Crítica | A Vida Útil – Um Conto de Cinema

estrelas 4

A representação do crítico de cinema ganhou maior espaço ao ir além das colunas de jornais, revistas e sites especializados. Profissionais amados e odiados em proporções semelhantes, os críticos foram pauta de muitas produções nos últimos anos. A presença não foi apenas prerrogativa do cinema documental, como fez Kleber Mendonça Filho em Crítico, mas no ramo da encenação ficcional também, termo que hoje é questionado, tendo em vista que há requintes de representação nos documentários, assim como há traços documentais em enredos ficcionais. Ambos os setores tomam de empréstimos as suas características, para o bem do cinema enquanto arte em constante evolução.

Em Confissões de uma Garota de Programa, de Steven Sodebergh, o crítico Glenn Kenny interpreta a si mesmo. No Brasil, o renomado Jean-Claude Bernardet participou de Filmefobia, uma produção excêntrica do cineasta Kiko Goifman. Em Alta Fidelidade, de Stephen Frears, uma das namoradinhas do complicado personagem de John Cusack, interpreta uma crítica de cinema, que ao utilizar uma irritante caneta que acende ao passo que é manuseada, irrita os espectadores que assistem ao filme nas poltronas próximas ao casal.

Seja pela excentricidade, arrogância ou altos níveis de intelectualidade, os críticos possuem vastas representações no cinema. Em A Vida Útil – Um Conto de Cinema, estes profissionais encontram a tarefa de guardiões da cultura e mantenedores da memória do cinema. Mais complexos que qualquer horda de super-heróis, os críticos do filme lutam diariamente pela formação de público na Cinemateca de Montevidéu.

Nesse painel de lutas, eles ainda precisam convencer os investidores a fornecerem aparelhagem de projeção mais moderna, poltronas confortáveis para a sala de projeção e a organização de uma programação mais atraente. O crítico de cinema Jorge Jellinek, renomado no Uruguai, é o protagonista desta cruzada repleta de melancolia e frustrações.

Ele interpreta Jorge, um homem de 45 anos que ainda mora com os pais e dedicou os últimos vinte e cinco anos de sua vida ao trabalho realizado na Cinemateca: suporte técnico, montagem da programação e representante do centro cultural em um programa de rádio local. Certo dia, Jorge é surpreendido pela notícia da suspensão de investimentos e possível encerramento das atividades na Cinemateca. Aturdido, haja vista que o crítico não possui experiência em outro segmento profissional, Jorge precisa alterar o percurso da sua vida e se adaptar ao novo mundo que lhe é apresentado.

Com aluguel atrasado, salas semivazias e equipamento defasado, a organização da Cinemateca percebe que não há mais motivo para manutenção do emprego de Jorge. E é nesse ponto que o filme dá a sua guinada, mostrando para os espectadores e os personagens que há um caminho a ser trilhado: o amor. O protagonista descobre esse sentimento tardiamente, através de Paola (Paola Venditto), uma professora universitária e frequentadora da Cinemateca. Quando o sentimento explode em cena, a narrativa ganha outro rumo: sai dos corredores da Cinemateca e põe os personagens em cena na rua, através de enquadramentos mais abertos.

Os aspectos técnicos são bem organizados na estrutura do filme: filmado em cores e transposto para preto e branco, a produção alcança um ponto de vista quase documental, com remissões (propositais ou não) à estética do cinema mudo. Como toda abordagem metalinguística engajada, a cenografia investe nas prateleiras com filas de fitas VHS e nas paredes com cartazes de filmes de várias fases da história do cinema.

A música do filme é um dos pontos cruciais para o estabelecimento do tom narrativo nostálgico e metalinguístico: quando o Jorge vai ao encontro de Paola, a cena é acompanhada com uma música que nos remete aos faroestes mudos, bem como a caminhada do personagem por uma fonte cheia de peixes, tendo como adorno a presença de acordes de suspense. Há ainda uma dança nas escadarias de uma universidade, que nos faz lembrar trechos de números musicais renomados na história do cinema hollywoodiano.

Quando a situação da Cinemateca se define, é possível perceber que a vida de Jorge ganha novo rumo. Essa caminhada com diferentes toques musicais lembram os filmes de Chaplin, bem como características do neorrealismo italiano. A fotografia, sob a tutela de Arauco Hernandéz, nos oferta um filme de 2010 com cara de 1950. Nostalgia, melancolia e lirismo se misturam em prol do desenvolvimento da história.

Os créditos iniciais e a conclusão com a simples cartela demarcada com a palavra “fim” dão o tom clássico ao enredo, somado ao ajuste no formato de tela quadrado, similar ao que era a projeção cinematográfica nas primeiras décadas do século XX. O ritmo lento pode deixar os mais habituados ao cinema contemporâneo em estado de agonia, mas essa sensação logo se esvai quando a gratificante reflexão sobre o cinema como arte e indústria sobressai.

No terreno da encenação, Jorge Jellinek esbanja talento. Não há espaço para caricaturas, pois o profissional mostra total segurança ao desempenhar a si mesmo em cena. O crítico Manuel Carril, que também interpreta a si mesmo, não fica muito distante, pois consegue segurar bem as poucas cenas em que aparece. Jorge, ao encenar o “elogio da mentira”, toca nas cordas sensíveis da representação, tornando a metalinguagem do filme sofisticada e teórica.

Com arroubos de silêncio e poucos diálogos, a narrativa pede ao espectador mais paciência que a habitual, haja vista que o filme não entrega uma historinha redondinha. Ao contrário, A Vida Útil – Um Conto de Cinema faz algumas provocações mais explícitas e outras cutucadas na condição do cinema contemporâneo, e assim, deixa espaço para o público pensar sobre o assunto, dentre eles, a rentabilidade da arte no sistema capitalista e o papel do Estado na promoção da cultura.

Em um mundo romântico e ideal, a arte seria tratada como um bem social, sem o apelo capitalista que seleciona os que consomem e os que ficam de fora do circuito de “acontecimentos artístico-culturais”. Esse é um dos temas possíveis para reflexão no filme, que diante da situação da Cinemateca, nos suscita o seguinte questionamento: é tarefa estatal zelar pela manutenção e circulação da cultura?

O duelo secular entre arte e lucro encontra lugar desconfortável no filme, pois o quadro de sócios da Cinemateca não é suficiente para dar conta das mudanças necessárias. A Fundação se nega a dar continuidade ao patrocínio da instituição, tendo em vista que o espaço não é uma unidade lucrativa. Resumindo, a narrativa nos mostra que projetos de caráter experimental, de formação de plateia e preservação da memória cultural não interessam às empresas privadas, pois estas trabalham na égide do capital.

No percorrer dos seus 67 minutos de duração, A Vida Útil – Um Conto de Cinema se apresenta como um filme sobre o amor em varias perspectivas no âmbito da indústria cinematográfica: é o crítico representando a si mesmo, é o cinema falando do cinema e a arte questionando o seu estatuto. Esse fluxo de autorreflexão, lançado em poucas salas de cinema em 2010, foi o representante do Uruguai para o Oscar 2010, além de ter ganhado o Prêmio do Júri nos festivais internacionais de cinema em Istambul e na Transilvânia.

A Vida Útil – Um Conto de Cinema (La Vida Util – Uruguai, 2010)
Direção: Federico Veiroj
Roteiro: Federico Veiroj, Inês Bortogary, Gonzalo Delgado e Arauco Hernandéz
Elenco: Federico Veiroj, Manuel Carril, Jorge Jellinek, Paola Venditto.
Duração: 67 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.