Crítica | A Vida é Bela

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estrelas 5,0

“O amor é uma alegria acompanhada pela ideia de uma causa externa.”

Baruch Espinosa, em Ética.

Quando terminei de assistir a A Vida é Bela, imaginei ser um filme que facilmente agradaria ao público em geral, fosse ele mais ou menos exigente. Com uma linguagem cinematográfica relativamente simples e bastante palatável, a obra de Roberto Benigni tem como força motriz sua enorme capacidade de emocionar o espectador. A Vida é Bela é um filme até difícil de assistir com um olhar tão analítico, tentando destrinchar suas sutilezas, pois seus personagens extremamente carismáticos e sua história tão bem contada rapidamente nos tornam cúmplices de Guido (Roberto Benigni) em todo o seu amor por Dora (Nicoletta Braschi) e pelo adorável menino Giosué (Giorgio Cantarini). É muito fácil ser capturado pelo roteiro e pela atuação do cineasta italiano. Ao menos, foi isso o que eu imaginei.

É um tanto surpreendente perceber como ainda hoje, quase 20 anos após seu lançamento, o filme ainda suscita críticas violentas e inflamadas de parte da crítica e do público. Alguns acusam Benigni de ser excessivamente caricato em sua interpretação. Outros consideram o enredo completamente inverossímil e com cenas absurdas. Há quem simplesmente não admita uma comédia que brinque com um período tão notavelmente sombrio. Seja como crítico de cinema ou como um simples diletante, eu só posso dizer que realmente não entendo essas críticas. Acho que alguns já fecharam as portas para Guido na primeira cena em que ele brinca com o horror do Holocausto. Depois disso, não lhe deram mais chances para demonstrar sua imensa sensibilidade como homem e como pai.

Farei desta crítica uma oportunidade de advogar em favor de A Vida é Bela e de explicar muito do que penso sobre a obra. O primeiro ponto que eu destacaria é o tipo de humor que o ator, roteirista e diretor Roberto Benigni faz em seu longa-metragem. Vemos sua evidente inspiração em Chaplin já na primeira cena, em que o protagonista está em um carro desgovernado e passa por um grupo de pessoas que aguarda a chegada dos fascistas. Guido tenta avisar os populares de que o carro estava sem freio e seus gestos veementes com o braço direito lembram a efusiva saudação fascista, o que imediatamente confunde o grupo, que passa a respondê-la com o mesmo gesto. A cena caberia perfeitamente em O Grande Ditador e até parece retirada dele. Vale ressaltar inclusive que o personagem de Benigni usa em seu uniforme de prisioneiro o mesmo número que o barbeiro judeu de Chaplin, deixando ainda mais explícita a inspiração e a homenagem do italiano.

Além de Chaplin, sentimos também alguns ecos de Fellini em A Vida é Bela, especialmente das comédias protagonizadas pela magnífica Giulietta Masina — A Estrada da Vida e, principalmente, Noites de Cabíria. O humor ingênuo e algo quixotesco de Guido lembra muito o da encantadora Cabíria, tão sonhadora quanto resistente aos acintes do mundo. É nesse ponto que faço uma pergunta: por que concepções de humor tão semelhantes são recebidas de forma tão diferente? Por que Chaplin e Masina podem e Benigni não? Sinceramente, acho que o italiano passa longe de ser cabotino.  O que muitos não toleram é que ele use esse tipo de humor para tratar especificamente do Holocausto, período que ceifou a vida de pelo menos 6 milhões de judeus. Mas por que não caberia o humor, se Begnini não faz sequer uma piada que negue a barbárie daquele tempo ou a dor de suas vítimas?

A Vida é Bela entrega algumas das cenas mais sensíveis e criativas do cinema nas últimas décadas. Quando Guido e Giosué são proibidos de entrar em uma loja por serem judeus, o pai cria uma inventiva história para que o filho não entenda o que realmente está acontecendo. O que dizer, então, da clássica cena em que Guido “traduz” do alemão as palavras do oficial nazista sobre as regras do campo? Por mais dolorosas que sejam as memórias daquele tempo para muitas pessoas, cenas como essas revelam simplesmente como o senso de humor e a imaginação de um pai puderam proteger seu filho de um morticínio quase implacável. O que Begnini oferece é um novo olhar para uma tragédia que ele não nega em momento algum (a cena em que Guido encontra uma enorme pilha de corpos é prova disso).

Uma grande falha de compreensão que identifico em relação ao filme é a de esperar dele um senso de realidade que ele não propõe. Muitas cenas seriam, de fato, impossíveis em um campo de concentração real. Guido não teria nenhuma facilidade de se comunicar com Dora nem de esconder Giosué por tanto tempo no dormitório. É óbvio que passariam fome e que o filho assistiria a horrores muito acima do suportável para um menino tão jovem. Mas o filme não dedica seus 118 minutos a nada disso. Begnini adverte, na cena de abertura, que aquela história seria de “dores, maravilhas e alegrias, tal como uma fábula”. Fica evidente que se trata de uma história dada mais à imaginação que à realidade. O que há de mais fascinante é perceber que Guido protege seu filho exatamente por resgatar dentro de si mesmo algo do olhar do menino, com seu pensamento mágico tão próprio da infância.

A Vida é Bela dá uma verdadeira aula de roteiro – criativo, original e muito bem escrito, emocionando ao mesmo tempo em que diverte. Sua trilha sonora, com destaque especial a Buongiorno Principessa e La Vita è Bella é uma das mais lembradas em toda a história do cinema. Mas o que torna o filme verdadeiramente inesquecível é a emoção marcante que ele provoca ao final da sessão. Por que teria sido tão bela a vida de Guido, com um fim tão precoce e tão trágico? Talvez porque ela simplesmente não tenha se esvaziado de fantasia. Uma vida em que o impossível acontece ao movimentar as mãos, tal como um mágico realizando seu truque. Uma vida em que “as pombas voam, as mulheres caem do céu” nos braços de seus amados e um menino de 5 anos pode, enfim, voltar para casa em seu tanque de guerra.

A Vida é Bela (La Vita è Bella) – Itália, 1997
Direção: Roberto Benigni
Roteiro: Roberto Benigni, Vincenzo Cerami
Elenco: Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Giorgio Cantarini, Giustino Durano, Sergio Bini Bustric, Marisa Paredes
Duração: 118 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.