Crítica | A Vila

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estrelas 4

“Não revele o final deste filme. Esta regra não deve ser quebrada.”

Esta era a campanha que circulava durante os meses que antecederam o lançamento de A Vila, filme do indiano M. Night Shyamalan que, apontado pelos mais afobados como “o Alfred Hitchcock da nossa geração”, viu o público e a crítica criarem expectativas errôneas em cima de suas obras, uma vez que após a surpreendente reviravolta de O Sexto Sentido, este mesmo público parecia apenas esperar que o diretor criasse um novo final que causasse tanto impacto quanto o desfecho da história sobre o garoto que via pessoas mortas.

Desta forma, o verdadeiro conteúdo das obras de Shyamalan foi verdadeiramente compreendido por um número reduzido dessa massa, que mais do que apenas aguardar uma reviravolta surpreendente ao final, conseguia enxergar nas obras do indiano um quê de rigidez na forma com que suas histórias eram moldadas e contadas, um tipo de cinema autoral cada vez mais raro na Hollywood de hoje. Seus filmes são, em sua maioria, apoiados em elementos fantásticos que são utilizados em prol de, veja só, trazer um inesperado ar de veracidade aos seus filmes. Afinal, quem poderia esperar que Corpo Fechado, um filme de “super-heróis”, e Sinais, uma ficção cientifica com alienígenas, reuniriam elementos tão humanos para moldar seus personagens repletos de traumas, anseios e angústias?

A Vila segue esta mesma linha, com a diferença de que parece ser uma obra mais pessoal do diretor (não mais do que o pavoroso A Dama na Água), justamente pela maior liberdade com que Shyamalan comanda sua história, que de forma ousada, nos traz uma narrativa que manipula as expectativas do espectador ao seu bel prazer. Shyamalan, entretanto, não utiliza tal artificio de forma gratuita, mas o faz para ressaltar o quão intimista e pessoal o filme pode ser não apenas para ele, o realizador, mas também para nós, espectadores.

Sem revelar muito sobre o filme, basta dizer que a obra se situa no século XIX, onde os habitantes de um vilarejo mantém um acordo com Aqueles-Que-Não-Devem-Ser-Mencionados, criaturas que vivem na floresta que cerca o vilarejo. Em meio a este cenário, vemos o desenrolar de uma história de amor vivida entre o tímido e educado Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) e Yvi, uma jovem que nasceu cega, mas é capaz de “enxergar” uma cor em determinadas pessoas.

Com exímia condução narrativa, A Vila é um clássico exemplo do quanto a economia no roteiro pode não apenas valorizar a própria obra em si, mas também fazer com que o espectador sinta que sua inteligência não está sendo desrespeitada. Shyamalan demonstra confiança no compreendimento do espectador, e de início molda poucos diálogos, evitando a exposição excessiva dos fatos e deixando que as imagens falem por si. É uma opção interessantíssima, uma vez que o espectador se vê obrigado a compreender aos poucos a complexidade da situação e, com isso, consiga se sentir mais envolvido na trama.

Com tal recurso, Shyamalan cria aquela que talvez seja uma das atmosferas charmosas e bem construídas dos últimos anos. Com o auxilio da envolvente e dissonante trilha sonora de James Newton Howard (indicada ao Oscar), o diretor cria mais um filme de clima e menos de personagens. Claro, estes ainda são de importância indispensável para a trama, mas é na atmosfera do longa que vemos Shyamalan construir seu verdadeiro apoio.

Se Shyamalan peca em algo, é justamente na “necessidade” (algo que o diretor jamais havia se rendido antes) em trazer ao público uma reviravolta que possa funcionar como “a cereja do bolo”, e no caso de A Vila, há um excesso delas. São três reviravoltas no total, duas delas sendo extremamente previsíveis e absolutamente dispensáveis, o que talvez comprove o espírito comercial que Shyamalan adquiriu após este filme, algo que pode ser confirmado com seus dois últimos filmes, O Último Mestre do Ar e Depois da Terra.

Entretanto, os méritos de A Vila conseguem falar mais alto. Há toda uma rima visual nos enquadramentos de Shyamalan, que fazem o filme oscilar perfeitamente entre o suspense e o romance. Perceba isto na cena em que Yvi espera Lucius na porta enquanto as criaturas atacam o vilarejo: a forma com que Shyamalan muda de gênero nesta cena em míseros segundos é absolutamente magnífica, uma habilidade de saber equilibrar suas obras que Shyamalan, infelizmente, perdeu com o passar do tempo. E sobre os enquadramentos, alguns estão entre os mais belos já concebidos pelo diretor, muito em parte da fotografia quase sépia do mestre Roger Deakins e os figurinos de Ann Roth, que criam contrastes belíssimos entre as cores amarela (considerada como a cor da segurança) e  vermelho (a cor que atrai as criaturas).

Contando também com um elenco competente e em grande sintonia com seus respectivos personagens (incluindo Bryce Dallas Howard em sua estreia nas telas), A Vila talvez tenha sido a última grande obra de M. Night Shyamalan. É um suspense elegante, de moldes clássicos e muitíssimo bem construindo. Como já dito, é um cinema autoral o qual pouco vemos hoje em dia, e por isso mesmo, vale sempre ser revisto.

A Vila (The Village, EUA, 2004)
Roteiro: M. Night Shyamalan
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, William Hurt, Adrien Brody, Sigourney Weaver, Brendan Gleeson
Duração: 107 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.