Crítica | A Vida de O’Haru / Oharu: A Vida de Uma Cortesã

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estrelas 4,5

Oharu era o projeto dos sonhos do diretor Kenji Mizoguchi. Devido à aparente polêmica do enredo, sua produção foi dificultada, rejeitada e adiada, até que Hideo Koi (que em 1950 produzira As Irmãs Munekata, de Yasujiro Ozu, filme que lhe trouxera pouco retorno e, por isso mesmo, lhe deixava com o pé atrás com Oharu) e Isamu Yoshii, além do próprio Mizoguchi, resolveram encarar o projeto e adaptar uma famosa obra de Saikaku Ihara, romancista e poeta japonês do século XVII, responsável por um estilo que revolucionou a literatura japonesa naquele período de século. Escrito em 1686, o livro que deu origem a Oharu acompanha a protagonista (uma prostituta) e explora as desventuras de se ter nascido mulher na sociedade japonesa do Período Edo (1603 – 1868), governado pelos xoguns da família Tokugawa.

A adaptação, feita por Mizoguchi, ao lado de seu colaborador em muitos filmes, Yoshikata Yoda [pausa para admirar esse sobrenome!] torna Oharu não só um enredo sobre desventuras pessoais, mas sobre o tratamento dispensado à mulher em uma sociedade patriarcal, violenta e disfarçadamente misógina, onde a protagonista (espelho da mulher japonesa) vive diversos papéis, mas não se realiza ou lhe é permitido ficar em nenhum deles. Oharu é a filha rejeitada e também criada, esposa, mãe, concubina, monja, mendiga e prostituta. Nós a vemos começar e terminar o filme sozinha, após uma vida inteira de infortúnios.

O estilo pessoal de Mizoguchi torna a dor de viver da protagonista ainda maior. Notamos que desde o começo a câmera serve Oharu, movendo-se por causa dela, que, envergonhada (de sua situação? De sua velhice? De ambas as coisas?) enconde o rosto. Os primeiros minutos do filme são muito importantes para criar a atmosfera de prisão a céu aberto, mesmo que ainda não tenhamos uma explicação para isso, pois ela vai se construindo à medida que entendemos quem é Oharu e o que ela passou para estar ali. Os quadros deste início destacam mais a paisagem do que as pessoas nele, deixando claro o abandono e a impotência diante da vida.

A atriz Kinuyo Tanaka entrega uma interpretação delicada e meticulosa. Mizoguchi era extremamente exigente com a qualidade das atuações em seu elenco e, especialmente nesse caso, extraiu excelentes momentos, mesmo de personagens com pouco tempo de tela, como o de Toshiro Mifune, por exemplo. As expressões de Tanaka nos ajudam a ler os sentimentos de Ohau, já que o mínimo espaço de fala lhe é dado nessa sociedade e a maior presença dela na história está no curto tempo em que fica próxima ao filho e, depois, com seu casamento, até que mais uma notícia trágica chegue à loja de leques e mais este laço de sua vida se quebre. É como se o tempo inteiro o mundo ao redor de Oharu e das outras mulheres lhes impedissem de gozar a vida. Sua única função de existência era servir.

O espectador deve se acostumar aqui com o ritmo episódico da narrativa. Para um público mais impaciente, ver um filme longo como Oharu em formato episódico deve ser um incômodo, mas entendam que o cineasta propositalmente inseriu essas elipses e “blocos de tempo” na história a fim de abarcar a passagem dos anos para a protagonista e nos mostrar como a sequência de tragédias moldou sua vida e seu comportamento, sem depender de narração ou explicações no contexto cênico (os figurinos também ajudam a marcar essa passagem). Os planos e sequências de maior duração vão diminuindo à medida que o filme avança e isso liga com perfeição o início e o final da obra, terminando por tirar Oharu do quadro, para fora dessa desastrosa realidade e nos deixar apenas com a imagem de um tempo, talvez meditando, talvez imaginando o destino da personagem que, depois de uma vida de dissabores simplesmente desaparece.

O uso econômico da música aqui logo deve ser levado em consideração na composição dramática da história. O recurso aparece de maneira pontual e tem realmente grande presença na reta final do longa, quando Oharu volta para o Clã de onde seu filho agora é Senhor e tenta se conectar a ele, só que mais uma vez é julgada e condenada por atos passados. Primeiro, usada como cortesã. Depois, dispensada porque “não tinha mais nenhuma serventia” e esquecida pelos homens da casa, Oharu é vista em sua velhice como alguém que quase desonrou a imagem do Clã e deveria, segundo lhe dizem, passar o resto de sua vida rezando e pedindo perdão para seu antigo Senhor, o mesmo que a usou para ter um filho e não se preocupou em lhe dar ao menos dinheiro para comer.

Atento ao humilhante papel relegado à mulher na sociedade japonesa de todas as épocas (um reflexo que evidente se aplica a sociedades do mundo inteiro), Mizoguchi joga com as injustiças, não pregando vingança ou teorizando revoluções. Ele torna esses problemas mais infames justamente pela incapacidade de se lutar contra eles e nos enraivece porque suas personagens estão condenadas àquela situação por toda a vida, como um destino macabro que elas precisam cumprir, resignando-se a receber ordens, a ver leis criadas para piorarem suas vidas e nenhuma perspectiva de obter concessões. É como se Oharu fossa a encarnação de muitas gerações de mulheres que tiveram um único papel: fazer os outros (leia-se, homens) felizes. No momento em que sua felicidade se torna evidente ou possível, ou algo surge e toma dela a felicidade. É um pathos pessoal e social filmado de maneira esplendorosa, mas com a delicadeza clássica, que tira muito do mínimo, típica do cinema de Mizoguchi (característica também observada em outros diretores japoneses como Ozu e Naruse).

Aproveitando-se com precisão de ambientes naturais, exercendo um ritmo perfeito de manipulação da câmera, especialmente no plano geral – que aqui é o sinal do desespero, do indivíduo perdido e oprimido pelo mundo –, e assumindo com extrema graça o formato do melodrama, o diretor realiza um de seus maiores filmes, para muitos, o melhor. Existe apenas uma rusga na obra, que são os cortes abruptos entre alguns blocos e sequências do meio da fita, onde a música e a ação são interrompidas de maneira pouco cuidadosa, uma quebra de fluidez que embora não chegue a afetar a experiência do filme como um todo, não tem um bom resultado no momento em que acontece.

Interagindo com todas as classes sociais, Mizoguchi faz aqui um retrato da mulher japonesa no Período Edo e, ao mesmo tempo, realiza a épica jornada de uma personagem forte, acima de tudo, lutadora e solitária. Oharu é uma obra dolorosa que deve ser vista como um retrato do que o mundo, as leis e as pessoas no comando de certas instituições podem fazer de negativo com outros grupos e pessoas. E ainda julgá-las por não serem melhores do que são.

A Vida de Oharu / Oharu: A Vida de uma Cortesã (Saikaku ichidai onna) – Japão, 1952
Direção:
Kenji Mizoguchi
Roteiro: Yoshikata Yoda, Kenji Mizoguchi (baseado na obra de Saikaku Ihara)
Elenco: Kinuyo Tanaka, Tsukie Matsuura, Toshiro Mifune, Ichirô Sugai, Toshiaki Konoe, Kiyoko Tsuji, Hisako Yamane, Jûkichi Uno, Eitarô Shindô, Akira Ôizumi, Kyôko Kusajima, Masao Shimizu, Daisuke Katô, Toranosuke Ogawa
Duração: 133 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.