Crítica | A Vida dos Outros

“Das pálpebras imóveis, das pálpebras de bronze,
deixem que corram lágrimas qual neve fundida,

deixem que as pombas da prisão arrulhem na distância
e que os barcos deslizem em silêncio sobre o Nevá”

Réquiem, de Anna Akhmátova

Os versos acima, de autoria da poetisa russa Anna Akhmátova, refletem o horror stalinista a que a artista foi submetida, praticamente lançada ao ostracismo por quase três décadas durante o regime comunista soviético. O sufocamento da figura do artista dentro da cortina de ferro é bastante conhecido e abordado pelas artes. No caso do cinema, um dos melhores retratos já realizados sobre o assunto é o longa-metragem alemão A Vida dos Outros. O filme, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007, se passa na Berlim Oriental, em 1984 (o que remete imediatamente à obra máxima de George Orwell), quando a polícia secreta da Alemanha Oriental – a Stasi – empreendia a mais paranóica vigilância de seus cidadãos dentre todas as organizações policiais de todos os países do bloco socialista. Se Adeus, Lênin!, de Wolfgang Becker, utiliza da sátira para explicar o degelo político iminente na Alemanha comunista, o filme de Florian Henckel von Donnersmarck se defronta pesadamente com o tema da supressão das liberdades individuais e do vilipêndio ao artista dentro do mesmo contexto.

O roteiro, também escrito por Donnersmarck, é primoroso. O diretor e roteirista estreante consegue evitar a composição de personagens achatados e maniqueístas, ainda que esteja lidando com indivíduos que tem diante de si escolhas difíceis e que, indubitavelmente, passam por noções de certo e errado, bem e mal. Mas é convincente a construção de personagens que fraquejam, tem dúvidas e recuam diante de suas primeiras decisões. Georg Dreyman (Sebastian Koch) inicia o filme como um dramaturgo obediente ao governo, ainda que não escape ao patrulhamento de seus membros. Sua namorada Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck) segue seus passos e vai até mais longe que Georg em sua tentativa de auto-preservação. Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) é o oficial da Stasi encarregado de comandar a operação de vigilância do apartamento do casal por meio de um sistema de escutas. Contudo, se o casal de artistas não tarda a entender que a alienação política tem seus limites óbvios, transformação maior será a de Wiesler ao descobrir que há algo ainda maior que a obrigação política.

É desenvolvendo lindamente essas duas camadas que A Vida dos Outros segue seu caminho. Qual deve ser o nosso engajamento com o nosso tempo e com quaisquer tempos, em que pese a figura do outro como imperativo maior? O trabalho de Donnersmarck mantém a cadência exata para responder a essa questão. O diretor alemão não é de colocar seus quadros em grande movimento, mas acerta bem quando o faz. Quando Wiesler ouve Georg tocar a Sonata para Um Homem Bom ao piano, Donnersmarck realiza um lindíssimo travelling circular ao redor do oficial da Stasi, arrancando dele toda a gravidade que o momento (quase epifânico) exigia. A lágrima que escorre no rosto de Wiesler é um dos grandes momentos da atuação de Ulrich Mühe, um dos maiores atores do teatro alemão e com uma breve mas inesquecível passagem pela sétima arte. O diretor abre e fecha seus planos para exprimir as transformações de seus personagens e corta de um para outro, economizando diálogos e permitindo que o público faça suas deduções ao mesmo tempo em que eles.

O filme toca em um ponto nevrálgico das ditaduras e que merece ser olhado com atenção. Todas elas, sem exceção, quer se orientem à esquerda ou à direita, perseguiram artistas de modo implacável. A soviética provocou longos períodos de sofrimento a uma lista incrivelmente extensa, que inclui, além de Akhmátova, figuras como os compositores Sergei Prokofiev e Dmitri Shostakovich, o poeta e dramaturgo Vladimir Maiakovski e o pintor Wladislaw Strzeminski. A ruptura de Jean-Paul Sartre com o regime cubano se deu exatamente na ocasião da prisão do poeta Heberto Padilla, após longa e injustificável perseguição. Hitler tentou enterrar a música de Felix Mendelssohn, de ascendência judia. Augusto Pinochet arruinou vidas e carreiras, como a do músico Victor Jara. O maior temor de todos os regimes ditatoriais nunca foi a atividade de guerrilhas que a eles resistiam. A atividade artística, ao ampliar ideias e dilatar percepções, sempre foi muito mais subversiva do que o disparo de qualquer arma. As peças de Georg e do amigo Albert Jerska (Volkmar Kleinert) foram um sopro de vida dentro da cinzenta RDA e fizeram surgir “o novo sob o disfarce de um milagre”, como gostava de dizer Hannah Arendt.

Não à toa, a transformação de Wiesler parece tão miraculosa e acontece exatamente sob o efeito dos acordes da Sonata Para um Homem Bom. A arte o ajudou a reencontrar uma humanidade anterior ao posto político que ocupa e à farda que veste. Contra todas as probabilidades, em um cenário tão adverso, renasceu nele o sentido primeiro de compromisso com o outro. Wiesler compreende que não era possível continuar vivendo sem que fizesse a única coisa que lhe parecia correta. Nota-se a consciência do policial alemão de que seu ato arruinaria a sua própria vida, mas, ainda assim, ele toma a sua posição sem titubear, como se não houvesse outra coisa a se fazer. Essa consciência é a mesma que leva pessoas a arriscarem a própria vida para salvarem outras em situações extremas, como guerras e catástrofes naturais. Há algo mais profundo que nos conecta. Algo impresso em nossa humanidade mais medular. Acima do engajamento político, essa é a grande camada que A Vida dos Outros trabalha.

Mesmo que o roteiro do filme de estreia de Florian Henckel von Donnersmarck trabalhe com um contexto político bastante específico, a sua abordagem extrapola muito seus limites históricos. Tudo é tão bem construído que nem o acidente automobilístico final ganha um tom de solução fácil. A direção talentosa e o roteiro tão bem escrito do jovem Donnersmarck deixam a dúvida – não seria aquele um último suicídio de um artista sob o céu plúmbeo da RDA? O certo é que A Vida dos Outros manda uma mensagem clara para todos os que, movidos por atroz analfabetismo político ou pura má fé, reclamam soluções ditatoriais para um país. Uma ditadura sempre começará a definhar quando um homem for capaz de se reconhecer no outro. Algo que totalitários de direita e de esquerda nunca foram capazes de compreender.

A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen) – Alemanha, 2006
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck
Elenco: Martina Gedeck, Sebastian Koch, Thomas Thieme, Ulrich Mühe, Ulrich Tukur
Duração: 137 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.