Crítica | A Vida dos Peixes

estrelas 3

Um dos maiores tormentos do homem é amargar um amor que não deu certo. O pior de tudo é quando a memória do passado está sempre por perto, através e fotografias, lugares, músicas, acontecimentos marcantes e dos quais jamais alguém irá se esquecer. Às vezes, a fuga do lugar que foi palco desses eventos passados é a alternativa mais cômoda, e certamente, a mais covarde. Essa é a situação do protagonista de A Vida dos Peixes, um longa muito elogiado de Matías Bize, que aborda o tema do amor impossível e a possibilidade de mudá-lo através do tempo.

Andrés (Santiago Cabrera) é um jornalista que trabalha para uma revista de turismo e reside em Berlim. Em sua última viagem ao Chile, reencontra velhos amigos e conversa com eles em tom de despedida, sempre evocando acontecimentos do passado, como se fossem estranhos que só se viram uma vez na vida. Na mesma noite, já na saía, Andrés reencontra Beatriz (Blanca Lewin), seu grande amor, que agora é casa e tem duas filhas. A trama se desenrola a partir das conversas e fugas de um e outro nesta noite de aniversário.

O roteiro de Bize e Julio Rojas é autêntico e forte. Os diálogos das personagens são verossímeis e atingem o espectador em cheio, por tratar de um assunto muito comum nos relacionamentos. O impasse é que por escolha própria, os roteiristas não permitiram que a trama tivesse picos, mantendo uma linha narrativa tão linearmente dramática, que incomoda o espectador, embora, numa análise puramente técnica, serviu bem ao que é tratado: como peixes no aquário, a vida dos protagonistas parece uma explicação do eterno retorno, morre na despedida e renasce a cada reencontro. Há quase uma exposição claustrofóbica da situação, e em algum momento, até podemos pensar que não há saída, de algum modo, o casal deveria ficar junto.

Mas a despeito dessa nuance de “vida e destino” que alguém possa encontrar no filme, é possível entendermos o final da película como um ponto de interrogação a todas as certezas pregadas. Em análise ao caráter das personagens, percebemos que Andrés não possui apego a nada, é quase indiferente ao que acontece ao seu redor, e mesmo os sentimentos demonstrados às pessoas que gosta é mínimo e contido. A atuação nada animadora de Santiago Cabrera ajuda a passar essa ideia ao público. No caso de Beatriz, temos uma mulher, mãe e esposa em conflito com o socialmente correto e o desejo íntimo de ter para si a pessoa que sempre amou. Nesse ponto, é de se pensar que o filme adentraria ao clichê shakespeariano, mas, ao contrário, segue por uma rota paralela, usando do egoísmo da personagem principal e a diplomacia de sua companheira para estabelecer uma história de vida e amor, não apenas uma situação amorosa de ida-e-vinda-de-casais, algo tão patético quanto o nome sugere.

A direção de Matías Bize tem altos e baixos. Os diálogos mais intimistas entre o casal principal formam a nata do filme, seja em planificação, seja em roteiro. Em medida aproximada, a sequência de abertura tem uma força enorme, porque nos dá uma visão geral de quem é Andrés e em que patamar se encontra o grupo que vemos reunido. As outras cenas são apenas momentos dispensáveis da passagem de Andrés pelos diversos cômodos da casa, encontrando pessoas e situações que lhe remetem ao passado. É como se a casa fosse um baú da memória, algo com o qual o protagonista deveria se encontrar antes de partir definitivamente para o Velho Continente. É possível que essa noite fosse uma noite de crescimento para ele. Mas seu escudo egoísta e a interpretação insossa de Cabrera não nos permite ter certeza de nada, o que pode ser visto como algo bom ou ruim, dependendo do espectador.

Um ponto muito positivo do filme é a trilha sonora e a fotografia harmoniosa com os ambientes, usando de forte incidência de luz na primeira parte e optando por ambientes com penumbra, meia-luz e cores mais frias da metade para frente. A vida dos Peixes é um filme intimista de pouca genialidade, um produto que quase se torna dispensável, mas que consegue, na soma de suas partes, uma força artística válida para uma sessão de questionamentos sobre o passado, a vida e o amor.

A Vida dos Peixes (La vida de los peces) – Chile, França, 2010
Direção: Matías Bize
Roteiro: Matías Bize, Julio Rojas
Elenco: Santiago Cabrera, Blanca Lewin, Victor Montero, Sebastián Layseca, Juan Pablo Miranda, Antonia Zegers, Matías Jara, Pedro del Carril, María Gracia OmegnaAlicia Rodríguez
Duração: 84 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.