Crítica | A Valsa de Waldheim

Defensor dos valores familiares, Kurt Waldheim foi secretário-geral da ONU durante dez anos e, em 1986, elegeu-se presidente da Áustria, mesmo vindo à tona durante as eleições a sua participação direta na deportação de judeus e massacre na região dos Balcãs durante a Segunda Guerra Mundial. Nos anos 80 ainda elegiam-se nazistas, e a tarefa de Ruth Beckermann, diretora deste filme, é resgatar essa memória da campanha contra Waldheim buscando entender como a conivência do povo que lidou diretamente com o Terceiro Reich pode levar um criminoso de guerra ao poder.

O caso de Waldheim foi a prova viva de uma amnésia história, pois apenas quarenta anos separaram a Segunda Guerra de sua eleição e, mesmo com todas as provas e acusações, pouco foi articulado para impossibilitar sua candidatura. O nazista maquiou-se e surgiu como um defensor dos bons costumes, da moral e da religião, e a população agiu de forma conivente, contribuindo com a perpetuação da barbárie. O filme nada mais é que uma triste elegia à democracia, forma de governo tão frágil que é incapaz de manter os nazistas fora do poder.

Beckermann, manifestante e cineasta, usa dos vídeos de arquivo para construir um thriller político com imagens enterradas pelo tempo. Imagens das ruas, dos debates, da televisão, visto com o mínimo de cuidado é impossível não posicionar-se contra o candidato em questão. Mas o que aconteceu no país para que Waldheim tivesse uma folga tranquila nos percentuais eleitorais? A população não era capaz de ver que ele fez parte de uma ideologia que, quatro décadas atrás, no mesmo continente, manchou a história da humanidade? Tudo pra debaixo do tapete, e Waldheim era tratado como bom moço, um salvador da pátria.

Mesmo sendo um recorte tão específico de espaço e tempo, a obra não poderia ser mais clara. Qualquer um é capaz de entender as relações ainda pouco distanciadas entre austríacos e o nazismo e como os eleitores de Waldheim não conseguiam enxergar-se como preservadores da mentalidade fascista atada a eles. É um filme tão melancólico quanto poderoso, inspirador ao mesmo tempo que impotente. A humanidade trilha um caminho intermitente onde elege o diabo e depois passa anos tentando fugir desta culpa. Até que elege o diabo novamente. Dos filmes essenciais de 2018, tanto aos austríacos como para o mundo todo.

A Valsa de Waldheim (Waldheims Walzer) — Áustria, 2018
Direção: Ruth Beckermann
Roteiro: Ruth Beckermann
Duração: 93 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.