Crítica | A Very Murray Christmas

estrelas 3,5

A produção de especiais televisivos de variedade de Natal foi uma grande tradição das TVs abertas nos EUA por muitos anos, mas que gradativamente perdeu a força em razão de diversos fatores, dentre eles a maior oferta de programas com a forte reinvenção da TV a cabo ao longo das últimas décadas. E o Netflix, que vem se fixando não só como uma grande produtora e distribuidora de conteúdo inédito, mas como uma espécie de UTI para reviver programas cancelados, como foram os casos das quartas temporadas de Arrested Development e The Killing, resolveu investir em mais uma vertente: a ressuscitação de hábitos e modas de outrora.

A Very Murray Christmas é, para todos os efeitos, uma obra anacrônica, mas que, por uma conjunção de fatores – dentre eles o mero inusitado da coisa – funciona bem como uma homenagem aos programas de variedade. E muito se deve à trinca principal por trás da produção, Bill Murray, Sofia Coppola e Mitch Glazer. Coppola dirige e Murray atua neste programa que marca a volta da dupla perfeita atrás e na frente das câmeras de Encontros e Desencontros e Glazer, que co-escreveu Os Fantasmas Contra Atacam que tem Murray na pele de Frank Cross, uma versão moderna de Ebenezer Scrooge emulam o espírito deste dois filmes no especial. Há a melancolia e solidão que marca a viagem ao Japão de Bob Harris, um ator já em fim de carreira e a lição natalina do conto de Dickens embrulhados em um musical que não é tímido ao trazer um batalhão de estrelas como convidados.

Aliás, uma das diversões do especial está não em reconhecer as estrelas – afinal, em sua maioria, eles vivem eles mesmos, a começar por Murray e Paul Shaffer, o famoso diretor musical e parceiro/faz-tudo/personagem de David Letterman em seu talk show, de 1982 a 2015, que formam a dupla principal -, mas sim em fazer a conexão de todos, ou quase todos com Murray. Amy Poehler, Chris Rock, Jason Schwartzman e George Clooney, dentre outros, têm história com Murray, das mais óbvias (Caçadores de Obras-Primas é citado nominalmente, para ninguém esquecer da conexão Murray-Clooney) às mais obscuras (alguém se lembra da conexão Murray-Rock?).

Em termos de história, este não é o objetivo de um especial de Natal desta natureza, mas ela até está lá, mas apenas um fiapo para emprestar alguma lógica narrativa. Em um texto fortemente meta-linguístico (e nem poderia ser diferente), vemos uma melancólico Bill Murray preocupado com um show de variedades ao vivo que tem que fazer no famoso hotel Carlyle em Nova York, em plena nevasca que impede que seus convidados cheguem ao local. Tudo é uma desculpa para o show logo ser cancelado e Murray improvisar outro, no também famoso bar do hotel, tendo como convidados quem estivesse por ali.

Apesar da simplicidade do roteiro, a trinca responsável por co-escrevê-lo, Murray, Coppola e Glazer erra em seus 15 minutos iniciais (o que é muito, se lembrarmos que o programa tem apenas 56), exagerando na história e em piadas que não funcionam de verdade. Mesmo com Poehler (que não vive ela mesma) presente nesse tempo, fato é que o especial ganha uma camada artificial que só não chega a ser desagradável pela sempre simpática, mas carrancuda, presença de Murray. No entanto, quando a sequência no bar começa, depois do cancelamento do show original, o programa deslancha com naturalidade, ganhando números musicais de Chris Rock (divertido em um papel que parece natural), David Johansen, Jenny Lewis e Maya Rudolfph. No terceiro ato, que acrescenta uma camada extra de surrealidade ao que vemos, há sequências de “sonho” (a imagem da presente crítica é de uma delas) que entram no terreno mais tradicional de programas como este ao mesmo tempo que nos presenteia com Clooney cantando (impagável) e com a inusitada, mas interessante presença de Miley Cyrus (não sabia que Silent Night podia ser uma música sexy…).

Tudo é muito rápido e, em linhas gerais, agradável para quem conseguir ultrapassar os primeiros 15 minutos e, claro, estiver no espírito de programas assim, com um viés nostálgico e um quê mais adulto. Sofia Coppola não brilha na direção, mas seu trabalho com o diretor de fotografia John Tanzer emula muito bem o sentimento de solidão e confinamento necessário para servir de rito de passagem de Murray ao final mais, digamos, apoteótico em seu sonho.

Com duração de curta-metragem, A Very Murray Christmas não exige muito do espectador e agrada com a performance nostálgica de Bill Murray em seu papel de “homem comum” em uma obra deslocada no tempo. Um simpático passatempo que nos remete a uma época passada, mas ainda recente na mente de muitos. Quem sabe o Netflix não criou, com isso, uma nova “antiga tradição de Natal”?

A Very Murray Christmas (Idem, EUA – 2015)
Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola, Mitch Glazer, Bill Murray
Elenco: Bill Murray, Paul Shaffer, Michael Cera, George Clooney, Miley Cyrus, David Johansen,  Dimitri Dimitrov, Rashida Jones, Jenny Lewis, Amy Poehler, Chris Rock, Maya Rudolph, Jason Schwartzman, Julie White, Phoenix
Elenco: 56 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.