Crítica | A Última Ceia (2001)

plano critico a última ceia monsters ball 2001 plano critico

A Última Ceia é um filme de “poucas vezes”, isto é, daqueles que a indústria lança com longos intervalos, pois parece não haver maturidade para lidar com as cenas de sexo como as que acompanhamos por aqui, com um texto dramático seguro e coeso, bem como sequências narrativas que não precisam de efeitos especiais para ganhar a atenção de um público cada vez menos exigente intelectualmente. Denso, profundo e inquietante, o drama reluz o melhor do cinema independente, ao nos tirar da zona de conforto e promover reflexões sobre a forma como nós enfrentamos as nossas adversidades cotidianamente.

Marc Forster dirige o roteiro escrito pela dupla formada por Milo Addica e Will Rokos, texto erguido pelo viés narrativo duplo: acompanhamos a trajetória de Letícia (Halle Barrey), uma mulher que aguarda a execução do marido que se encontra no corredor da morte e Hank (Billy Bob Thornton), homem preso ao legado do pai, isto é, trabalha como agente penitenciário na cidade em que vivem. Construídos com base em defeitos e qualidades equilibradas, os personagens são todos vulneráveis e vivem cercados pela sensação de angústia e sofrimento.

O responsável pelo entrelaçamento das histórias de Letícia e Hank é Lawrence (Sean Combs), marido que não consegue prover nada para a esposa e filho, pois se encontra com os dias contados. A sua execução, narrada através de ângulos oblíquos e câmera repleta de distanciamento e reflexos é o acontecimento que conectará sua esposa e um dos agentes responsáveis pela preparação da sua morte, bem como da sua última ceia, título do filme, uma referência ao costume que acompanha algumas sociedades desde os tempos medievais: antes da execução por algum crime ou atividade indevida, o indivíduo ganha o direito ao seu último banquete, com a comida que deseja, num ritual que “celebra” os seus momentos finais.

Por meio de diálogos econômicos e arroubos silenciosos, o roteiro conecta os personagens sem artificialismos, para que nós possamos perceber como eles terão de mudar as suas vidas diante das tragédias que se estabelecerão daquele momento em diante. Letícia perde o filho e Hank também, ambos em circunstâncias desagradáveis. Juntos, eles precisam lidar com o luto e com a necessidade de reinvenção de suas existências. Letícia, com perfil psicológico e social bem delineado, constantemente despeja o ódio do destino de seu marido no filho, postura semelhante aos atos de Hank, conflituoso no relacionamento com o filho, pois está constantemente despejando a sua ira no jovem rapaz, tudo isso por conta das ressonâncias de seu pai, o racista e inescrupuloso Buck (Peter Boyle), homem que inferniza a vida do filho e assiste a degradação da relação deste com o seu neto.

Desamparados, os personagens em A Última Ceia são erguidos com eficiência. Eles se aproximam e se distanciam um dos outros numa demonstração da necessidade de compreensão e acolhimento diante de suas atitudes. Lawrence está fisicamente atrás das grades, mas ele não é o único personagem aprisionado da história. Enquanto Letícia está presa ao seu emprego medíocre e ao marido que morrerá e não lhe deixará nada para cuidar do filho, Hank está preso ao legado da família, ao pai que só lhe traz desgosto e ao filho que representa a incompreensão de gerações em conflito. Todos esses elementos dramáticos estão cuidadosamente justapostos graças ao eficiente trabalho técnico: direção, fotografia, condução musical e design de produção.

O filme é uma demonstração de talento na direção de fotografia, setor que não precisa de orçamentos robustos para a condução eficiente da narrativa. Sob a concepção do fotógrafo Roberto Schaefer, as imagens enquadram o detento que aguarda a execução constantemente no centro da tela, deixando os personagens de Halle Berry, Billy Bob Thornton, Heath Ledger e os demais coadjuvantes constantemente nos cantos do quadro, afinal, eles são os únicos que estão com os destinos “incertos”. Conforme Schaefer, as inspirações para o estilo visual onírico e com alguns trechos próximos ao ideal de subconsciente estão nos filmes estadunidenses dos anos 1970, além de trechos que homenageiam Apocalypse Now, O Conformista e Rastros de Ódio, obras de referência na cinematografia estadunidense.

O diretor de fotografia conta bastante com a eficiência do design de produção, em especial, a tarefa de Leonard Spears na direção de arte, num painel de escolhas visuais adequadas para a composição dos quadros. A presença de espelhos reflete a necessidade de reflexão por parte dos personagens, indivíduos que gravitam diante da órbita de amargura e incertezas que domina o cotidiano. Tudo isso ganha bastante efeito com os cenários vazios, análogos aos acontecimentos na vida dos personagens: o hospital onde uma tragédia se desfecha revela seus espaços frios e vazios, a casa dos personagens com cores desbotadas e pálidas.

No que diz respeito à montagem, Matt Chessé recorre aos ditames da montagem clássica hollywoodiana, mas isso não significa que o filme seja narrado pelo viés do clichê, ao contrário, corta no momento certo, aproveita bem o material captado durante o processo de produção e entre ao público o essencial, sem pieguices e excessos, algo que ganha o apoio da condução musical discreta de Ascher e Spencer, responsável pela atmosfera surreal, estabelecida com guitarras e sintetizadores que reverberam nas cenas e ganham eco.

Dentre tantos destaques, cabe ressaltar a humanização da pena de morte. A forma como a execução é retratada beira ao teatral. Há uma poesia na dinâmica dos atores com a câmera, tentativa do cineasta e do roteirista de nos fazer refletir sobre o assunto que após quase vinte anos de lançamento, ainda é polêmico e controverso. De forma implícita temos também a questão da condição psicológica dos agentes que cuidam do prisioneiro que será executado. É um desafio psicológico hercúleo e a direção competente de Marc Foster consegue dar conta do recado. O cineasta, que começou com documentários para a televisão europeia, faz a sua estreia na direção sob a produção de Lee Daniels, um dos poucos investidores preocupados com um modelo de cinema mais reflexivo e menos massificado.

A Última Ceia — (Monster’s Ball) Estados Unidos, 2001.
Direção: Marc Forster
Roteiro:  Milo Addica, Will Rokos
Elenco:  Halle Berry, Heath Ledger, Amber Rules, Anthony Bean, Anthony Michael Frederick, Bernard Johnson, Billy Bob Thornton, Carol Sutton, Charles Cowan Jr., Clara Hopkins Daniels, Coronji Calhoun, Dennis Clements, Francine Segal, Gabrielle Witcher, James Haven, John McConnell, John Wilmot, Larry Lee, Leah Loftin, Marcus Lyle Brown, Marshall Cain, Milo Addica, Mos Def, Paul Smith, Peter Boyle, Ritchie Montgomery, Sean ‘P. Diddy’ Combs, Stephanie Claire, Taylor LaGrange, Taylor Simpson, Troy Poret, Will Rokos
Duração: 111 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.