Crítica | A Vilã

O cinema sul-coreano, de vários anos para cá, tem sido responsável por trazer lufadas de ar fresco para filmes com temáticas batidas. Desde Oldboy e O Gosto da Vingança, passando por O Hospedeiro e Eu Vi o Diabo e chegando aos recentes Invasão Zumbi Okja, as pegadas originais e ousadas dos mais diversos diretores têm encantado o mundo e realmente trazido inovações ou reintroduções de elementos cinematográficos de forma peculiar.

A Vilã é mais um exemplar desse cinema que, pegando o tema básico da vingança, nos oferece uma amálgama falha, mas fascinante de uma série de outras obras – orientais e ocidentais – que já vimos por aí. Há muito da mulher perdida treinada como uma máquina de matar de Nikita – Criada Para Matar,  do exagero sanguinolento da vingança irrefreável da Noiva em Kill Bill (por si só uma feliz reunião representativa do cinema oriental de artes marciais dos anos 70), da sofisticação visual – por vezes vazia – das obras de Nicolas Winding Refn, do drama pessoal violento de Despertar de um Pesadelo, da violência estilizada de John Wick, da pancadaria incessante de Operação Invasão e, finalmente, do experimentalismo – só que contido e focado – de Hardcore Henry. Eu poderia citar outros vários filmes que certamente compuseram o arcabouço inspirador do segundo longa de ficção de Jung Byung-gil, mas os mencionados aqui muito claramente delineiam o que é A Vilã.

Como toda história de vingança, a premissa é básica: mulher tem ente querido assassinado, torna-se uma super assassina e parte para acabar com os responsáveis por sua infelicidade. O roteiro, co-escrito pelo diretor juntamente com Jung Byeong-sik, esforça-se em emprestar mais camadas dramáticas à sina de Sook-hee (Kim Ok-bin), dando-lhe também o papel de mãe dedicada, mas, no frigir dos ovos, trata-se de apenas um pouco de enfeite em uma trama bastante objetiva contada de forma falsamente complexa, com idas e vindas no tempo em uma montagem não-linear confusa que muito mais quebra o ritmo da ação do que esclarece as motivações óbvias da personagem. De certa forma, o drama pessoal da protagonista acaba inflando a narrativa, levando o filme para além de duas horas desnecessariamente, além de trazer algumas inconsistências e elementos ilógicos, o mais evidente deles sendo o alvo de Sook-hee durante seu casamento que não faz sentido harmônico dentro da história sendo contada, estando ali só para marcar a obrigatória “reviravolta” na história.

De toda forma, os problemas de ritmo determinados pela aparente necessidade de Jung Byung-gil em acrescentar elementos talvez exageradamente dramáticos em seu filme de forma alguma retiram os méritos técnicos da fita. Trata-se, aqui, de um caso clássico de estilo sobrepujando a substância, algo comum em Hollywood como sinônimo de falta de inspiração, mas que, no cinema coreano, costuma realmente ganhar ares deslumbrantes. Se olharmos friamente, creio que seja perfeitamente possível concluir que todo o miolo do filme é apenas uma desculpa para justificar as duas principais cenas de ação em A Vilã, uma no começo e outra no final, ambas em planos-sequência extremamente complexos e que dão a impressão de não terem cortes ao longo de sua duração (mas que fique claro: há cortes; eles são apensa muito bem escondidos).

Em particular, a sequência inicial no estilo videogame em primeira pessoa é uma daquelas que dá vontade de ver de novo e de novo. Diferente de Hardcore Henry, que usa o artifício de forma desleixada e exagerada, sem qualquer preocupação com detalhes, Jung Byung-gil imediatamente prende a atenção do espectador ao lidar com uma variedade de situações em espaços confinados e com armas de fogo e brancas que realmente explodem diante de nossos olhos em uma fúria impressionante e hipnotizante graças à uma magnífica movimentação de câmera que procura sempre surpreender com ângulos impossíveis, troca de perspectiva e uma exata sensação de se estar no meio das lutas. É quase desapontador quando esses sete minutos iniciais acabam e o filme realmente começa, com Sook-hee sendo, ato contínuo, recrutada por uma agência governamental da Coreia como assassina. Mas as quedas de ritmo, como disse, se justificam para servirem de ponte entre sequências de ação extremamente bem trabalhadas e coreografadas, com uma fotografia normalmente noturna esplendidamente bem feita com o melhor uso de superfícies reflexivas e um CGI que complementa a ação sem, porém, tomar seu lugar.

O roteiro, porém, perde pontos quando Sook-he é humanizada. Não que esse aspecto não seja bem-vindo, pois ele é e Kim Ok-bin tem uma atuação realmente diferenciada se compararmos com papeis semelhantes de outros atores e atrizes do gênero por aí. O problema é que sua eficiência mortal mostrada nos tais sete minutos iniciais simplesmente não combinam com sua relativa incompetência nas missões seguintes. É como se a personagem tivesse sido imaginada invencível demais para os propósitos do roteiro, tendo que ser “ajustada” na medida em que a trama progride, algo que, por exemplo, Quentin Tarantino sabe lidar de forma muito mais equilibrada com sua Noiva.

A Vilã é um divertido e frenético bombardeio visual com o bônus de ter uma atriz que veste plenamente seu papel e de contar com um apuro nas composições de cena raro de se ver por aí. É pancadaria e mortandade incessante que dá gosto de ver, ainda que tudo seja esquecido não muito depois dos créditos rolarem.

A Vilã (Ak-Nyeo, Coréia do Sul – 2017)
Direção: Jung Byung-gil
Roteiro: Jung Byung-gil, Jung Byeong-sik
Elenco: Kim Ok-bin, Shin Ha-kyun, Sung Joon, Kim Seo-hyung, Jo Eun-ji, Lee Seung-joo, Son Min-ji, Min Ye-ji, Kim Yeon-woo
Duração: 129 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.