Crítica | A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

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estrelas 4

Quando se trata de adaptações ocidentais de animes, mangás ou outros quadrinhos orientais é apenas natural que as pessoas fiquem com um pé atrás. O histórico dessas releituras certamente não favorece as novas empreitadas de realizadores, considerando que já vimos verdadeiras tragédias como Dragon Ball EvolutionOldboy, ainda que esse último seja um remake do filme coreano e não mais uma adaptação de seu material original. A verdade, porém, é que essas mídias são dificilmente transcritas para o live-action, visto que até mesmo as versões orientais deixam a desejar. Claro que mais filmes japoneses foram bem sucedidos nesse sentido, mas vale lembrar que praticamente todos os mangás e animes de sucesso acabam ganhando sua versão cinematográfica por lá.

A grande questão é que o público ocidental acaba tomando por base as terríveis produções do gênero, não levando em conta aquelas que são realmente boas, como No Limite do Amanhã e outras que apenas foram inspiradas por materiais orientais, como MatrixCírculo de Fogo (Pacific Rim). A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, naturalmente, sofre com tal questão, por mais que sua excelente campanha de marketing tenha reduzido o temor do espectador. Estamos falando de algo baseado na obra de Masamune Shirow, que gerou um dos animes mais importantes já feitos, o medo, portanto, é mais que justificado.

Antes de entrarmos na análise em si, vamos adereçar a polêmica envolvendo a escalação de Scarlett Johansson para o papel da protagonista. A major Motoko Kusanagi, apesar de seu nome japonês, jamais teve sua nacionalidade colocada em pauta, tanto no mangá, quanto em suas inúmeras adaptações. Ela é um ciborgue, teve seu corpo construído do zero, mantendo apenas o seu cérebro, o qual, também, foi aprimorado com tecnologia. Mesmo sua aparência, nas animações e quadrinhos, não revela sua origem, sendo dificilmente enquadrada em uma etnia específica. De fato, a Seção 9, da qual pertence, conta com uma grande diversidade de membros – Batou, por exemplo, é outro que não sabemos ao certo de onde vem e isso perfeitamente se encaixa no universo criado por Shirow, de tal forma que ele próprio concordou com a escalação de Johansson.

Tal questão já é deixada bem clara nos primórdios da versão americana. Vemos Mira (Scarlett Johansson) sendo construída de tal forma que fica bastante claro que apenas seu cérebro fora mantido. Nos é explicado que ela é a única sobrevivente de refugiados que vieram de fora do país (interessante que nomes de nações jamais são utilizados). A intenção de criar seu corpo robótico, porém, tem como objetivo utilizá-la como uma arma. De imediato já sabemos que ela é única e em apenas um ano já é colocada como líder de uma equipe destinada a combater o ciberterrorismo e outras formas de crimes, em um universo no qual a proximidade do homem com a máquina é mais presente do que nunca.

De fato, todos os companheiros de seu time é formado por um elenco multirracial, com atores da Dinamarca, Estados Unidos, Singapura, Japão, Austrália, França, dentre outros países. Tal questão garante a percepção de um mundo ainda mais globalizado, no qual as fronteiras entre países se tornou puramente simbólica, afinal, todos podem se conectar através do ciberespaço, um dos conceitos mais recorrentes do cyberpunk, subgênero da ficção científica no qual essa história se enquadra. Essa barreira étnica é ainda mais derrubada pelo personagem de Takeshi Kitano, Aramaki, que somente fala em japonês e todos os outros entendem e falam com ele em inglês, mostrando que o idioma também se tornara puramente estético, visto que a mensagem é automaticamente traduzida pelos cérebros modificados através da tecnologia.

Logo nos primeiros minutos já encaramos toda a ambientação do longa-metragem como um cenário profundamente dominado pelas corporações. As cidades são preenchidas por propagandas holográficas imensas, remetendo diretamente a Blade Runner, com seus painéis gigantescos nos prédios. Chega a ser desconfortável observar esse universo, que reduz ainda mais o caráter do ser humano, visto que ele se torna apenas um detalhe em um mundo no qual os avanços da ciência o forçam a se aprimorar ciberneticamente para não se tornar obsoleto. Nesse sentido, o personagem Han ( Chin Han) desempenha o papel vital de se diferenciar dos outros: ele é o único humano sem grandes modificações no corpo e o enfoque na humanidade do ser começa a aparecer daí.

Essa questão é ampliada quando o vilão, Kuze, começa a aparecer. Um indivíduo desconhecido que hackeia outros ciborgues para matar membros de uma empresa específica. Durante a investigação, Mira começa a se questionar sobre sua própria natureza, se perguntando o que a diferencia desses robôs que Kuze utiliza para carregar sua vontade. Serão suas memórias verdadeiras? Ou algo puramente fabricado pela companhia que construiu seu corpo? Impossível não remeter novamente a Blade Runner, que coloca em xeque justamente esses aspectos do protagonista e aqueles a seu redor. Sim, esse é um dos pontos levantados pela obra original de Masamune Shirow, mas ouso dizer que atmosfera criada aqui em A Vigilante do Amanhã nos liga diretamente à obra-prima de Ridley Scott.

Dito isso, mais que um filme de ação, a obra dirigida por Rupert Sanders foca no existencialismo da protagonista, que mais e mais passa a duvidar de sua própria identidade. Scarlett Johansson, que já se destacara em outras ficções científicas, vide Sob a PeleLucy, nos entrega o perfeito retrato do auto-questionamento, duvidando de tudo à sua volta, algo que é deixado bem claro pelos defeitos em sua visão, que começa a enxergar coisas que não estão exatamente ali. A (des)construção da protagonista se faz, portanto, de maneira fluida e somos mergulhados em suas dúvidas, nos identificando cada vez mais com ela. Até que ponto a tecnologia apaga aquilo que realmente somos? O olhar da atriz, ora explorando seu lado aparentemente sem emoções, ora evidenciando seu abalo emocional é capaz de traduzir toda essa jornada interior.

Curiosamente, um filme que tanto questiona o impacto da tecnologia é um daqueles que, em recente memória, mais faz uso dela a fim de elaborar esse universo distópico. A utilização da computação gráfica aqui é essencial, compondo um retrato imersivo dessa sociedade. Desde os robôs, passando pelas interfaces holográficas,  até os anúncios já mencionados, tudo nos faz acreditar nesse futuro que enterra a identidade das pessoas, com cores sobressaindo ao branco e cinza dos prédios. Esse novo mundo ainda entra em conflito com o antigo, vemos, em algumas sequências, o antigo, praticamente esquecido, sendo bem retratado pela sua sujeira que contrasta perfeitamente com a limpeza daquilo que é vendido como o ideal modo de vida.

Esse aspecto dialoga diretamente com o próprio corpo de Mira: por fora ela é uma linda mulher e por dentro apenas engrenagens e partes descartáveis que podem ser substituídas se danificadas, à exceção de seu cérebro, é claro. Pode-se dizer, portanto, que esse universo carece da alma que define o ser, o ghost presente na mente das pessoas, que se tornam menos humanas a cada dia que se passa. Levando isso em conta fica fácil enxergar como o ciberespaço se configura como algo mais real, visto que lá a identidade das pessoas se torna palpável, ganhando manifestações físicas. Isso tudo vai lentamente construindo a sensação de solidão no espectador, algo ainda mais aumentado pelos diálogos que ocorrem apenas ligando a mente dos personagens, dispensando, portanto, a fala como transmissora de mensagens.

Àqueles que acompanharam o mangá e suas diversas adaptações em anime, pontos como esse são um prato cheio. O mais impresisonante, contudo, é como o roteiro de Jamie Moss e William Wheeler aproveita inúmeras sequências dessas obras que o antecederam, colocando-as em live-action sem comprometer a narrativa, soando como algo especialmente pensado para o filme. Nesse quesito, A Vigilante do Amanhã funciona como uma releitura de tudo aquilo que a antecedeu, com cenas e personagens inspirados em Ghost in the ShellA InocênciaAriseThe New Movie. Ainda que o caráter filosófico do primeiro anime não esteja presente com toda a sua força, presenciamos aqui um foco maior na identidade e não naquilo que nos torna seres vivos. Dito isso, com essa simples mudança, o longa-metragem solidifica sua relevância, não sendo apenas uma cópia do que veio antes. Além disso, um aspecto importante do roteiro funciona como um verdadeiro tapa na cara daqueles que reclamaram da escalação de Johansson para o papel, uma jogada genial e respeitosa em relação ao material original.

Essa construção somente é prejudicada em determinados pontos pela direção de Sanders, mais especificamente em certas cenas de ação, que contam com mais cortes do que necessário, tornando-as confusas. Não são todas, porém, e no geral, o diretor se sai bem, especialmente por utilizar a computação gráfica não para substituir os atores, mais para complementar suas sequências, especialmente aquelas que fazem uso da invisibilidade de Mira. Dito isso, cada sequência de ação consegue se diferenciar da anterior, fazendo bom uso dos coadjuvantes, especialmente Batou (Pilou Asbæk), que gradualmente tem sua relação com a Major construída de forma que sentimos a proximidade e confiança existente entre os dois.

Outro personagem muito bem elaborado ao longo da projeção é Kuze (Michael Pitt), que se estabelece de forma verdadeiramente assustador, ampliando o conceito de ciberespaço, que passa a se tornar um refúgio desse mundo corporativo, que visa utilizar os ciborgues como meros objetos, armas. É interessante observar como, de vilão, ele passa a ser vítima e a caracterização do antagonista somente é rivalizada pela atuação de Pitt, que nos passa a ideia plena de mal-estar, uma pessoa que somente quer se libertar daquele universo, que o enxerga como descartável.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell traz, portanto, um profundo respeito a tudo aquilo que o precedeu. Por mais que não toque de forma tão enfática nas questões levantadas pelo mangá e anime de 1995, o live-action explora outros aspectos dessa mitologia, colocando a própria identidade do ser humano, suas memórias, em xeque. Nossos temores em relação à adaptação foram, felizmente, descartados, ao passo que fomos presenteados com uma obra com valor próprio, que sabe elaborar esse universo futurístico que enxerga as pessoas como substituíveis, sabendo construir seus personagens e um visual completamente imersivo.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the Shell) — EUA, 2017
Direção: Rupert Sanders
Roteiro: Jamie Moss, William Wheeler (baseado no mangá de Masamune Shirow)
Elenco: Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Michael Pitt, Chin Han, Danusia Samal, Lasarus Ratuere, Yutaka Izumihara
Duração: 106 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.