Crítica | A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro

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“Se um outro cabeludo aparecer
Na sua rua
E isto lhe trouxer saudades minhas
A culpa é sua”

O documentário de Leo Garcia e Zeca Brito sobre o controverso, sedutor e marcante Tarso de Castro, um dos fundadores do icônico O Pasquim, abre suas imagens ao som de Detalhes, do lendário Roberto Carlos, imediatamente ilustrando um sentimento íntimo com os anos 70 e 80, duas épocas que marcaram a trajetória do jornalista ácido, inteligente e resistente que foi nosso protagonista-título.

E é impressionante como, em pouquíssimos minutos, Leo e Zeca abordam já não apenas a injustiça história com Tarso de Castro após seu afastamento d’O Pasquim (seu nome foi praticamente apagado da história do jornal após sua demissão), mas também a passagem de inúmeros nomes, rostos e figuras que estiveram ao seu lado na trajetória de resistência, amores e devoção ao jornalismo, e não há melhor maneira de ilustrar todo o sarcasmo e ironia que tomava conta do trabalho de Tarso como com a abertura onde Marcelo Tas e seu personagem Ernesto Varela entrevistam o biografado, que se desvencilha das perguntas sobre sua personalidade para falar sobre os dotes físicos de algumas moças na platéia. Sim, Tarso de Castro carregava consigo aquela fama de mulherengo nato, características óbvias de um sexismo e objetificação, algo que nem mesmo alguns dos entrevistados negam diante da câmera, até a ressaltam. A Vida Extra-ordinária de Tarso de Castro não é um filme para ovacionar sua figura, mas sim a marca e inspiração que seu trabalho deixou na trajetória do jornalismo.

“Devo ter todos os defeitos possíveis, mas faço questão de exercer minhas virtudes.”

E traduzir ou reproduzir a irreverência e acidez dos textos e do jeito de Tarso de Castro não era tarefa das mais fáceis, visto a dubiedade dos sentimentos que o homem despertava nos que conviviam ao seu redor, indo do ódio ao fascínio, da paixão para a negação em questão de momentos. Acompanhado destes sentimentos, Tarso também carregava consigo seus ideais inquebráveis e contagiantes de liberdade, poesia e uma forte crença naquilo que lhe parecia ser correto falar para trazer à tona, o que torna ainda tão atrativo o olhar sobre essa figura boêmia, que buscava suas informações nas esquinas dos botecos e dos becos da cidade, ao mesmo tempo que adotava métodos anti-tradicionais para levar seu ofício adiante.

Carregando semelhanças estruturais e narrativas com outro documentário recente, o fabuloso Torquato Neto – Todas as Horas do Fim, a dupla de diretores recria a história de Tarso através de fotografias, cenas de filmes que marcaram sua época e entrevistas que, numa bela ironia ao costume do jornalista de sempre procurar um telefone perto de si, trazem os entrevistados respondendo as perguntas em cenários familiares por meio de celulares, o que denota o olhar leve e bem-humorado que Leo e Zeca carregam sua miscelânea de informações na tela.

“Viver é fácil. A dor é apenas o intervalo para fumar.”

E como qualquer figura que cuja força do nome e imagem funcione como uma representação da época em que viveu, o documentário reforça a ligação de Tarso junto a movimentação política que se abateu no Brasil nos anos 60 durante a Ditadura Militar e as ações do repressivo AI-5, onde seu jornal se tornou uma das principais armas politizadas da mídia contra a censura do golpe. Da mesma forma, nos é desnudado a figura humana que havia por detrás do jornalista boêmio, um homem devoto ao trabalho antes de tudo, que não enxergava nenhuma linha divisória entre viver seu ofício e abraçar a vida, a cerveja e as mulheres. Tudo era a sua casa, seu cotidiano, seu território. Seus amigos e inimigos foram plantados enquanto Tarso buscava suas histórias para serem contadas, talvez conservador e burocrático em seus métodos, mas que fazia daquela sua arte também a sua vida, enquanto o alcoolismo o carregava para sua partida precoce, aos 49 anos, de cirrose hepática.

Mas não há julgamentos sobre Tarso em seu documentário. Não há condenações morais ou acusações sobre como o jornalista levou sua vida até o fim, mas sim uma revisitação sobre um homem que viveu sua vida intensamente, despreocupado, tão cheio de identidade, carisma e cafajestagem, ao mesmo tempo em que falar sobre Tarso de Castro também serve aos diretores como objeto de reflexão sobre o que a improvável adequação deste ao jornalismo de hoje (e aos tribunais de internet) nos diria sobre o estado atual da profissão. Uma pergunta tão ácida e pertinente quanto fora o próprio Tarso.

“Além da vida não tem explicação, vivo o presente!”

A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro (Brasil, 2017)
Direção: Leo Garcia, Zeca Brito
Roteiro: Leo Garcia, Zeca Brito
Elenco: João Vicente de Castro, Paulo Cesar Pereio, Caetano Veloso, Jaguar, Luis Fernando Verissimo, Mário Prata, Sérgio Cabral, Xico Sá, Ziraldo, Antonio Pedro, Chico Buarque, Daniel Filho, Paulo Caruso, Paulo César Peréio, Zuenir Ventura
Duração: 90 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.