Crítica | A Última Tempestade (1991)

estrelas 3,5

O fim da obra da maioria dos grandes artistas sempre está imerso em mistérios, dúvidas e atenção extrema de estudiosos e apreciadores que a recebem de legado. Na literatura, essa tarefa é ainda mais intensa pelo grande número de referências, modelos narrativos, gêneros e influências a serem consideradas, características que no caso de Shakespeare é motivo de discussão até hoje, mesmo depois de tantos séculos após sua morte.

A Tempestade, peça derradeira do bardo (ou do mesmo “período final” que Henrique VIII) já foi chamada de “a mais utópica obra de Shakespeare” e muito se tem dito sobre a influência do período histórico em que o poeta vivia na construção da temática central, principalmente a figura de Próspero, o colonizador, civilizado, dono da sabedoria; e Caliban, o nativo selvagem, deformado, estúpido e servil, muitas vezes mesquinho.

Não é segredo que Shakespeare se utilizava de fontes históricas e fazia menções diretas e indiretas aos eventos marcantes de sua época, o que não invalida interpretações que entendem A Tempestade como um retrato sociológico ou talvez antropológico do Colonialismo. Mas não podemos deixar de lado o ponto fantasioso e puramente artístico-literário que emana da peça e nos fornece o cenário mais interessante para uma adaptação shakespeariana para o cinema ou TV (algo que também vemos no ato final de As Alegres Comadres de Windsor).

Ao mesmo tempo que A Tempestade é uma obra sobre vingança, retomadas e reconstruções, ela é uma obra sobre o amor, a reconquista do poder, as intrigas familiares e o poder como algo em si (principal argumento dos Dramas Históricos do dramaturgo), envolto e defronte a uma invasão fantasiosa que pode muito bem ser enxergada como qualquer figura de linguagem alusiva em maior ou menor grau.

Na versão de Peter Greenaway, a peça encontrou um contorno artístico sublime. É quase inacreditável que ao final da projeção não tenhamos uma visão de “obra-prima” para a película — principalmente porque o diretor abusa em demasia de seu formato experimental e desanda o enredo já em sua última meia hora –, mas com certeza fica-nos a impressão de que vimos a uma das fitas mais criativas e uma das visões mais incomuns para uma peça de William Shakespeare na grande tela.

Ao juntar colagens, sobreposição de filmes, figuras, quadros, negativos, papéis e outros recursos imagéticos na montagem interna da obra, Greenaway nos convida a dar um mergulho na fantasia e talvez loucura e possessão doentia de Próspero. Suas lembranças de quando era Duque, a traição do irmão Antônio, a filha Miranda que é manipulada por ele como uma boneca, além do seu relacionamento com Ariel e os outros seres espirituais nos mostra uma psique perturbada por demônios que quase todo ser humano possui. E talvez essa seja a parte mais interessante: Próspero não é, em essência, diferente do usurpador Antônio ou de sua corte e seus amigos fingidos (lembram-se de Timão de Atenas?). Ele luta por uma causa e pode até ter a simpatia do leitor/espectador, mas seus motivos finais são resultado de um meio e um início nada louváveis.

O que impede, porém, que tenhamos uma visão cem por cento positiva do início ao final do filme é o exagero do diretor. Mesmo que sua qualidade de condução da trama e do elenco (e que elenco!) mantenha-se firme, os recursos técnicos e adicionais para levar a história a cabo, no “último ato”, mais afasta do que cativa o espectador, principalmente em sua adição de cenas musicais por tanto tempo num tipo de obra em que tal recurso narrativo funcionaria apenas (ou muitíssimo melhor) para seres divinos e por breves momentos, como tivéramos no início da jornada pelos livros da inimaginável biblioteca prosperiana.

Shakespeare encerra sua carreira com uma obra deliciosa de se ler e ver adaptada. Uma verdadeira fantasia capaz de muitas interpretações. Já Peter Greenaway prova que sabe muito bem como ser criativo — e isso é uma marca do diretor — mas sua mão pesa nos experimentos e o tom barroco que o todo parece ter após o The End nos faz questionar a sua capacidade de saber onde parar.

A Última Tempestade (Prospero’s Books) – Países Baixos, França, UK, Itália, Japão, 1991
Direção: Peter Greenaway
Roteiro: William Shakespeare, Peter Greenaway
Elenco: John Gielgud, Michael Clark, Michel Blanc, Erland Josephson, Isabelle Pasco, Tom Bell, Kenneth Cranham, Mark Rylance, Gerard Thoolen, Pierre Bokma, Jim van der Woude, Michiel Romeyn, Orpheo, Paul Russell, James Thiérrée
Duração: 124 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.