Marvel foi a primeira das grandes editoras a abandonar o uso do código, mas só em 2001), mas houve um relaxamento das regras e os monstros citados acima foram autorizados a novamente povoar as páginas das revistas desde que retratados de maneira “elegante e clássica”. Com isso, a Marvel não perdeu tempo e apresentou ao mundo Morbius, o Vampiro Vivo, nas páginas de The Amazing Spider-Man #101, de outubro de 1971. No ano seguinte, querendo lançar uma publicação exclusivamente vampiresca, a editora decidiu usar Drácula, o Príncipe dos Vampiros por dois fatores: o personagem era – e ainda é – 0 mais reconhecível vampiro (e, diria, personagem de terror) do público em geral e a obra original de Bram Stoker já havia entrado em domínio público mundialmente (uma curiosidade: nos EUA, a obra nunca gozou de proteção pelo Direito Autoral, pois o autor havia deixado de seguir as formalidades necessárias da legislação americana à época da publicação original).

Essa longa introdução serve para contextualizar o surgimento de A Tumba do Drácula, aposta pesada da Marvel Comics nos quadrinhos de terror e que foi publicada entre 1972 e 1979, tendo 70 edições e firmando Drácula como um personagem canônico no Universo Marvel (mais recentemente, o personagem participou ativamente de um longo arco dos X-Men), com vários crossovers com outros personagens e a criação de Blade, o caçador de vampiros. O sucesso dessa publicação levou a várias outras, inclusive O Monstro de Frankenstein da editora, ainda que sem o mesmo sucesso.

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Conseguem acertar os desenhistas das capas? Vamos lá, da esquerda para a direita: Neal Adams, John Severin e Gil Kane.

Os primeiros seis números da revista, objetos desta crítica, foram originalmente publicados entre abril de 1972 e janeiro de 1973 e, recentemente, foram publicados como um encadernado pela Panini Comics na série Coleção Marvel Terror #1. No primeiro número, intitulado somente “Drácula”, vemos o renascimento do famoso Conde, depois que seu descendente, Frank Drake, decide viajar para a Transilvânia para visitar e, com a ajuda de seu amigo Clifton Graves e a noiva Jeanie, possivelmente explorar o potencial turístico do castelo e do nome Drácula (Drake é uma corruptela do nome mítico, claro) que ele herdou. Não demora nada e o esqueleto do monstro é achado em seu caixão por Clifton, com uma estaca fincada em seu coração, cortesia de Abraham van Helsing um século antes. Claro que a estaca é retirara e voilà, Drácula vive!

Pelo que reza a lenda (não a de Drácula…), quando Gerry Conway foi contratado para escrever a história, a arte de Gene Colan já estava pronta, com base em diálogos criados por Stan Lee e Roy Thomas, pelo que Conway não teve realmente muito espaço, apesar de receber crédito solo pelo roteiro. E, realmente, o resultado é uma história apenas interessante pela sua arte, mas que sofre de um roteiro extremamente expositivo – o estilo Stan Lee de escrever – que inibe a progressão narrativa. Todos os elementos clássicos do vampiro, porém, são mantidos, como o icônico fraque com capa de forro vermelho e a aparência nobre do Conde.

O primeiro número, que acaba com Jeanie transformada em vampiro, recebe uma continuação direta no segundo número – O Medo Interior! – esse sim escrito por Conway, que começa, ainda que discretamente, a acertar o rumo da história. A ação é transferida para Londres, após breve páginas ainda na Transilvânia, com Drácula viajando para lá para recuperar seu caixão, furtado por Frank. O Príncipe dos Vampiros é ajudado por Jeanie e a falta de urgência que marca o primeiro número abre espaço para uma boa quantidade de ação que, porém, ainda é muito limitada, explorando muito pouco os poderes dos vampiros. Outro problema é que Frank Drake é um herói muito simplista para realmente engajar o leitor.

Essa situação muda com a entrada de Archie Goodwin no roteiro logo no terceiro número. Ele nos apresenta aos personagens Rachel van Helsing, bisneta (e depois neta, em leve retcon) de Abraham van Helsing, e seu ajudante indiano mudo e gigante Taj. Com isso, Frank Drake passa a fazer parte de uma equipe caçadora de vampiros, o que nos faz esquecer um pouco do quão insosso ele é. A história, intitulada Quem Espreita o Vampiro?, também é bem interessante e fecha o mini-arco referente ao caixão de Drácula, com o Conde controlando Graves como faz no clássico de Bram Stoker. Novamente os poderes do vampiro são desperdiçados e é muito fácil derrotá-lo, mas Goodwin imprime uma boa estrutura narrativa que inicia a efetiva caçada a Drácula.

No número seguinte, na história Pelo Espelho Sombrio!, um novo mini-arco é iniciado envolvendo o tal espelho do título, de propriedade da Senhora Strangway que, há 20 anos, tinha rosto lindo e corpo escultural e deseja tê-los novamente, nem que para isso tenha que se transformar em uma vampira. Ela é a compradora do Castelo Drácula e o vampiro vai atrás dela para recuperar o que é dele somente para receber uma oferta da mulher: vida eterna e aparência jovem em troca de um espelho que permitiria ao Conde viajar no tempo (sim, isso mesmo). Como todo pacto com o diabo, a coisa não funciona muito bem para a vítima na melhor história das seis aqui comentadas. Há angústia palpável na Sra. Strangway e Drácula ganha novos contornos ao reparar que ele nada mais é do que alguém completamente fora de seu tempo.

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Mais capas para adivinhar os desenhistas. Da esquerda para a direita: John Romita, Gil Kane e Neal Adams.

Em Morte a um Caça Vampiro!, escrito por Gardner Fox (o criador da Sociedade e da Liga da Justiça), Drácula, no passado (por intermédio do espelho) tenta matar Abraham van Helsing em uma história que se contradiz o tempo todo. Em determinado momento o vampiro está no passado depois de van Helsing matá-lo e, em outro, ele está no passado antes de van Helsing matá-lo. Fica muito confuso, mas, em última análise, o fato é que isso não importa realmente se pararmos para pensar. O importante é a viagem no tempo em si a perseguição de Drácula por Frank, Rachel e Taj em uma história que infelizmente deixa de aproveitar os paradoxos temporais.

Finalmente, em O Monstro da Charneca! (que mania de colocar exclamações…), o arco do espelho sombrio acaba, com Drácula voltando ao presente em um pântano – ou charneca – na Inglaterra, com nossos heróis ao seu encalço. Ele logo se alimenta de uma empregada local cujos patrões têm um segredo envolvendo o tal monstro do título. É um pouco lobisomem versus Drácula só que sem o conflito e sem a urgência de uma história dessa natureza.

Como mencionei, o grande destaque de todo esse primeiro arco de seis números é a arte de Gene Colan. Atmosférica e com traços elegantes, o famoso desenhista acerta o tom das histórias desde o primeiro número, marcando o começo de sua longa permanência na série. Como era comum na época, não há uso de splash pages ou mesmo imagens de maior destaque, mas o trabalho de Colan é fluido e seus personagens – especialmente as transformações de Drácula em morcego e vice-versa – são particularmente bem desenhados, com características próprias que os marcam sem muita dificuldade, mesmo no caso do sem graça do Frank Drake.

A Tumba do Drácula é, nesse começo, uma obra ainda cambaleante, mas que definitivamente diverte. O futuro traria muitos momentos interessantes, mas a constante e prazerosa arte de Colan já atrairá o leitor de HQs.

A Tumba do Drácula #1 a 6 (Tomb of Dracula #1 to 6, EUA – 1972/3)
Roteiro: Gerry Conway, Archie Goodwin, Gardner Fox
Arte: Gene Colan
Arte-final: Gene Colan, Vince Colletta, Tom Palmer
Letras: John Costanza, Artie Simek
Capas: Neal Adams, John Severin, Gil Kane, John Romita
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: abril de 1972 a Janeiro de 1973
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: dezembro de 2014 (encadernado)
Páginas: 26 (#1), 22 (#2 a #6)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.